Do sucesso à reclusão: a história e a vida do cantor Belchior

Cantor e compositor morreu na madrugada de ontem, aos 70 anos, em Santa Cruz (RS). Nos últimos anos, o músico optou por sair dos holofotes

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Antônio Carlos Gomes Belchior era conhecido apenas no Ceará, quando, em 1971, se fez notado nacionalmente ao vencer o IV Festival Universitário da MPB, promovido pela extinta TV Tupi, com Na hora do almoço. Na letra dessa canção seminal, Belchior já deixava claro que não fazia parte do bloco dos contentes. O país vivia sob a égide da ditadura militar e, nos primeiros versos da letra, ele cantava: “No centro da sala, diante da mesa/ No fundo do prato, comida e tristeza/ A gente se olha/ Se toca e se cala…


O cantor e compositor, nascido em 26 de outubro 1946, na cidade de Sobral (CE), morto ontem, aos 70 anos, em Santa Cruz do Sul (RS), iniciou a carreira artística no início da década de 1970, depois de se mudar para Fortaleza. Na capital cearense tomou contato com Fagner, Ednardo, Rodger Rogério, Cirino, Teti e Amelinha. Informalmente, criaram um grupo que ficou conhecido como Pessoal do Ceará.

Belchior se antecipou aos amigos e desembarcou no Rio de Janeiro, em 1971. Antes disso, nos encontros que mantinham com regularidade, no Bar do Anísio, em Fortaleza, já era ouvida a canção Mucuripe, nome da praia em que o estabelecimento se localizava. A música ganhou nova versão criada por Raimundo Fagner, que viria a ser gravada por Elis Regina e Roberto Carlos.

Com Mucuripe, Fagner, morando em Brasília, venceu 1º Festival do Ceub em 1971, mas, nas entrevistas que concedeu ao Correio, sempre fez questão de afirmar que a música era uma parceria dele com Belchior. O certo é que Mucuripe contribuiu decisivamente para os dois se popularizarem nacionalmente.

Foi com Como nossos pais que Belchior alcançou um patamar ainda mais alto na MPB. Isso, depois de Elis tê-la incluída em Falso brilhante. No elogiado espetáculo, de 1976 — registrado posteriormente em disco —, a cantora contava a história de sua vida e da trajetória artística. A interpretação dessa canção sempre foi a mais aplaudida pelo público. E se transformaria num clássico.

Dezoito títulos fazem parte da discografia do cantor, sendo 12 LPs e seis CDs. O de maior êxito foi Alucinação, de 1976, que reuniu canções como Apenas um rapaz latino-americano, A palo seco, Como nossos pais e Velha roupa colorida, todas incorporadas à antologia da música popular brasileira. Autorretrato, que saiu pela gravadora BMG (depois incorporada à Universal Music) foi o último. Há ainda uma coletânea de sucessos, lançada pela série Sempre, da Som Livre.

No decorrer da carreira, Belchior teve muitas solicitações para shows em todo o país. Em Brasília, se apresentou algumas vezes, inclusive na Sala Villa-Lobos, do Teatro Nacional. No começo da década passada, ele fez um recital de voz e violão, no extinto Café Cancun, acompanhado pelo violonista e guitarrista paulista Diego Figueiredo, que integrou a banda brasiliense de baile Squema Seis.

Em 2009, Belchior saiu de cena e tomou destino incerto. Turistas brasileiros o viram no Uruguai, onde concedeu entrevista para a TV Globo. Desde que deixou o Uruguai, passou a morar em Porto Alegre…

Trechos de músicas
“Estava mais angustiado que um goleiro na hora do gol
Quando você entrou em mim como um Sol no quintal
Aí um analista amigo meu disse que desse jeito
Não vou ser feliz direito
Porque o amor é uma coisa mais profunda que um encontro casual”
(Divina comédia humana)

“No presente a mente, o corpo é diferente
E o passado é uma roupa que não nos serve mais”
(Velha roupa colorida)

“Mas também sei que qualquer canto
É menor do que a vida de qualquer pessoa”
(Como nossos pais)

“E eu quero é que esse canto torto
Feito faca, corte a carne de vocês”
(A palo seco)

“Tenho sangrado demais, tenho chorado pra cachorro
Ano passado eu morri, mas esse ano eu não morro”
(Sujeito de sorte)

“Fique você com a mente positiva
Que eu quero é a voz ativa (ela é que é uma boa!)”
(Conheço meu lugar)

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