E N T R E V I S T A COM O POETA IVANILDO BATISTA CHAVES

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Ivanildo Batista Chaves – Poeta

P – Quais foram as suas primeiras influências para a escrita e poesia?

R – As minhas influências primeiras na poesia foram, sem dúvida nenhuma, os poetas populares, os cordelistas, os repentistas, que, com suas improvisações criativas e conhecimento intuitivo da métrica perfeita, encantavam-me. Posteriormente, após conhecer mais profundamente a poesia e os poetas clássicos portugueses e brasileiros, nas aulas de literatura do antigo ginasial, apaixonei-me pelas rimas e a métrica dos poemas daqueles sonhadores. Nessa fase, o poeta que mais me impressionou foi o baiano Castro Alves, com a sua poesia abolicionista entusiástica e revolucionária, além do satírico Gregório Matos, o “Boca do Inferno”, e Olavo Bilac.

P – Em que momento você sentiu a necessidade de escrever?

R – Escrever poesia desde quando por ela fui seduzido, como anteriormente dito. Mas recentemente, para preencher as minhas horas de ociosidade de aposentado, senti a necessidade de escrever com mais intensidade, além de poesias, outros textos literários que futuramente talvez os publique.

P – Que tipo de leitura é imprescindível para um poeta?

R – Uma boa leitura é indispensável para a abertura da mente de toda e qualquer pessoa. O Poeta, entendo, não necessita de uma leitura diferenciada e específica para desenvolver o seu talento. Imprescindível é que saiba ler e interpretar os hieróglifos sutis contidos em sua alma e externá-los da melhor maneira que saiba.

P – Em que hora do dia você gosta de escrever?

R – A inspiração não obedece a horários, embora à noite pareça ser o período ideal para se escrever, pois que a alma, penso, está mais predisposta para sonhar.

P – Qual a temática da sua poética?

R – No início, os temas dos meus versos eram eminentemente domésticos. Restringiam-se a eventos com familiares e amigos. Hoje, não me apego a um tema específico. Percebo que eles são por demais ecléticos. Outro dia me veio à cabeça, não sei porque, a palavra “poliedro” e resolvi desenvolver uma poesia sobre o assunto…

P – Como acontece o seu processo criativo?

R – De várias maneiras. As vezes estou no banho, debaixo de uma ducha, e me vem uma ideia. Enxugo-me rápido e faço um verso. E esse sair e entrar no banho repete-se até que a poesia esteja completa. Em outra situação, como aconteceu no soneto que escrevi para o meu pai, começo com o último verso e vou desenvolvendo os demais. Noutras ocasiões, o poema parece já estar pronto na cabeça e sai espontâneo, como num parto normal.

P – Agora que está aposentado tem se dedicado mais a poesia?

R – Sem dúvida alguma. “A prática de poetar foi sensivelmente dilatada” com a aposentadoria, como consta da minha biografia contida no meu livro “Safira”.

P – Um livro inesquecível.

R – Vários livros eu guardo na memória por terem tocado forte na minha alma. Porém o que mais me marcou, por nos mostrar a fragilidade dos nossos pecados diante da temporalidade da vida, foi, definitivamente, CEM ANOS DE SOLIDÃO, de Gabriel Garcia Márquez.

P – Quem você gostaria de ter sido se não fosse quem é?

R – Ninguém. A não ser eu mesmo melhorado, redimido dos meus pecados de hoje, pela experiência de agora. Sem os remorsos das mágoas que, mesmo sem querer, causei.

P – Qual é a sua maior preocupação ao escrever?

R – É a de repassar as mensagens que a alma e o coração me ditam, da maneira mais serena possível, sem agredir ou ofender ninguém.

P – Fale-me dos seus projetos.

R – Tenho vários projetos pessoais que ainda estão sendo delineados. No que diz respeito, especificamente, à Literatura, pretendo publicar, brevemente, um segundo livro de poesia fruto dos poemas produzidos durante este corrente ano de 2017. Penso, também, publicar, talvez no próximo ano, um livro de contos, que estou escrevendo, de situações que vivi na minha vida privada e profissional, e outros que me foram reportados.

P – Por que deu este nome ao seu livro “Safira”?

R – Há muito tempo, provavelmente no final da década de noventa, fiz um soneto em homenagem à minha mãe, que ainda era viva e que tinha este nome. Nada mais justo que estender essa homenagem quando da publicação do meu primeiro livro solo de poesias.

P – Como você classifica a poesia e a literatura brasileira?

R – “A última flor do lácio, inculta e bela”, como conceituava “Bilac” a língua portuguesa, apesar de sua dificuldade e tantas regras gramaticais, é plena de grandes escritores e poetas, daí eu reconhecer a sua excelência

P – Fale das suas frustrações com relação à política do Brasil.

E – As minhas frustrações nesse campo são as mesmas de todo o povo brasileiro que vê a sua pátria vilipendiada por uma elite de políticos corruptos, impatriotas, que entendem que o melhor para o crescimento Brasil é entregar as nossas riquezas aos estrangeiros e assim se beneficiarem com os dividendos dessa tramoia. Entretanto, isto já não me afeta tanto como outrora. O aprofundamento na leitura dos clássicos Filósofos gregos e na literatura esotérica me faz hoje pensar diferente. Acredito que a coisa ainda vai piorar muito. O patrimônio público será ainda muito dilapidado, pois a sede de poder e riqueza dessa geração de “raposas velhas” da política brasileira é insaciável. Mas sou otimista e acho que, embora talvez não presencie, essa farra um dia acabará e este país crescerá como nunca guiado por uma nova geração de homens dignos, que já está chegando.

P – Pensa em se mudar do Brasil, se pensa para onde deseja ir?

R – Muito embora tenha filhos morando no exterior, que daqui saíram decepcionados com as elites dominantes e com o rumo que o país tomou, com a sua insuportável violência, não tenho a mínima intenção de deixar o Brasil. Apesar dos pesares, acredito que aqui é o meu lugar, aqui é aonde canta o meu sabiá… Não me adaptaria em outro.

P – Família o que representa para você?

R – A família para mim é simplesmente tudo. Não imagino viver sem o aconchego do meu ninho, ou sem o carinho dos meus.

P – Acredita que podemos atingir a maturidade existencial por meio da educação, sobretudo pela leitura de bons livros?

R – Quanto a isso eu não tenho a menor dúvida. Nós crescemos intelectualmente e evoluímos espiritualmente através das experiências vivas do dia-a-dia e de outras que nos são ditadas pelos grandes pensadores ou por aqueles que nos passam as suas experiências intensamente vividas. Assim é como são  forjados o nosso caráter e a nossa personalidade, somado a sensibilidade de cada um. Por exemplo, Sócrates, que viveu a quatro décadas antes de Cristo, já nos dava uma sábia lição com as suas “peneiras” e a sua crítica sobre a “verdade absoluta”, que cada um carrega dentro de si. Aprendi com isso a avaliar melhor o que me contam sobre os outros e a respeitar as opiniões alheias, para não passar pelo “dono da verdade”, medíocre e arrogante, a quem ele se referia.

BIOGRAFIA:

IVANILDO BATISTA CHAVES nasceu em Caruarú, Pernambuco, terra de grandes cordelistas. Apaixonou-se cedo pela poesia ouvindo e lendo esses artistas populares e, posteriormente, após estudar versificação nas aulas de literatura do colégio, ao conhecer os clássicos da poesia portuguesa e brasileira. Mas foi só depois de sua aposentadoria que intensificou o seu hábito de criar versos.

No final de 2016, a Editora do Carmo garimpando no FACEBOOK encontrou uns versos seus ali postados e o convidou para participar de seus projetos, o que ele aceitou. Já participou de duas antologias promovidas pela referida Editora: DEZ POETAS E EU e UM BRINDE À POESIA, e publicou o seu primeiro livro solo SAFIRA – Sonetos, Cordéis e Outros Versinhos.

 

Poemas:

ASTRO-REI

 

Astro-Rei, tu que me iluminas tanto

E as vezes de mim foges desdenhoso,

Que o teu calor venha enxugar meu pranto

Quando o viver já não está ditoso…

 

Hoje, que não tenho mais minha amada,

Não te vejo com o ardor que te via antes…

Juntos nós curtíamos a tua alvorada,

O nascer dos teus raios cintilantes!

 

Ela que partiu para outra morada,

Deixando-me triste na solidão…

E parece que não mais a verei!

 

Que tu digas lá no céu a minha amada

Que nunca a tirarei do coração,

Pois ela, como tu, foi meu Astro-Rei!

Ivanildo Batista Chaves

 

DELÍRIOS DE UM LOUCO

 

Desgraça! Que roupa é esta que nu eu visto

De fingimento e sarcasmos covardes?

Será que tiraram mesmo o quisto

Do meu cérebro e a minha sanidade?

 

A idade me traz ainda mais tormentos

E eu me mutilo mesmo de verdade…

E são tão loucos os meus pensamentos

Que eu penso já estar na eternidade!

 

À minha volta ouço tantos lamentos

Das almas penadas do meu próprio inferno…

Que angústias são essas que eu mesmo invento

E tento enfiar à força no meu cérebro?

 

Me tire Senhor desse sofrimento,

Me deixe voltar à realidade…

Do crânio tire todo esse excremento

Que me deixa mais louco, por piedade!

 

Agora, Jesus, me sinto melhor,

Humilde agradeço a graça alcançada

E peço perdão por ter sido o pior

E ter essa mente tão desalmada!

Ivanildo Batista Chaves

 

POLIEDRO

 

Minha vida é um “poliedro” de mil faces,

Cada uma fascinante e colorida,

Representam no tempo as minhas fases

De utopias que carrego pela vida!

 

Nos meus “vértices” procuro o Senhor…

O que dizem ter criado o firmamento!

Esse Deus tão justo e pleno de amor

Que eu tento acreditar… mas não entendo!

 

As minhas “arestas” tento tirá-las,

Pois sei que são em mim um peso morto,

Quero deixar minha vida bem mais clara,

Arrancar meus pecados num aborto!

 

Ou serei um dos “Poliedros de Platão”

Que os fez elementos da natureza?

Fogo, terra, água, ar e universo… Então,

Mostrando da criação toda a beleza?

 

“Vértices” menos “Arestas” mais “Faces”

Compõem a fórmula de EULER, suíço,

Que num dia de arguição na minha classe

Meu Professor cobrou me vendo omisso…

 

O resultado, amor, dessa equação

Parece nos fazer muito sentido,

Pois mexe com meu triste coração,

Já que ele é DOIS… dois corações partidos!

 

 

Ivanildo Batista Chaves

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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