ENTREVISTA COM A POETA FLORANITA PEREIRA

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Floranita Pereira

Quem é Floranita Pereira?

Diria que um ser plural,carregando muitos eus.
Quais?
A menina, sempre e suas fantasias,a mulher e suas paixões,a mãe e avó e o amor incondicional,o ser social engajado em algumas causas e o ser poeta que transita por todos esses seres e rouba de cada um a essência que fluirá e se fará  poesia conjugando tempo,razões e emoções na feitura do poema.
Esse é meu rosto entre dimensões que não me limitam,A flora que aflora em eterna floração da flor- poesia.

Quais foram as suas primeiras influencias para poesia?

Comecei a ler aos 12 anos,minha mãe lia muito tinha muitos livros em casa e fui lendo Emily Bronte,todos os livros do Érico Veríssimo,Sheakspeare,e então me caiu nas mãos uma antologia de poemas que ia desde os poetas portugueses do romantismo até o movimento modernista.Minha primeira paixão foi o poeta português Álvares de Azevedo.Fiquei  encantada pelo seu poema Lembrança de Morrer,seus sonetos de amor,por sua história que acaba como todos os poetas,pintores,músicos do século XIX com a tuberculose chamada de mal
do século.Esse poema que citei e um soneto de amor,ficaram gravados em minha mente.
Outros poetas me encantaram como Alphonsus de Guimarães e seu poema Ismalia,Cruz e Souza e sua Vida Obscura,Machado de Assis e seu Círculo Vicioso
Raimundo Correia e o Mal Secreto e  tantos outros,até chegar no qual
julgo ser  meu mestre,Carlos Drummond de Andrade,tamanho o encantamento por seu estilo,sua história,e um certo conhecimento de sua personalidade na intimidade de seu lar,já que era vizinho de uma minha uma  irmã que vivia no mesmo prédio no Rio de Janeiro, que a pedido de sua adorada  filha também escritora Maria Julieta,as vezes ia até seu apartamento onde morava com sua esposa Dolores,ver se estavam bem.
Me contava ela que ele era super tímido e reservado, quando abria sua porta,
mas seus poemas revelam uma outra identidade,totalmente distinta,
alma irreverente e apaixonada como se sente no poema Paixão Medida:

A paixão medida

Trocaica te amei, com ternura dáctila
e gesto espondeu.
Teus iambos aos meus com força entrelacei.
Em dia alcmânico, o instinto ropálico
rompeu, leonino,
a porta pentâmetra.
Gemido trilongo entre breves murmúrios.
E que mais, e que mais, no crepúsculo ecóico,
senão a quebrada lembrança
de latina, de grega, inumerável delícia?

Toda obra Drummondiana foi uma grande influência em minha poesia assim
como outros poetas de outras nacionalidades como Emily Dickinson,Mayakovisk,
Florbella Spanca,Federico García Lorca,Borges e tantos outros.

Em que momento você sentiu a necessidade de fazer poesia?

O processo poético é mágico,para mim sempre foi assim.Uma catarse? Uma psicografia como no campo espiritualista? mais bem uma chuva de frases sem hora marcada caindo pesada na alma ora em ritmo brando,ora como tempestade
e nesse momento poderemos ou não transformar esse processo em  poema, cravando ou não  as palavras num papel ou outros meios,momento de uma certa revolução interior
Muitas vezes acontece quando estou dormindo e sonho e isso me faz acordar e escrevê-lo  ou não para ser lido despois,outras vezes logo que me recolho antes de cair no sono,outra vezes no meio do dia,ou no meio da noite,ou seja,acontece
aleatoriamente a um  determinado momento específico.

Que tipo leitura é imprescindível para um poeta ou escritor?

Diria que qualquer tipo de leitura,não só os poetas brasileiros ou de outras nacionalidades,mas também romances,livros sobre psicologia,os grandes filósofos de todas as épocas,livros que abordem temais sociais,políticos,porque tudo o que escreve um autor pode nos inspirar.Tudo gira em torno da humanidade e da vida.

Em que hora do dia você gosta de escrever?

Como disse acima,não há momento específico que eu goste de escrever.
Esse momento independe de minha vontade.Nao se pode pensar agora vou escrever.Nao,o processo é outro,é um momento único,mágico.

Qual é a temática da sua poesia?

Como um processo de catarse (individual) ou  de uma consciência coletiva minha
poesia fala de  emoções vividas,de minha comoção ante os fatos da vida
observada e sentida ou das fantasias que explodem em metáforas no corpo do poema.
Fala da natureza,do caos,do amor, enfim de tudo que me inspira.

Como acontece seu processo criativo?

Como disse anteriormente é um processo mágico
Transcrevo aqui o que publiquei na orelha de meu livro Na cor de minha palavra para explicar esse processo.
Fluindo em meu sangue pela descendência de gerações,como chuva branda ou incontrolável tempestade,surgiu em meu ser a poesia,essa doce e mágica arquiteta das palavras.
Gotejava em minha alma essa arte até então desconhecida de meu ser,que as 13 anos me foi intensamente revelada.
Nesse processo o poema se fazia tomava corpo,ritmo,muitas vezes com palavras desconhecidas para mim,que para minha surpresa,depois de consulta-las num dicionário,estavam perfeitamente encaixadas no contexto do poema.
Os sentidos ou vivências que os faziam aflorar em minha mente,os temas,eram muito maduros para minha pouca idade,era a magia da criação poética.
Desde muito cedo fiz das palavras minhas cúmplices e reveladoras companhias
muito raramente fazendo uso da pontuação convencional.
Aqui um poema escrito nos meus 14 anos,em 1959 que guardo em minha memória:

Desfilaremos
Sem Deus
Em largar alvoradas brancas
-chaga contra chaga-
-anseio contra anseio-
Para a definição do mundo
Em corpos que se abraçam
Contra o linho
Em almas que se despirem
Entre abismos.

Um escritor especial para você?

Leio muito poesia, e dentro desse contexto Drummond de Andrade num tempo mais passado.
Também outros grandes poetas nacionais ou não como Eunice Arruda,Sylvia Plath,Adélia Prado,Hilda Hilst,Lupe Cotrin Garaude,Alejandra Pzarnick,Alfonsins Storni,Júlio Cortazar,Denise Levertov,Elisabeth Bishop,Ferreira Goulart e outros.
Leio Saramago, Clarice Lispector,Vargas Lhosa,Kafka e outros clássicos..Na atualidade muitos poetas que se sobressaem  como Mariana Basílio,Marco Cremasco,meu  irmão Silva Neto,Evan do Carmo,Álvaro Alves de Faria e tantos outros que estão reverenciando a arte poética.

Como concilia trabalho com a literatura?

Atualmente estou aposentada, tenho o tempo livre para esperar a sua chamada.
Nos anos em que trabalhava quando ela chegava sempre achava um meio de transpo-la no papel,as vezes em guardanapo,escrevendo nas mãos,enfim não deixando que ela escapasse de ter sua feitura gravada em algum meio.

Um livro inesquecível?

Colocaria no plural, são muitos.
Logo quando comecei a ler,O tempo e o Vento de Érico Veríssimo ainda adolescente.
Muitos outros passaram por meus olhos ávidos,O velho e o mar,de Ernest Hemmingway,O Processo de Kafka,O livro dos seres imaginários de Borges,
Dom Quixote de Miguel de Cervantes,e todos os livros de meu mestre Carlos Drummond de Andrade.

Quem você gostaria de ter sido, se não fosse quem é?

Eu mesma,apenas com a maturidade e sabedoria que ganhei com a passagem dos anos já na minha juventude.Quem não?

Como os paulistas da sua região lidam com a poesia?

Com muita importância,já que São Paulo é e sempre foi desde anos passados um polo cultural muito grande,berço de grandes poetas e escritores como Paulo Bonfim,Guilherme de Almeida,Mário de Andrade,Haroldo de Campos,Hilda Hilst,Menotti del Pichia,Adélia Prado e tantos outros.. A forte modernização aliada aos novos conhecimentos culturais trazidos pelos imigrantes trouxeram à cidade um momento artístico e cultural único na história do país e do mundo. Artistas brasileiros, como a pintora Anita Malfati e o escritor Oswald de Andrade, e estrangeiros, como o escultor italiano Victor Brecheret, deram início a Semana de Arte Moderna. Foi um encontro de poetas, assim como escritores, artistas plásticos, arquitetos e músicos realizada em fevereiro de 1922, no Theatro Municipal.
Centro cultural da América Latina, São Paulo possui 101 museus, 282 salas de cinema e 146 bibliotecas e cerca de 40 centros culturais.
Grande, multicultural e intensa, São Paulo é pura inspiração e por isso transpira expressão artística.

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

A única preocupação seria com a parte gramatical,se as palavras estão
devidamente acentuadas e escritas. Não tenho outra preocupação.
O poeta deve exercer seu ofício livremente,expondo seus sentimentos e emoções
com o intuito único de tocar a alma de quem o lê.

Fale-me dos seus livros publicados e de suas feituras.

Meu primeiro livro Meu espaço canto acontecido de 1973 foi publicação minha,ou seja fiz sua diagramação,bati os poemas na máquina,não havia computador na época,desenhei a capa,usei o  pseudônimo de Ivy Rabelo Lins,porque meu nome era imenso,tinha 4 sobrenomes e não quiz usá-lo, fui a uma gráfica.La fizeram o livro e me lembro da emoção ao vê-lo pronto.Destribui aos amigos,não fiz lançamento,apenas levei uns 10 livros numa livraria e deixei ali pra ser vendido em consignação.
Tempos depois recebi uma carta de um escritório da Library of Congress de Washington nos EUA no Rio de Janeiro,pedindo um exemplar do livro.
Eu mandei,e esse  livro está catalogado nessa biblioteca em Washington com aquele pseudônimo.
Meu segundo livro In versus Nós foi uma publicação da Editora Scortecci em 1999,fiz um lançamento conjunto com outros poetas mas não distribui os livros.
O terceiro, Na cor da minha palavra, foi lançado na Fnac de Pinheiros em julho de 2016.
Participei da antologia da REBRA,antologia em verso e prosa.
Participei de lançamentos de antologias em Lisboa,outros na Editora Matarazzo e na Editora do Carmo: Dez poetas e eu II,Desafio,Um brinde a poesia,O poeta é um fingidor e estarei participando da antologia Havia uma pedra no caminho.

Como você classifica a poesia atual brasileira?

São poucos  os poetas brasileiros da atualidade.
A poesia vai se desenhando pelos meandros de novos estilos,já não se limitam as rimas ou escritas convencionais,mais devotos  a uma espécie de fala que não aceita limites no âmbito social ou moral, uma poesia sem vivência, sem referências, superficial, sem qualquer preocupação com a função poética, sem conseguir alinhar forma e significado.
Parece haver mais quantidade que qualidade.Isso se observa nas redes sociais.
Há mais poetas do que nunca. A crítica quase inexiste e é incapaz de dar conta do que se publica em livros ou na rede.
Mas há poetas que ainda se sobressaem pelo conteúdo de sua poesia.Todos os citados acima.

Fale das suas frustrações com relação ao Brasil, sobretudo com respeito à política.

Frustração total com a falência política no Brasil.
Essa corrupção sistêmica que se estabeleceu acabou com nosso país,levando-o a uma derrocada econômica gerando o desemprego que assola as famílias mais pobres e inclusive achatando a classe média.
Nunca na história desse país se estabeleceu tanta corrupção e impunidade.
Os políticos já não representam o povoo.Fizeram da política cabide de emprego e meio de enriquecimento.
Espero que ao cabo dessas operações que se instalaram para acabar com isso possam limpar a casa e fazer do Brasil um país onde possamos viver e sermos respeitados pelos nossos governantes e respeitá-los também.

Por que resolveu morar fora do brasil?

Não me aconteceu isso,espero que não me aconteça,mas as vezes diante dos acontecimentos políticos me sinto arrasada e me dá vontade de sair daqui.

Família, o que representa para você?

A família é meu grande tesouro.
Representa tudo para mim.
Ajudei na criação de meus dois netos mais velhos que já estão com 27 e 22 anos  e continuo ajudando com os menores. Sou aquela avó presente na vida de meus netos.
A família  de meus ancestrais era numerosa e a família que formei também é.
Tenho 4 filhas e 11 netos maravilhosos,3 homens e 7 mulheres que  continuam a fazer do amor e do se dar a grande razão de nossas vidas.
Duas de minhas filhas moram nos EUA,vou quase todo ano visitar e estar com elas e meus 5 netos que vivem ali ,e duas aqui em São Paulo que estamos sempre juntas.
Ttenho minha mãe com 93 anos com muita saúde e 6 irmãos.Somos muito unidos,a paz e a amizade além do amor sempre reinou entre nós.
A família é a base de tudo.
Mesmo ante a evolução da família na sociedade atual,vemos a luta para se manter a família,mesmo na diversidade,já não a família tradicional vinda de casamentos tradicionais.

Fale dos projetos para o futuro.

Basicamente estar sempre envolvida na vida literária.
Estou fazendo parte de uma antologia em Lisboa,Poemario 2017 e da antologia
Havia uma pedra no caminho da Editora do Carmo.
Escrevendo para um próximo livro de poemas para o próximo ano.
Vivendo intensamente a poeta que existe em mim.

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