ENTREVISTA COM O POETA JARI ZAMAR

16473228_1729557840706883_385354557572483836_n (1).jpg
Jari Zamar

Quem é Jari Zamar?

Na minha modesta opinião, Jari Zamar é um cara porreta, macanudo mesmo! Posso parecer pretensioso, mas se eu não gostar de mim, não me admirar, como é que eu vou querer que as outras pessoas, principalmente os meus leitores, gostem? Brincadeiras à parte, Jari Zamar é uma pessoa simples, com trânsito fácil nas mais diversas camadas sociais. Já almoçou em barracos, na favela, e em palácios com governadores de estado. Talvez essa vivência tão diversificada tenha sido a responsável por sua versatilidade, tanto quanto à temática como ao estilo de escrever.

Teve a sorte de ser alfabetizado, precocemente, por sua mãe, aos três anos de idade. Daí para frente, a leitura passou a ser tão necessária para ele quanto o prato de comida diário. Da leitura para a escrita foi um pulo. Aos sete anos, escreveu um conto policial. Ao longo da infância e adolescência, vários textos foram desenvolvidos, entre poemas, dissertações, panfletos para o movimento estudantil e jornaizinhos escolares. Depois, houve um longo período no qual se dedicou a escrever textos técnicos para seus alunos (apostilas, livros didáticos). Com pouco mais de trinta anos, um evento marcante (um assalto, no qual foi a vítima) o conduziu, novamente, à poesia. Entretanto, não pensava em publicar o que escrevia. Ia colecionando um mundaréu de folhas de papel em envelopes rotos de tão lotados que ficavam. Outro evento marcante (uma amiga muito querida), por volta dos cinquenta anos, fez com que começasse a pensar na publicação de seus textos. Bem, o resto, vocês já sabem ou já viram em livros ou nas redes sociais.


Quais foram as suas primeiras influencias para poesia?

 

Aos seis anos de idade, meu pai colocou-me para estudar piano. Confesso que nunca fui muito hábil com a música, mas me encantava com as letras que, muitas vezes, acompanhavam aquelas músicas escolhidas por minha professora. Ela insistia para que eu tocasse. Eu preferia cantar ou declamar aqueles belos poemas. Em seguida, os livros escolares de minha época. Eles traziam algumas poesias para que interpretássemos. Eu adorava.

 

 

 

 

 Em que momento você sentiu a necessidade de fazer poesia?

 

Como já disse, fui precoce. Comecei muito cedo. Não me lembro de quando escrevi minha primeira poesia, mas, certamente, foi antes dos dez anos. Esses poemas iniciais perderam-se no tempo. O que ficou foram aqueles escritos a partir dos trinta anos.

 

Que tipo de leitura é imprescindível para um poeta?

 

Certamente, ler poemas dos demais autores é fundamental, porém eu diria que o poeta não deve se restringir apenas à leitura de poesias. Toda e qualquer forma de literatura é importante para seu contínuo aprimoramento.

 

 

 

 Em que hora do dia você gosta de escreve?

 

Tenho uma vida bastante atarefada e me sobra pouco tempo para escrever. Sendo assim, não tenho preferência. O tempo que surge, no decorrer do dia, é empregado para criar. Frequentemente, enquanto dirijo, nas estradas, aprecem muitas ideias. Costumo andar com um caderninho na bolsa e, quando paro, anoto tudo o que pensei. Depois, em casa, à noite, procuro melhorar a estética do que escrevi.

 

Qual é a temática da sua poesia?

 

Variada, desde a romântica até a engajada ambiental ou socialmente, passando pela existencial, a infantil, etc..

 

Como acontece seu processo criativo?

 

Rsrsrsrs!!!! No volante do meu carro ou nos bancos dos ônibus, principalmente. Outras vezes, raras, na varanda, fumando um charuto. As ideias surgem, começam a tomar forma e, assim que posso, anoto-as. Fatos do cotidiano costumam incentivar os neurônios a pensar. De repente, uma jovem passando com o pé engessado, usando muletas, pode ser o gatilho para disparar o aparecimento de alguns versos.

 

 

Um poeta especial para você?

 

Carlos Drummond de Andrade.

 

Como concilia sua profissão com a poesia?

 

É meio complicado, a correria dos hospitais, o transporte de pacientes graves nas ambulâncias deixam a gente meio anestesiado, porém eu não sou o primeiro, nem serei o último, poeta-médico. Aliás, pelo que falam, eu sou um ser completo, médico, poeta e, por que não, um tanto louco. Essa loucura saudável talvez seja a chama que alimenta a necessidade de transpor as ideias para o papel.

 

 

 

 

 

 

 

 

Um livro inesquecível?

 

Citarei um que não é de poesias. “O MONGE E O EXECUTIVO”, de James Hunter, foi extremamente marcante para mim. Mas tenho de citar também o primeiro livro que li, “EMÍLIA NO PAÍS DA GRAMÁTICA”, de Monteiro Lobato. Fantástico!

 

 

Quem você gostaria de ter sido, se não fosse quem é?

 

Mr. Spock, do seriado Jornada nas Estrelas! Rsrsrsrsrs!!!! O meu ídolo da adolescência! O mais humano dos não humanos! Em se tratando de pessoas reais, creio que permaneceria fiel a mim mesmo!

 

 

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

 

Confesso que sou bem tradicional, rigoroso mesmo, quase parnasiano, quando se trata da estética poética. Busco respeitar a métrica, o ritmo e a rima. Nada contra os que pensam de forma diferente, porém foi assim que comecei a apreciar a poesia, quando criança. Creio que isso me marcou. Também procuro ser claro o suficiente para que a maioria consiga compreender a mensagem que estou enviando através de meus textos. Então, clareza e disciplina estética caminham juntas, para mim, quando vou escrever um poema.

 

 

Fale-nos um pouco dos seus livros.

 

Tenho poemas publicados em diversas coletâneas, creio que quase vinte, e também cinco livros solo, já publicados. Curiosamente, apenas um é de poesias, “Dezena Poética”. São dez poemas que, em dado instante, numa noite, selecionei e decidi publicar. Os demais são dois romances, “Os Caiuniras” e “Amélia? Nem Morta!”, e dois ensaios, um sobre a política brasileira, “Brasil, Um Sonho Intenso…” e outro abordando algumas interpretações de versículos bíblicos, “Por Trás Das Palavras Da Fé”.

“Os Caiuniras” foi selecionado entre os cinco melhores romances publicados no biênio 2015-2016, no II Prêmio Talentos Helvético-Brasileiros. De fato, a meu ver, mereceu o prêmio. É o meu xodó! Um romance que não tem personagem principal, envereda por diversas tramas paralelas e ainda traz uma proposta inédita para um novo calendário, bem mais apropriado do que o usado atualmente, o Gregoriano. Modéstia à parte, é fascinante!

 

 

Como você classifica a poesia atual brasileira?

 

A poesia brasileira contemporânea parece passar por uma fase de transição. Quando lemos os textos de vários bons poetas torna-se difícil apontar características que definam uma escola ou movimento literário. Ou seja, cada um é seu próprio movimento. A poesia tende ao individualismo literário, diferente de outras épocas, nas quais era possível traçar os rumos do movimento (romantismo, parnasianismo, modernismo, etc.). Por um lado, isso é bom. Temos um caldeirão efervescente capaz de gerar magníficas obras. Por outro, é péssimo! Qualquer “Zé Ruela” escreve meia dúzia de linhas, com ou sem rima, e diz que se trata de um poema. Oh! Céus! Aparece cada coisa!!! Dependendo dos interesses da grande mídia, aquela monstruosidade recebe apoio e divulgação (Lembra-se da lei Rouanet?), e a maioria começa a crer que, realmente, está diante de uma obra de arte. Fazer o quê? Todavia, acredito que, em breve, teremos uma guinada nesse lamentável cenário. Na realidade, o que ocorre na poesia e na literatura, em geral, é reflexo da própria crise de valores que se abate sobre nossa sociedade.

 

 

Fale dos projetos para novos livros

 

Tenho alguns livros prontos, em condições de seguir para o prelo. Contudo, para autores que não recebem esse patrocínio, oficial ou não, custear as despesas de publicação torna-se bem pesado. Aos poucos, vou mandando meus “filhinhos” para as editoras. Uma dessas obras é um romance que seria a continuidade de “Os Caiuniras”. Creio que este será ainda mais premiado do que o primeiro. É uma história bem eletrizante e atual. Estou desenvolvendo, junto com outra escritora, um livro de contos. Nele haverá contos meus, dela e escritos a quatro mãos. Criamos uma dupla de personagens que estarão presentes em todos os contos. São os heróis do livro. Tenho também uma espécie de antologia poética, reunindo textos escritos em épocas distintas. E, para não perder o hábito de polemizar, preparei alguns ensaios analisando temas diversos, como drogas, alimentação, sexualidade, educação, etc.. Quem sabe, no ano vindouro, consigo publicar mais algum livro?

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

BIOGRAFIA DE JARI ZAMAR

Jari Zamar é carioca, nascido em 1954, formado em medicina e química. Também se dedicou à massoterapia, à psicanálise, ao coach e à Propaganda & Marketing. Ele é Membro Acadêmico da Academia de Letras do Brasil – Seccional Araraquara/SP, da Academia Luminescência Brasileira, da Academia de Ciências Letras e Artes de Vitória e da Academia Mineira de Belas Artes. O autor é amante da vida e das letras. Luta incansavelmente pela felicidade pessoal e coletiva. Acredita piamente que suas metas serão alcançadas!

Ele é filho único de pais pertencentes à classe média baixa. Sua infância e adolescência foram difíceis, não tendo acesso a mercadorias e produtos consumidos por vizinhos e muitos colegas de escola. Foi vítima de bullying, por ser obeso, e se refugiava na leitura e na produção de textos, desde a infância. Seus pais, embora sobrevivessem com dificuldade, sempre incentivaram e deram apoio aos estudos de Jari Zamar. Entendiam que educação era o único patrimônio que poderiam lhe deixar. A primeira televisão que entrou na casa de seus pais foi comprada pelo poeta, quando começou a trabalhar, aos dezoito anos, já estudante universitário. Quando criança, muitas vezes, ia para a casa de vizinhos com o objetivo de assistir televisão. Durante todo o curso de medicina (dos dezessete aos vinte e três anos), trabalhou, à noite e aos finais de semana, dando aulas em cursinhos pré-vestibulares ou como barman, em casas noturnas do Rio de Janeiro.

Sua vida acadêmica e profissional foi marcada por uma sequência de sucessos, com inúmeras primeiras colocações em concursos diversos, desde o vestibular para medicina até concursos para empregos públicos. Apesar do sucesso, sempre foi bastante irrequieto e não permanecia muito tempo nos empregos que conquistava. Pedia demissão, muitas vezes mudava de cidade, e buscava novas colocações. Sua vida afetiva também foi turbulenta, com vários casamentos. O mais longo (o quarto) durou onze anos e meio e o mais curto nem chegou a três meses. Tem três filhos, duas moças e um rapaz. A mais velha do primeiro casamento e os demais do segundo.

Apesar de ter participado, ativamente, quando jovem, do movimento estudantil e da política sindical, somente após os cinquenta anos de idade, dedicou-se à política partidária, tendo sido eleito prefeito de um pequeno município do sertão baiano. Sua passagem pela política também foi rápida. Cumpriu seu mandato, com uma administração bastante polêmica, que priorizou a consolidação da infraestrutura municipal (perfuração de inúmeros poços artesianos, implantação do SAMU, etc.), e abandonou a carreira política, voltando a se dedicar à medicina e à literatura.

O poeta teve oportunidade de residir em cinco estados brasileiros, Rio de Janeiro, Bahia, Goiás, Amazonas e São Paulo, e em mais de uma dúzia de municípios diferentes. Essa vida quase cigana (andarilho motorizado) lhe propiciou o contato com diversas facetas da cultura brasileira, o que lhe permite discorrer, com propriedade, acerca de temas tão variados.

Zamar tem cinco livros publicados: Brasil, Um Sonho Intenso…, Dezena Poética, Por Trás Das Palavras Da Fé, Amélia? Nem Morta! e Os Caiuniras, este último tendo sido classificado entre os cinco melhores romances do 2º Prêmio Talentos Helvético Brasileiros. Participou de diversas coletâneas, como O Bichonário Brasileiro, Madalena’s Em Prosa E Verso, Poetizando Momentos, Palavra É Arte, Antologia Criações, Elos Literários Vol. VI, Dez Poetas E Eu Vol. X, Inspiração Em Verso Vol. III, O Poeta É Um Fingidor etc.. Em breve, pretende lançar mais três livros, Cuidado, Contém Poesias, Coma Comida de Gente e Sombras da Caçada. Além de escrever livros e atuar como médico, dedica-se a palestras e conferências nas áreas da saúde, da educação e também motivacionais. Recentemente, abriu uma empresa de consultoria e assessoria em Propaganda & Marketing.

POEMAS PARA ACOMPANHAR A ENTREVISTA:

PASSISTA NOTA DEZ

O samba motiva sua alma,

Embala a rotina sofrida,

Garante alegria e calma,

Diante das dores da vida.

 

Favela, polícia, violência,

Retratos do cotidiano.

Será coletiva demência

Ou tudo não passa de um plano?

 

Em casa, faltando o aconchego,

Marido ocioso bebendo.

Não pode contar com seu nego,

As contas, em breve, vencendo.

 

Dá duro no ferro e faxina,

Enfrenta o batente cantando.

Sorriso de moça menina,

E assim, ela vai caminhando.

 

Plumas, paetês e confetes,

O samba no asfalto a rolar.

Marias, Terezas, Janetes,

Rainhas do morro a brilhar.

 

Na cabeça, bala perdida

Levou seu bebê pro buraco.

A Escola, ensaiando a batida,

Faz tremer o próprio barraco.

 

Enredo de mil tentações,

O sol não consegue entender.

Não digam que são ilusões,

Precisa de um sonho viver.

 

E chega o desfile esperado.

Bailando, fascina a plateia,

Encanta até reis com gingado.

E o pranto? Ninguém faz ideia.

 

Serpente de luz, nota dez!

E mais uma vez, campeã!

Esquece de todo revés,

Porém tal magia é vã.

 

Plumas, paetês e confetes,

O samba no asfalto a rolar.

Reginas, Ivones, Odetes,

Rainhas do morro a brilhar. 

SOBRESSALTADOS

Enquanto a mosca fumava,

O gafanhoto pescava.

O grilo, muito prudente,

Mandou pergunta inocente:

 

Onde vocês aprenderam

Estranhos comportamentos?

Será que já se esqueceram

Das sábias aulas dos ventos?

 

Atenta ao bate-papo,

Cigarra deu seu recado:

Mas isso é coisa do sapo,

Bicho nojento, melado.

 

O grilo, que investigara,

Não deu maior importância.

O vento já lhe soprara

A causa da discrepância.

 

Dona formiga opinou,

Dona barata também,

Até besouro falou,

Razão não coube a ninguém.

Borboleta, bem esperta,

Arriscou opinião.

Não é que ela estava certa?

Aos humanos fez menção.

 

Cego por sua ganância,

O homem não tem limite.

Ornado pela arrogância,

Emprega até dinamite.

 

Por fim, tudo esclarecido:

Droga que adultera a mente

Lançada como resíduo.

Era mais um poluente!

 

Os bichos, pobres coitados,

Viviam sobressaltados.

Sofriam constantemente

Com danos ao ambiente.

ROSAS DE LUZ

Estrelas de um céu artificial

Persistem sorrindo. O sonho acabou!

No meio do mar, sem boia e sem nau,

O tempo passou, e eu não marquei gol.

 

Em campos minados travei batalhas.

A bomba explodiu, o amor feneceu.

Refém do desejo, pleno de falhas,

Trilhei pelo mundo um caminho ateu.

 

Nem era pra estar escrevendo versos,

Mas luzes cintilam, sempre teimosas.

Vencendo a vidraça, raios dispersos,

 

Com suas nuances, relembram rosas.

Sugerem criar percursos diversos,

E não me importar com noites chuvosas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Uma consideração sobre “ENTREVISTA COM O POETA JARI ZAMAR”

  1. QUE MARAVILHA!!
    Adorei ler sua Entrevista meu amigo Poeta, Jari Zamar!!
    Parabéns por ter sido homenageado com o 2º Prêmio Talentos Helvético Brasileiros, com o seu “Os Caiuniras”, escolhido entre os cinco melhores romances.

    Gostei da dica: ” Costumo andar com um caderninho na bolsa e, quando paro, anoto tudo o que pensei. Depois, em casa, à noite, procuro melhorar a estética do que escrevi.”

    Seu soneto “Rosas de Luz”, adorei!

    ROSAS DE LUZ

    Estrelas de um céu artificial
    Persistem sorrindo. O sonho acabou!
    No meio do mar, sem boia e sem nau,
    O tempo passou, e eu não marquei gol.

    Em campos minados travei batalhas.
    A bomba explodiu, o amor feneceu.
    Refém do desejo, pleno de falhas,
    Trilhei pelo mundo um caminho ateu.

    Nem era pra estar escrevendo versos,
    Mas luzes cintilam, sempre teimosas.
    Vencendo a vidraça, raios dispersos,

    Com suas nuances, relembram rosas.
    Sugerem criar percursos diversos,
    E não me importar com noites chuvosas.

    ___ Jari Zamar

    Curtir

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s