“O Sapateiro Judeu,” primeiro capítulo de um novo romance.

O homem se chamava Francisco, não era Francisco das Chagas, nem Francisco dos Santos, nem Francisco de Assis, este era só Francisco. Não era preto nem branco, nem marrom nem galego. Francisco era pálido e ledo.

Francisco era mestre num ofício incomum, Francisco não era pescador, nem padre, era sapateiro, em um tempo em que os homens ainda tinham honra, cuidavam bem dos seus filhos e dos seus sapatos. Na verdade Francisco tinha outro nome na localidade onde residia com seus três filhos e uma esposa adorável.

Os vizinhos de Francisco lhe chamavam de “o judeu sapateiro”.  Francisco era um homem discreto, não sabia nada sobre a vida alheia, não gostava de se associar com os homens do seu bairro. Francisco, se não fosse sapateiro seria poeta, isto se tivesse vivido na Grécia ou em Roma, e se não fosse judeu. Francisco não era um grande comerciante, cobrava de acordo as posses dos seus clientes. Para alguns desafortunados ele, não raro, fazia consertos de cortesia.

Francisco era um bom pai, logo muito cedo cuidava para que todos os seus filhos fossem bem alimentados, ele mesmo preparava o café das crianças e, em seguida levava toda sua prole para a escola municipal. Francisco, como vimos, era judeu; contudo, Francisco não era religioso, Francisco não era ignorante, não fora a escola, mais sabia ler, escrever e fazer contas.

Francisco não tinha carro nem charrete, mas tinha um grande quintal, e neste quintal plantava, ele e a mulher, verduras, frutas e legumes, de onde tirava o sustento, as coisas básicas, para uma boa e saudável alimentação para sua família. Francisco era paciente, tinha o dom de escolher e de plantar boas sementes – e de esperar confiante nos seus frutos. Tudo o que Francisco fazia tinha bom resultado, pois ele sempre dizia, que sábio é aquele que aprende com a natureza.

Francisco, nas horas vagas, em absoluto silêncio, lia o seu poeta preferido, Horácio, o grande espírito romano. Mas nunca falava sobre poesia com os seus clientes, nem mesmo com a esposa, pois guardava para si, em seu caixote de ferramentas, todos os seus segredos literários. Francisco, ao contrário dos seus compatriotas, nunca sofrera perseguição por manter algum tipo de rito religioso secreto, nem mesmo a bíblia, proibida pela inquisição ele guardava, e não escondia de ninguém o seu ateísmo.

O livro predileto de Francisco, no que tange à filosofia, era a ética de Espinoza.  A sua filosofia funda-se numa concepção panteísta da realidade, na qual se identifica Deus com a Natureza. Para Espinosa só existe uma única substância ilimitada que se manifesta numa infinidade de forma e com infinitos atributos. Nega a imortalidade da alma e a natureza pessoal de Deus. Rejeitou o Livre-arbítrio, afirmando que a autodeterminação, isto é, agir em função da natureza de cada um, é a única liberdade possível. Esta concepção panteísta está bem patente nas suas concepções metafísicas, éticas e políticas.

Mas Francisco, apesar de admitir que Espinoza fora o único judeu que mais se distanciou da tradição judaica, e que tenha chegado muito próximo de uma filosofia quase perfeita, não se enganava com sua ideia de deus-natureza. Para Francisco, o mundo como conhecemos é um abismo, onde os homens se matam em busca de nada, como sapateiro, sua preocupação diária era viver, cumprir o papel que lhe fora dado pela natureza. Contudo, Francisco era otimista, alegre e até feliz, pois a liberdade que usufruía era seu maior quinhão na vida. Tinha família, um trabalho que lhe garantia o sustento e a educação dos filhos, morando em um oásis no meio de um grande deserto de perseguição cruel e violenta, que foi o mundo dos seus dias. Amsterdã foi, durante muito tempo, o único lugar no mundo em que um homem podia exercer sua liberdade de expressão e, sobretudo de religião.

Os pais de Francisco eram judeus, e mesmo antes de serem obrigados a se converter ao cristianismo, deram ao filho um nome cristão, pensavam que assim seria mais fácil a convivência das futuras gerações. Contudo, Francisco, depois da morte dos pais resolveu fugir de Portugal, levando consigo sua mulher grávida do primeiro filho. Com este nome, mesmo sendo judeu de características físicas e cultura, Francisco podia transitar entre europeus sem causar espanto, sem provocar suspeita, uma vez que era comum as pessoas trocarem de nome para migrar a lugares menos perigosos, onde a inquisição católica não tinha o apoio do estado.

Francisco era filho único, nascera fora de hora biológica, por esta razão ficou órfão de pai e de mãe aos 23 anos, não tinha parentes em Portugal, nem em outro lugar do mundo, pelo menos fora o que lhe ensinara seu pai. Com a morte dos pais, Francisco vendeu tudo que herdara – casa e terras, pouca coisa, mas foi o suficiente para que pudesse comprar, em um bairro pobre de Amsterdã um pequeno terreno com uma casinha incluso, onde mora hoje com sua família, que já somam cinco almas.

– Raquel, acorde meu amor, já fiz o café, e as crianças estão à mesa, só falta você para consideração do dia, vamos ler um texto do grande Espinosa, quero que nossos filhos cresçam como homens livres de qualquer tipo de alienação política e religiosa.

Raquel, esposa de Francisco era uma senhora jovem, mas sempre acordava tarde, só depois que seu marido cuidasse das crianças e do café da manhã. Já haviam se passado dez anos desde a chegada de Francisco em Amsterdã, sua vida se encontrava de certa forma estabilizada, seus filhos estudam numa boa escola pública, sem nenhuma ligação ou influência religiosa, apenas Francisco é seu instrutor moral, nem mesmo a esposa opina sobre a forma como ele educa seus filhos.

Todos à mesa, Francisco lê em voz alta e limpa uma frase de uma obra de Espinosa, que diz: “O homem livre, no que pensa menos é na morte, e a sua sabedoria é uma meditação, não da morte, mas da vida. ”

Esta frase nos ensina que devemos ser positivos, alegres, e não sofrer dores ou angústias causadas pela consciência de que somos mortais, somos mortais mais podemos ser eternos como espécie humana, podemos passar nossos conhecimentos para gerações futuras, e com isto perpetuar nossa inteligência.

Feita a leitura, Francisco pede que seus filhos comentem o que entenderam da frase e, como de costume, apenas sua filha de dez anos se arrisca comentar, os outros filhos de sete e de oito anos, não se interessam pela filosofia de Francisco, muito menos de Espinoza.

-Bem, meu pai, o que entendi desta frase, é que devemos nos alegrar com a vida, aproveitar o máximo, pois este seria um modo sábio de viver.

– Muito bem, minha filha, este é o modo de vida que devemos adotar, não sermos pessimistas ao ponto de viver depressivo, como muitos vivem apenas pensando na morte ou no que virá após. Já ensinei a vocês bastante sobre este assunto, depois da morte não há vida, pois isto é uma ideia platônica e absurda.

-Pai, o que é isto que disse, “ideia platônica? ” – Pergunta o filho de oito anos.

-Meu filho, Platão acreditava na imortalidade da alma, e também ensinava que todos os homens possuem uma mesma inteligência. Ele pregava, por meio de uma teoria, que jamais será comprovada cientificamente, que ao nascer o homem se esquece do que sabia eternamente, então pelo seu ponto de vista nós precisamos apenas ser despertados, para que este conhecimento venha à tona. Mas isto, como lhe disse há pouco é um absurdo, desta forma as crianças não precisariam ir à escola.

-Isto seria muito bom. Diz a filha mais nova de Francisco.

-Chega de filosofia por hoje, vamos à escola, pois sem estudar vocês não serão ninguém, esqueçam Platão por enquanto, diz a esposa de Francisco.

Francisco, com um balançar de cabeça concorda com a esposa, olha em seguida para os filhos se fazendo entender que já era hora de irem.

-Vamos sim, já são sete horas e não queremos nos atrasar, nem na hora nem nos estudos. Bora molecada

Francisco, depois de deixar os filhos na escola ia a sua rotina diária, visitava seus clientes para saber se havia algum trabalho, e quando havia, ele levava para casa e entregava no dia seguinte. Este modo de atender de casa em casa lhe proporcionava bastante liberdade, pois de manhã ele raramente abria sua sapataria.

Francisco era bastante bem-humorado na maior parte do tempo, e levar as crianças à escola era para ele um dos momentos mais sublimes. Contudo, Francisco, como qualquer homem tinha seus momentos de conflito, sobretudo com a sua situação de judeu não declarado, este conflito está ligado à covardia dos seus pais diante da perseguição religiosa que sofreram em Portugal.

Francisco não gosta muito do seu nome, jamais aprovou a atitude dos seus pais, concernente ao culto cristão que abraçaram por medo da morte. Sua revolta silenciosa contra o cristianismo tem que ver com a fraqueza relacionada ao perdão, a teoria de que se for preciso deve-se perdoar algozes cruéis até 70 vezes 7, com isto daríamos uma infinita possibilidade ao agressor de repetir seu erro sem que seja punido por Deus e por homens. Francisco não concorda com este amofinamento diante da vida, com esta negação do instinto.

O pai de Francisco, que não se chamava Francisco, e que era judeu tradicional, também era sapateiro, segundo conta a tradição judaica, esta profissão remonta ao tempo de Abraão.  Lógico que isto é mais um erro histórico proposital dos judeus. A profissão de sapateiro e o processo de fabricação de calçados, mesmo antes de se dar a isto o nome de sapatos, existem desde que existe couro, homens e a necessidade de proteger os nossos pés.

Francisco, quando criança, vez por outra ouvia os patrícios do seu pai contarem uma lenda, sobre um sapateiro amaldiçoado pelo homem que morrera em Jerusalém, por um crime incomum, “a-blasfêmia de ensinar ao povo judeu que era filho de Deus. ” Segundo esta lenda, este nazareno, quando estava a caminho do seu calvário, onde seria executado, carregando uma imensa e pesada cruz, uma tradição que era dos judeus, mas que logo foi aceita de bom grado pelos romanos que lhes dominaram nesta época; domínio este que já se aproximava dos cem anos. Portanto, criminosos comuns eram torturados e mortos sobre pregos em uma cruz. Reza a lenda do sapateiro judeu, que este moribundo, o homem que dizia ser filho de Deus, e com isto convencera milhares de judeus indecisos quanto à sua tradição religiosa, teria pedido água a um sapateiro que trabalhava na porta de sua casa. Diz a lenda que este judeu bondoso teria negada a água e ainda teria zombado do nazareno condenado, mandado ele seguir em frente e mais rápido, mas como revide ao insulto o nazareno condenara ele e as suas futuras gerações a viver eternamente como povo errante pelo mundo a fora.

Esta história ou lenda, pois isto depende muito do ponto de vista de quem conta e de quem escuta, era sobremodo assustadora para Francisco quando criança, todavia nunca acreditou nisto depois que crescera. Estes amigos do seu pai, que pelo visto tinham bom humor, contavam esta lenda e diziam que era por isso que os judeus tinham perdido a sua pátria e foram obrigados a viver como bichos fugitivos em todo mundo. Desta forma, segundo estes homens, que tinham lá as suas razões, esta maldição teria sido jogada não apenas em um sapateiro estúpido e mesquinho, mas em todo o povo judeu.

E qual era a base psicológica para que Francisco, mesmo que fosse apenas em horas de confusão mental, quando se pegava a recordar da sua infância, horas estas que nos pegamos a pensar no impossível como realidade, dado a nossa fraqueza humana de manter o pensamento sob o domínio da razão e da lógica? A base, mesmo que frágil e débil, era o fato de ouvir do seu pai, que ele fora a vigésima geração de sapateiros em sua família. E que por causa da perseguição religiosa, por terem que viver escondidos, ora aqui ora ali, não pôde evitar que o seu único filho tivesse o mesmo destino – o destino de ser o vigésimo sapateiro na família. Francisco, por isto não pôde frequentar escolas, seu pai conseguia livros contrabandeados por um comerciante judeu nada tradicionalista, livros estes que foram a formação intelectual de Francisco. Este traficante de livros, como acabamos de dizer, era um homem culto, e além de vender livros importantes para a formação autodidata de Francisco, também lhe ensinava algumas lições, de como Francisco devia ler estes livros, sobretudo em que ordem devia assimilar o conhecimento ocidental. Eram estes livros a biblioteca clássica de qualquer burguês, e o pai de Francisco gastava parte do seu dinheiro para educar o filho, através destes livros que comprava de forma clandestina.

Francisco, porém, depois que crescera e percebera que o mundo era de fato cruel, e que ele não podia mudar sua natureza, depois de aprender com Espinoza, que o homem de fato não está sob o regime infalível do livre-arbítrio, e que cada homem é fruto único das circunstancias, que desta forma nem sempre temos direito à escolha, sendo a nossa natureza a principal força a nos reger, ele teve que aperfeiçoar o ofício que aprendera com o pai, ofício este que lhe coube como único meio de sobrevivência.

Qual foi a maneira perspicaz que Francisco encontrou para inovar como sapateiro, maneira de ganhar mais clientes e consequentemente mais dinheiro?  Francisco, em um belo dia, sem mais nem menos, quando tinha apenas nove anos de idade, ouviu seu pai a conversar com um vizinho sobre as dificuldades no trabalho, pois os clientes estavam diminuindo, vinham com pouca frequência lhes trazer novos trabalhos, e que o serviço estava realmente escarço, foi aí que Francisco sugeriu ao pai que fosse ao encontro de novos clientes.

Vamos voltar um pouco no tempo para observar esta conversa e outras mais, entre Francisco e o seu pai sapateiro.

-Pois bem, meu caro Josué, a vida não está fácil pra ninguém, muito menos para nós judeus, que vivemos em terra tão longínqua. Na minha taverna tem entrado poucos clientes, às vezes penso que terei de mudar de ramo.

-Tudo bem, meu amigo Josias, só lhe peço que não se torne também sapateiro, pois eu já tem muitos concorrentes não judeus.

-Pode deixar, meu amigo, Portugal já tem sapateiro e judeu demais.

-Pois bem, velho Josias, se não bastasse a crise econômica pela qual estamos atravessando, ainda temos a maldita perseguição religiosa imposta pelo papa. Soube que está chegando em Portugal com muita violência, vários irmãos nossos já se rederam à pressão da inquisição, a única saída para nós, que temos filhos ainda pequenos é nos converter ao cristianismo.

-Não quero nem pensar nisto, meu amigo, pelo menos por enquanto, seria para mim uma humilhação mortal, eu não me rendo a eles, prefiro ser queimado em praça pública.

-Você diz isto porque já criou seus filhos, já eu não sei se serei capaz de manter minha integridade até a morte, penso no meu filho, ele só tem nove anos, não seria capaz de sobreviver sem mim. Mas vamos deixar esta conversa terrível para outro dia, eu tenho que cuidar de uns assuntos domésticos. Meu filho me espera lá dentro, até logo mais.

-Até mais. Que javé nos proteja, hoje e sempre.

Assim se despedem os dois judeus, um sapateiro e o outro taberneiro. As palavras taverna e taberna existem na língua portuguesas, as duas estão corretas, contudo, no uso clássico, sobretudo na literatura, é mais corrente a expressão taverneiro, para designar aquele que tem um botequim, um comércio, onde se vende de quase tudo, especialmente bebidas e seriais. As tavernas da idade média, além de vender as mercadorias necessárias no dia a dia das províncias também era um lugar de entretenimento, até se podia encontrar prostitutas e artistas em plena atividade. Pintores e músicos, bêbados e mulheres sem compromisso faziam destes lugares um verdadeiro oásis de liberdade de expressão sexual e artística.

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