ENTREVISTA COM O POETA AIRTON SOUZA

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Airton Souza – Poeta

Quem é Airton Souza?

Essa pergunta faz-me refletir muito. “Quem é?” traz em si mesmo uma propositura importante, porque implica na busca pelas reminiscências. E, para mim essas reminiscências possui uma emblemática luta pela vida, isso porque eu sou filho de uma retirante nordestina e de um aventureiro, também nordestino. Minha mãe fugiu do Maranhão, aos 17 anos de idade, somente com a roupa do corpo e veio para o Pará e meu pai veio do Piauí, aventurar a vida para esse lado da Amazônia, desde as notícias do garimpo de Serra Pelada, na década de 80, quando este era o maior garimpo a céu aberto do mundo. Eu sou um dos 11 filhos que esse homem teve e o mais velho dos 5 filhos que essa mulher pôs no mundo como que para criar laços afetivos com a vida.

Aos poucos quando fui compreendendo o em torno do que seria de fato a vida muitas perguntas passaram há circundar meus dias, até chegar o momento de decidir de fato quem seria Airton Souza. Nessa lida e na busca de não ser apenas mais um, me fiz poeta. Muito antes disso, eu já havia perdido o meu nome por causa um apelido que meus pais e a vizinhança tinham acostumados a chamar-me. Só com muita poesia, livros e leituras é que foi possível eu tornar-me novamente Airton Souza.

Nasci em Marabá, no Pará, extremo norte do Brasil e, em parte uma das mais emblemáticas periferias composta por fronteiras. Desse espaço, por poucas, muito poucas vezes, fui obrigado a me descolar, em viagens rápidas, às vezes, raras, a passeios e outras, também raras, a trabalho. Mas, nunca muito longe. Entre esses lugares mais distantes que estive foi no Maranhão, em visita as casas de meus avós, que é uma viagem quase que anualmente, constante, em minha vida. Além disso, o resto do mundo eu só conheço por fotos e vídeos, nada, além disso.

Hoje, Airton Souza é um homem dedicado ao livro e a leitura. Com duas formações acadêmicas e mestrando em letras, com ênfase na literatura, tornei-me ainda pesquisador e professor, duas “coisas” que amo fazer. Costumo dizer ainda que sou poeta, de vez em quando. No entanto, a vida e a lida são longas e não dar para resumi-la aqui. Isso porque eu ainda estou sendo, o que já é em si mesmo muito menor do que seja o “é”.

Quais foram suas primeiras leituras?

Para ser muito sincero, à leitura, essa questão mesmo de tornar-me um leitor foi um dos passos mais cruéis de meus dias. Em verdade, a leitura e os livros entraram em minha vida tardiamente. Toda essa explicação se deve basicamente a duas coisas, uma delas é a escola, completamente precária, como ainda o é em grande parte do país e, sobretudo, as condições financeiras de minha família, que jamais deixaria de comprar um pacote de milharina para fazer um cuscuz para o jantar a preferir ter que comprar livro, ou mesmo uma revista, para que nós pudéssemos ler. Não é à toa que dos 11 filhos o único que ainda conseguiu se forma, foi eu.

Assim, precariamente, minhas primeiras leituras foram às páginas velhas e rasgadas de um livro didático de língua portuguesa que traziam fragmentos de textos, quando muito, continha pequenos poemas, de poetas como Manuel Bandeira e Carlos Drummond de Andrade, entre outros.

Quando você se descobriu poeta?

Toda essa questão de ser poeta perpassou, até aonde eu possa compreender, em meu caso, em especial, por uma escolha. Eu escolhi a poesia e o ato de ser poeta para a minha vida. No início, e isso já faz mais de dezoito anos, foi difícil falar para as pessoas que eu escrevia. Eu era jovem, um menino ainda e tinha medo de dizer que eu era poeta. Então, resolvi esconder o máximo de tempo que pude. Mas, chegou uma hora que não deu para suportar o peso das cargas semânticas dentro da vida e, resolvi exatamente em outubro do ano de 2000 enviar um longo poema, que intitulei “Sextilha do Nordeste”, que falava sobre a seca daquela região, para um jornal local, em Marabá, dois dias depois, lá estava o poema impresso no jornal e meu nome logo depois. A primeira reação tão de tamanha euforia, que acabei chorando. Não deu outra, estava decidido, eu seria poeta.

No entanto, quanto mais o tempo foi passando mais eu fui me sentido inseguro no que estava escrevendo. Por volta desse período, minhas leituras eram escarças e quando realmente passei a dedicar-me a leitura fui percebendo que a minha escrita era tão precária tal qual a minha própria vida. Isso implica principalmente ressaltar que já estava eu publicando meus escritos há bastante tempo.

Tudo isso é engraçado, porque de uma hora para outra comecei a publicar meus livros de poemas e, sempre depois que publicava o livro batia um sentimento de arrependimento, um remediável remorso.

Contudo, agora é tarde demais para lamentar tudo isso. O que me serve de consolo é que todas essas publicações servirão para mostrar que tudo isso foi um caminhar difícil na relação entre eu mesmo, à leitura e a palavra escrita, a escritura, como prefere Derrida.

Que leitura é imprescindível no seu dia-a-dia?

Confesso que eu leio de tudo, justamente para compensar o tempo que em que não tive a oportunidade de ler. É difícil, para homem apaixonado por livros, igual a mim, ter que enumerar leituras imprescindíveis. Acho que qualquer leitura é válida. Elas nos servirão para alguma coisa, a qualquer hora. Ah, mas, é importante enfatizar, nunca li autoajuda e nem mesmo tenho vontade de ler.

Hoje leio muito literatura portuguesa, brasileira e literatura africana, no caso dessa última, acho que são imprescindíveis para todos nós. Os escritores e escritoras do continente africano estão produzindo uma literatura essencial à vida e isso me faz lê-los e, dizer que é preciso lê-los muito.

Claro, são imprescindíveis as leituras de grandes nomes da literatura, entre eles, para citar só alguns, que todos geralmente citam (mas eu os li, viu. E, vez ou outra ainda leio- muitos risos): Maiakóvski, Rimbaud, Paul Celan, André Breton, Wislawa Szymborska, E. E. Cummings, Valéry, Gabriel García Marquez, Ana Akhamãtova, Fiódor Dostoiévski e muitos outros nomes importantes da literatura, no mundo.

Porém, além desses que citei, eu procuro ler muita literatura contemporânea, essa literatura que está sendo feita agora, sobretudo no Brasil, tanto poesia quanto prosa. Eu tenho contato com muitos nomes da literatura brasileira, esses e essas que estão produzindo uma boa literatura em várias regiões do país e, que ainda não são conhecidos como grandes e, que o tempo o fará, porque é jus.

Hoje eu sou mais leitor que escritor. Eu tenho uma dívida imensa com o livro, com a leitura e preciso pelo menos tentar ameniza-la, já que não darei conta de paga-la, pois foram os livros e a leitura que me tiraram de uma vida muito difícil. Tiraram-me e me salvaram, além é claro de devolver o meu nome de batismo.

Em que hora do dia você escreve?

Olha, eu realmente, nesses últimos três anos tenho produzido bem pouco, devido a uma série de problemas que enfrentei, entre eles a perda repentina de meus pais, em 2015 e, depois um grave problema de saúde, onde tive que fazer uma cirurgia e passei vários dias em uma UTI, imaginando que dali eu não voltaria para casa. Então, a relação com a escrita tem sido afetada. Mas, não tenho horário para escrever. Também tenho me tornado cada vez mais criteriosos, exigente, entendes, comigo mesmo em relação à escrita. Não quero me sentir mais inseguro, como antes, com a minha produção escrita. Por isso, mesmo um poema que estou escrevendo sempre ganha ou perde muitas palavras, assim também é com o texto em prosa. Eu preciso está convicto mais que todos de minha própria literatura. Ela tem que me satisfazer primeiro, para somente depois reverberar em alguém.

Eu tenho sentido mais vontade de ler do que escrever. De ler e de ter muitos livros em minha casa. Pois, uma biblioteca com pouco mais de três mil livros, que tenho, ainda é muito pequena para compreender o que de fato foi feito pela literatura.

 

 

Qual a temática de sua poesia?

Eu já escrevi de tudo, desde os grandes temas da poesia, até os mais banais. Eu já fui um escritor, ou poeta, como gosto, que escrevia cinco, seis poemas por dia. Hoje, passou meses para escrever um. Não que eu fique um mês escrevendo um poema, não é isso. É sem escrever nada. Não dá para explicar o que isso. Eu sou quase que, em relação à escrita, aquele cidadão a que Walter Benjamin, aludiu em um de seus escritos, que foi a guerra e voltou mudo. Às vezes me sinto mudo em relação ao que escrever.

Mas, em relação às temáticas elas têm sido de certa forma as piores. Isso se deve em parte pela própria relação a que venho tendo com a vida. E uma das coisas que eu nunca consegui foi afastar a escrita, ou seja, a minha poesia, de minha vida. Esses poemas desses últimos anos, em relação às temáticas são os que mais laceram e, eles vêm sendo as respostas que estou ainda a procurar nos escombros de meus dias. Respostas que ás vezes nem mesmo desejo encontrar. Pois, minha temática agora são as perdas e algumas perguntas a Deus.

Como descreve o seu processo criativo?

Acho muito difícil descreve-lo, porque ele é muito inquietante dentro de mim. Para resumi-lo, é como se eu e a palavra estivéssemos em um embate constate.

Quando estou escrevendo eu sofro demais. Quando finalizo um poema, e para isso eu já o li, durante o processo mesmo de escrita, pelo menos umas vinte vezes, em voz alta dentro de casa, eu saio da escrita extenuado e, quase sempre me lembro de uma entrevista que assistir de Clarice Lispector, falando exatamente nesse mesmo sentido.

Meu processo criativo é a minha inquietação. O resto eu pretendo não explicar, para que não sirva de receita, pois cada poeta, escritor, deve encontrar seu próprio caminho. E, esse caminho não pode ser fácil, nem mesmo na aparência, porque se ele estiver sendo fácil, desconfie, você está indo na direção errada. Tome outro caminho, outra linha de fuga, para lembrar aqui Deleuze e Guattari. Escreve possui em si mesmo uma relação inexplicável e não é fácil e não pode simplesmente parece que você está escrevendo um bilhete ou carta a alguém. O processo criativo deve descolar o leitor de sua posição habitual, de seu sentido da vida. Deve por qualquer força colocá-lo entre perguntas e espantos, isso é o que busco em meu processo criativo, inquietar.

Um poeta insuperável

É quase unanimidade o nome de Fernando Pessoa. Mas, confesso que não tenho essa de poeta insuperável. Cada poeta, em determinado tempo e geografia escreveu alguma coisa de insuperável. Eu gosto muito de Drummond, de Manoel de Barros, das poetas Wislawa Szymborska e Ana Akhamãtova, elas em assustam, do poeta amazônida Max Martins. Não dá para dizer que eles são insuperáveis na completude. Para um leitor essa pergunta é muito difícil e dificilmente ele te responderá com um único nome. Se algum te responder, algo de errado aconteceu, sobretudo, na falta de leitura.

Um livro inesquecível?

Assim, como a pergunta anterior me deixa meio desorientado, a do “poeta insuperável”, essa do livro inesquecível toma o mesmo rumo. Não dá para enumerar um, cem ou mil livros que li inesquecíveis. O que tenho feito é aproveitar o melhor de cada livro, ou mesmo o pior deles todos. Eu amo livro e todos, ou quase todos, não ser unânime e me tornar um tolo (alguém já escreveu isso – risos), prefiro não nomear o livro inesquecível, pois, sempre que estou lendo um livro penso ser aquele o livro inesquecível, sem demora vem outro e já é novamente o livro inesquecível e assim sucessivamente. Um livro inesquecível não existe, ainda.

Quem gostaria de ter sido, entre os poetas clássicos?

Se fosse me dado essa chance de escolher eu escolheria ter sido Ana Akhamãtova, pois a história e a poesia dessa ucraniana é o peso dos dias que não daria outra coisa, a ser uma poesia inquietante, reveladora da vida em seu estágio mais cruel de ser.

Entre os homens, talvez o Manoel de Barros, que soube como ninguém interpretar as coisas inúteis. Isso na poesia. Se fosse em relação a prosa a conversa seria outra e ganharia outro extremo.

 

 

 

 

Qual sua maior preocupação ao escrever?

Primeiramente a minha preocupação ao escrever algo está sempre ligado a vida. Eu não quero por nada perder de vista a relação entre a palavra e a vida. Isso é o que me deixa inicialmente preocupado. Depois, trazer para o papel a palavra longe de seu sentido habitual. Desloca-la. Fazer ganhar outros significados, alinhando-a com outras palavras que apontam para esse mesmo cerzimento.

Pois, eu me preocupo muito em não fazer de minha poesia coisas semelhantes a bilhetes, tudo ali no seu mais puro sentido usual, sem abertura para outras possíveis significações. Isso não me serve. Quando percebo que estou caminhando para esse rumo, desisto de escrever o poema ou mesmo o texto em prosa. Assim, o que quero de fato é que a minha palavra não signifique ela mesma e que ela rasgue a explicação lógica e toda a semântica que foi estabelecida em torno dela, como que uma espécie de força e verdade.

Fale-nos um pouco de seus livros.

A história em torno de meus livros é uma história muito longa e, vocês sabem como é a memória, sempre traiçoeira. O mais sensato seria falar com menos por menor possível.

Meus livros foram publicados em um pequeno intervalo de nove anos, o que resultou assustadoramente na publicação de mais de 28 livros, a maioria de poemas, quatro infantis e um pequeno de prosa, com contos curtos. A relação com a publicação desse número exagerado de livros foi muito selvagem e, olhando para trás, muitos deles eu não teria coragem de publica-los novamente. Só que eu compreendi isso tarde demais.

No entanto, duas coisas me consolam, a maioria deles foram premiados e que querendo ou não eles são os resultados de minha caminhada de aprendizagem para lidar com a palavra. Penso às vezes que se não tivesse publicado eles essa precária aprendizagem seria ainda mais lenta. A publicação de meus livros me ensinaram muitas coisas.

Eu ainda tenho alguns inéditos, a maioria são infantis e, que não tenho pretensão de publica-los tão cedo. Não é nada além de minha querência mesmo.

 

 

Sobre os prêmios literários que já ganhou, como explica este sucesso?

Olha, vou falar a verdade para você, quando eu faço a inscrição em um determinado prêmio literário, uma das minhas únicas pretensões é a de ser lido. A de dizer, olha eu estou aqui, eu escrevo também e, eu escrevo lá da periferia do mundo, lá do Norte do país, de um pedaço da Amazônia. Olha ai o que eu sei fazer com a palavra. Se bem que essa região já temos muitos escritores e escritoras conhecidos nacionalmente, mas, todos ou são das capitais, ou residem lá por muitos anos. Mas, eu não, escrevo e pretendo escrever do interior mesmo, quase que no lugar aonde a última coisa que se espera é alguém com tempo para escrever.

Porém, os resultados desses prêmios literários vêm reservando aos meus dias notícias assustados, que é a de figurar entre os premiados. Somente este ano foram, até agora, exatamente vinte prêmios literários, entre nacionais e internacionais, que meu nome figurou entre os premiados. Isso me deixa feliz, não posso negar, ao mesmo tempo que vem alimentando e diversos escritores de muitos lugares uma inveja doentia. E eu sempre reforço o que venho dizendo, cada um de nós faz da sua escrita, de sua poesia o que bem entender.

Os prêmios literários, em parte, estão ajudando-me, até mesmo no espaço a que resido, a vencer muitas barreiras. Isso me consola, porque escrever em uma região em que predomina o trabalho escravo e a pistolagem não é nada fácil.

Como você classifica a literatura brasileira, boa ou regular?

Eu, mesmo estudando a literatura brasileira, não tenho a autoridade e, nunca terei, diga-se de passagem, para classificar a literatura brasileira. Eu sempre penso na literatura produzida no Brasil, assim mesmo como a que foi e está sendo produzida, na África, por exemplo, como uma grande literatura. Eu sou apaixonado pela literatura brasileira e, não seria capaz de classifica-la, porque pesa sobre meus olhos um amor incondicional por ela.

 

 

 

 

Fale dos projetos em curso.

Estou com diversos projetos, entre eles, um dos mais lidos vai ser organizar o Prêmio Amazônia de Literatura, um projeto que idealizei, no entanto para ser concreto eu necessito pelo menos de um patrocínio de uns três mil reais para consolida-lo, com a publicação de uma antologia com os premiados, com os gastos com troféus, medalhas, certificados, cartazes, envelopes, correios para os envios dos prêmios aos premiados. Além disso, nós retornaremos com a edição do Projeto Tocaiunas, que é um projeto de literatura independente, um dos maiores da Amazônia, com edição de livros de bolsos, financiados pelos participantes e, que nas três primeiras edições publicados mais de 45 autores e mais de 17 mil exemplares, entre poesia, prosa e infantil.

Também quero está bem de saúde para finalizar meu mestrado. Finalizar a escrita de dois livros que iniciei um de poemas e outro infantil e corrigir muitos, até decidir publicar os meus livros inéditos. Ah, e continuar participando dos prêmios literários para que quem saiba com isso eu não possa ser lido em muitos lugares. Continuar atuando no processo de incentivo a leitura e escrita nas regiões do Sul e Sudeste do Pará, com diversos projetos que ainda não posso falar muito sobre eles. Promover também a segunda edição do Simpósio de Literatura de Expressão Amazônia, a qual eu sou o organizador e idealizador, organizar e publicar o Anuário da Poesia Paraense, na edição de 2018, que também sou o organizador e idealizador já há quase quatro anos. São muitos projetos e planos, só me resta mesmo torcer para que não volte a adoecer. Como venho me sentido muito mal nesses últimos dias, só me resta mesmo torcer para que não seja nada de grave e que não persista as dores, porque coragem de trabalhar pela leitura, o livro e a literatura, eu tenho de sobra.

Por Evan do Carmo

 

 

 

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