A noite cai, poema

A noite cai

 

A tarde fatídica se apronta para partir,

Mas a rua continua clara,

Parece que daqui de dentro,

De onde estou a olhar a vida passar,

Não consigo ver o que se aproxima,

O que trará a noite em suas mãos sombrias

Para meu desgosto se tornar mais severo

Nasci do desfavor de Deus e dos homens,

Me encontro na prisão comum aos miseráveis

Aos filhos que não conheceram seus pais

Nem mãe tive para me acalentar quando ainda criança

Perdi tudo ao nascer, nasci por acaso, sem esperança.

 

A noite cai

Eu estou a olhar a rua,

Pessoas passam sem me notar

À janela, eu não me atrevo a chamar alguém

Mas quem daria atenção a um desocupado

Quem se importaria com a minha vida inútil

 

A noite cai,

Todos passam apressados,

Nem mesmo irmãos se cumprimentam,

Da janela, olhando o mundo, eu só vejo cinzas

Cinzas de uma humanidade desumana

Mas eu sou parte dessa desumanidade

No meu mundo egoísta, não quero ser visto

Escolhi viver à margem da espécie a que pertenço

 

A noite cai

E eu continuo a esperar o amanhã

O dia de ontem foi muito triste, enfadonho

Pensei em ir ao mar, quem sabe falar com um pescador

Talvez mate minha sede de viver um dia por inteiro

Talvez me embriague com a alegria dos inocentes

Mas o mar fica muito longe de onde eu vivo agora

Soube que talvez levo uma eternidade para lá chegar

De qualquer modo eu tenho muito medo do mar

Nunca aprendi a nadar nem a andar de barco

Meus braços não são braços de mar

Nasci para andar no chão, preso em alguma corrente

Como um cão doente e raivoso

Posso morder quem me sorrir distraído

 

Um comentário em “A noite cai, poema”

  1. Evan,

    Aqui é o Thiago, você me deu umas dicas de leitura na fnac e eu acabei indo atras de seus livros.
    Eu li o moralista ( em uma sentada ) e achei muito bom , apesar de achar que existe uma contradição entre o liberalismo individual que o eu-lírico exalta no começo do livro e o moralismo exarcerbado no final, chegando a exigir a fé como uma premissa necessária a moral ( exigencia essa que não se limitada ao eu-lírico mas tambem julga a ética pessoal de terceiros com embasamento em sua “falta” de fé ).
    So fiquei curioso se é um romance ou uma autobiografia.

    Um abraço e parabéns pelo ótimo livro.
    Thiago
    thiago.guimaraesdf@hotmail.com

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  2. A noite cai em quatro cantos em cada canto uma dor, pois uma navalha ceifa o dia nascendo a noite estranha familiar em cada coração. Tudo estranho, tudo fora do lugar assim são as coisas da vida quando a noite cai num olhar mais profundo na escuridão surge um espelho no qual poucos tem coragem de fitar por muito tempo. Um poema muito profundo vc sabe ir onde as raízes procuram…..

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