Morte, inimigo número um do homem

Morte, inimigo número um do homem

Nossa alma sofre quando percebe a transitoriedade da vida, a existência, em sua mais alta complexidade, nos proporciona reconhecer que somos como uma bruma. Há uma força brutal na expressão: “tu és pó e ao pó voltarás”. Convivemos muito bem com o nosso melhor inimigo, a morte, desde que ele não bata em nossa porta. Nos sentimos capazes de consolar alguém enlutado, temos palavras cheias de boa vontade de que nosso próximo possa superar a dor dilacerante da morte de um ente querido. Todavia não cogitamos o fato concreto, nem em hipótese admitimos que a morte exista para todos. É como já disseram alguns filósofos estéreis, “a morte é nossa única certeza”. Assim como morre o homem, morre o cão. Alguns ainda defendem que a morte seja uma coisa supranatural, que ao morrer se encontra o descanso eterno e desejado durante toda luta pela vida, pela felicidade.

Para sustentar esta tese, alguns estudiosos, sobretudo Freud, defendiam que todos os seres humanos têm um desejo inconsciente de morte, para enfim se livrarem dos imprevistos, que segundo o livro de Eclesiastes sobrevêm a todos. Neste mesmo livro magnifico há uma expressão que coaduna com muitos pensamentos filosóficos, os de que a morte nada mais é que um estado de perene letargia, um sono profundo que outros teóricos cognominam de Nirvana.

“ (…) Freud referiu-se a isso como o início do Nirvana. Nirvana é um conceito budista normalmente traduzido como “Heaven”, mas o seu significado literal é “soprar drenagem”, como quando uma chama de uma vela se extingue suavemente pelo sopro. Refere-se a não-existência, nada, vazio, que é o objectivo de toda a vida na filosofia budista. (…) ” ¹

Este pensamento, embora não sendo cristão, nos reporta a uma expressão bíblica sobre a criação do primeiro Homem Adão.  E Deus passou a formar o homem do pó do solo e a soprar nas suas narinas o fôlego de vida, e o homem veio a ser uma alma vivente. ” (Genêsis 1:7) partindo deste entendimento relativamente consensual, a vida é um sopro, uma energia que se esvai ao morrermos. A morte é, em uma definição vulgar, a ausência de vida, e não um estado de gozo como querem os já citados pensadores.

O Cristo tinha uma ideia intrigante para os místicos e também para os céticos: que a morte pode ser um estado de inexistência, podendo, contudo, ser revertida a qualquer momento por força sobre-humana, como o próprio Cristo fez no caso da ressurreição de seu amigo Lázaro. Quando seus discípulos se apavoraram com a morte de Lázaro, disse Jesus que seu amigo estava apenas dormindo e que ele lá iria para o acordar, e assim o fez. Disse: “Lázaro, nosso amigo, foi descansar, mas eu viajo para lá para o despertar do sono. ”  Os discípulos disseram-lhe, portanto: “Senhor, se ele foi descansar, ficará bom. ”  Jesus falara, porém, da morte dele. Mas, eles imaginavam que estivesse falando do descanso no sono. Nessa ocasião, portanto, Jesus disse-lhes francamente: “Lázaro morreu, e eu me alegro por causa de vós que não estava lá, a fim de que acrediteis. Mas, vamos ter com ele. ”  (João 11: 11-15)   Para um cristão de qualquer doutrina, a morte pode ser revertida pela fé no sacrifício do Cristo. Mas a dor não pode ser removida muito rápido, como um passe de mágica, ou mesmo pela imposição da fé. Só quando encaramos este inimigo de frente é que nos damos conta do quanto ele é poderoso. Rouba-nos as almas mais queridas, e nos acomete de uma espécie de loucura, que pode nos conduzir ao abismo da descrença. Penso que é aí que reside nosso maior estágio existencial de superação, para nos tornarmos mais que humanos, com um objetivo comum – superar a dor infinda que nos impõe a morte e para ajudar outros a conviver com a mesma perda.

Este artigo eu dedico à Sonia, minha Irmã

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