ENTREVISTA COM A POETA BERNARDETE CAVALCANTI

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Bernardete Cavalcanti?

Quem é Bernardete Cavalcanti?

Fui a primogênita de um casal bastante peculiar ; ou seja, um Pernambucano culto, formado em Direito e uma Cearense, simples e com pouco estudo. A família constituída por cinco filhos legítimos e dois adotados passou por dificuldades na cidade de Campina Grande, Paraíba. Portanto, eu me considero pobre e rica ao mesmo tempo. Pobre, de berço porque em fins da década de 40 as famílias tinham um menor poder aquisitivo e o número de pessoas em casa contribuía à diminuição na renda familiar. Rica porque, cercada de livros, tive a oportunidade de me enriquecer com a leitura e daí foi um pulo para as demais atividades de minha vida. Sou um misto de mulher prática devido à formação em Área Tecnológica (Engenharia) e de uma romântica idealista (por natureza). Sempre busquei aprender e me acerquei de pessoas mais velhas que pudessem me proporcionar um pouco de seus conhecimentos de vida. Segui muito os conselhos e o exemplo de honradez, ética e dignidade que meu pai (Juiz de Direito) auferiu á todos nós os Cavalcantis. Fui e ainda sou orgulhosa de minha ascendência do lado paterno: Cavalcanti descendente de Filippo Cavalcanti que chegou ao Brasil em 1585 e de seu parentesco com o poeta toscano Guido Cavalcanti e do lado materno de meu pai sou descendente de Frei do Amor Divino Caneca, um dos primeiros mártires da Independência do Brasil.

Busco sempre cooperar, ajudar e aconselhar tanto os ex – alunos como os colegas que ainda entram em contato comigo na Àrea Tecnológica. Considero que parte de minha missão neste Planeta já foi cumprida mas, há ainda a necessidade de compartilhar mais . A idade avançando e os problemas que surgem inerentes à essa condição biológica, às vezes, me obrigam a diminuir o meu ritmo de trabalho. Gostaria de produzir mais e esse assomo, essa ousadia que às vezes se evidencia em meu caráter fazem – me parecer mais jovem e me satisfaz porque, dessa forma, tenho mais coragem para enfrentar as adversidades da vida.


Quais foram as suas primeiras influencias para poesia?

Aos 9 anos de idade comecei a aprender Francês com meu avô Pernambucano , também um Jurista e culto. Aos 13 anos ele me pedia para recitar os grandes da Literatura Francesa: Chateubriand, Paul Verlaine, Alfred de Musset, Alfred de Vigny e outros. Com ele, aprendi a amar a poesia. Com meu pai, que recitava poemas de Almeida Garret e de outros poetas Portugueses inclusive Luiz Vaz de Camões, além do grego Homero em sua Iliada e Odisseia, comecei a me focar nos poemas que me arrebatavam a alma devido à sua qualidade épica. A introdução da leitura das Obras de Edgar Allan Poe e os poemas de William Shakespeare e de Yeats me abriram as portas para o convívio com a Literatura Inglesa. Antes de enveredar na Área Tecnológica, gostava de escrever e mantinha um Diário no qual anotava as minhas impressões do dia a dia. Às vezes, conseguia escrever algum Soneto e me deliciava com os poemas escritos por meu avô que faleceu em 1959. Portanto, essas influências se perpetuaram e até hoje o ler e o viver diário se constituem , para mim, sempre um aprendizado!

 Em que momento você sentiu a necessidade de fazer poesia?

 

Aos 13 anos de idade quando li os escritos de meu avô e como ele homenageava aqueles que ele mais gostava. Como optei por uma carreira tecnológica, os meus sentimentos mais românticos e de aspiração poética ficaram “dormentes” em mim. Fui casada e a separação após apenas 7 anos de casamento, despertou em mim um turbilhão de emoções e me senti inclinada aos 36 anos de idade a reescrever poemas. Foram apenas alguns pois o tempo era mínimo mas, com a facilidade de me expressar achei que poderia postergar mais um pouco esse deleite para a minha alma. Quando perdi minha mãe e meu filho foi embora (filhos de europeu deixam cedo demais a casa da mãe ou dos pais) pus – me novamente a escrever pequenos Sonetos. Gostava deles pois apresentando poucas estrofes me permitiam um tempo maior para o que também sinto grande prazer em fazê-lo: A Pesquisa Bibliográfica. Essa pesquisa levou cerca de 20 anos pois me propus, a partir de documentos muito antigos (Séculos XVI, XVII) tentar contar a História e as Lutas que meus antepassados se envolveram aqui no Brasil. Em tempos mais difíceis como, por exemplo, quando a inflação aumentou assustadoramente  em meados da década de 90, foi – me impossível pesquisar e também escrever poemas. Mas, eles estavam lá. Guardadinhos nos recônditos mais profundos de minha mente. Adormecidos para um dia poderem explodir e me satisfazer de um modo tal que hoje, mesmo quando estou doente, continuo a criar!

 

Que tipo leitura é imprescindível para um poeta ou escritor?

 

Todas, exceto algumas da Área Tecnológica que envolvam formulações matemáticas. Gosto muito da Natureza e qualquer livro que fala de algum bioma ou de qualquer elemento que a ela pertença até mesmo os eventos hidrológicos me atraem. A poesia romântica você sente e tenta expressá-la em se colocando como amante ou como amada quer tenha um final feliz ou não. Não há uma regra específica. Cada poeta tem uma marca que deixa estampada , como se fosse seu selo, em cada poema que faz. As Histórias burlescas, as de aventura, aquelas que atraem o espírito humano são também ferramentas que podem enriquecer uma poesia. Mas, tudo vem do interior. Até mesmo uma fotografia pode despertar uma história contada em forma de Poesia.

 Em que hora do dia você gosta de escrever?

Particularmente, não tenho uma hora específica. Caso tenha algum compromisso que requer movimento eu não me atrevo a escrever. Contudo, na sala de espera de um dentista , de um médico ou mesmo no cabelereiro a criatividade aflora bastando para isso apenas relembrar de algo que me chamou a atenção. Todavia, a melhor hora ainda é a noite quando o silêncio permite uma maior reflexão principalmente de sentimentos às vezes relacionados à Solidão ou a Saudades ou qualquer um que consiga fazer explodir emoções conservadas e guardadas no âmago do poeta.

 

Qual é a temática da sua poesia?

 

Os sentires ou sentimentos, a Natureza, águas de uma forma geral, romantismo . Tenho sempre a ideia de escrever como quem conta uma história. Tem um início (Introdução) o desenrolar do evento ou tema e, finalmente uma Conclusão onde expresso, ás vezes, como uma “Máxima” um conselho, um proverbio ou mesmo uma esperança que pode um dia ser alcançada. Já me classificaram como “ poeta lírica” . As vezes me comporto (na poesia) como se fosse uma “ambientalista” talvez influenciada pela profissão que abracei e pela qual tenho lutado desde a década de 70. Não sou uma poeta moderna. Escrevo com rimas e observo as sílabas do poema. De início adorava escrever os dodecassilábicos mas, notei que são muito grandes e que é possível misturar o estilo de modo que o leitor entenda a mensagem e a absorva mais rápido. Os poemas mais “leves” e “soltos” ficam mais agradáveis quando são curtos expressando jovialmente a mensagem.

Como acontece seu processo criativo?

Inicialmente penso no tema. Começo sempre a rabiscar aleatoriamente o desenvolvimento desse tema. Depois, verifico se a mensagem foi devidamente criada e que pode ser entendida. Ás vezes, uso palavras mais complicadas mas, tenho observado que dezenas de pessoas amantes da poesia não iriam entender palavras mais rebuscadas. Então, passo a utilizar um vocabulário mais simples. As rimas e colocação exata das palavras – chave relacionadas ao tema são feitas por último. Gosto de ler meus poemas em voz alta de modo a verificar se realmente consegui comunicar o que tenho em mente. É um pouco trabalhoso mas, sai sempre de meu agrado. Não gosto de repetições de estrofes nem no começo nem no fim de um poema. Prefiro o contar de forma prazerosa o que se me vai na alma naquele momento. Sem repetições que poderiam ser interpretadas como “bordões”.

 

 

Um escritor especial para você?

 

Tenho vários dependendo da Literatura escolhida para a leitura. No Brasil , gosto de Monteiro Lobato (contos) e dos poemas de Castro Alves e, mais moderno, os poemas de Carlos Drummond de Andrade. Em Portugal, poemas de Fernando Pessoa; Na França varia desde Victor Hugo (contos) até Baudelaire (poemas). Na Inglaterra sou apaixonada pela forma de escrever poemas de Yeats e os Contos de Shakespeare. Nos Estados Unidos sempre gostei de Ernest Hemingway mas, foi Thomas Mann quem me deixou encantada com seu livro “A Montanha dos Sete Patamares”. Li muito. Vi muitos estilos e procurei seguir os conselhos de meu avô Sebastião Cavalcanti Filho: “Escreva muito para que você obtenha um estilo”!!!

 

 

Como concilia trabalho com a literatura?

 

Atualmente sou aposentada, mas ainda faço alguns trabalhos como Consultora em projetos de Saneamento Básico. Não há conflitos de horário o que se mostra uma grande vantagem. Com saúde, paz e sossego, é possível produzir muita coisa.

Um livro inesquecível?

 

Citei anteriormente. “A Montanha dos Sete Patamares” de Thomas Mann. Outro que sempre me apraz ler é Guerra e Paz de Leon Tolstoi e um épico como A Odisseia escrito pelo grande grego Homero.

 

Quem você gostaria de ter sido, se não fosse quem é?

 

Teria escolhido outra profissão a qual eu pudesse ainda usufruir de meus conhecimentos mesmo já estando acima da casa dos setenta! Ser engenheiro (a) em País onde há tanta corrupção envolvendo empreiteiras e obras de Engenharia deixaram – me bastante desgostosa com minha profissão que é, em si, tão bela pois cuida das pessoas e da Natureza (rios, estuários, canais, lagos, reservatórios, fontes, etc). Talvez tivesse feito Medicina e conciliaria as horas de atendimento com horas de criatividade. Contudo, talvez não fizesse uma pesquisa tão longa (cerca de 20 anos) para escrever uma Epopeia sobre os Cavalcantis na colonização e estruturação da Sociedade no Nordeste do Brasil.

 

 

Qual a sua maior preocupação ao escrever?

 

Conseguir me expressar de forma tal que a mensagem pertinene à obra que estou escrevendo se faça entendida e , se possível, apreciada.

 

 

Fale-me dos seus livros publicados e de suas feituras.

 

Na Área Tecnológica foi publicado um livro sobre Medições de pH em Águas de Alta Salinidade em Inglês e disponibilizado no e-Google. Tem o nome complicado de Residual Liquid Junction Potential in Binary Chloride Systems.Esse livro foi publicado em meados dos anos 80 e tem uma seção de Comentários e , até agora, ninguém postou nenhum comentário. Ou o livro é muito complicado ou ninguem leu!!! A Editora do Carmo publicou meu livro “Na África do Sul do Apartheid” e participei de Coletâneas de poesias da Editora do Carmo tais como Dez Poetas e Eu, Volume 6, Desafio I e Desafio II, O Poeta é um Fingidor. Espero também a Coletânea dedicada à Carlos Drummond de Andrade. Estou também publicando, em forma de Contos, trechos engraçados ou não de minhas atividades como engenheira no Século XX. Chama – se “Contos de uma Engenheira do Século XX” no blog do jornalista Português Carlos Alberto Silva. Estou finalizando os livros “Cavalcantis: História e Lutas” e “Perfís de Cavalcantis” que, possivelmente serão publicados no próximo ano.

 

Como você classifica a poesia brasileira?

 

Ao ler um poema de Castro Alves, qualquer pessoa que ame a Poesia ficará encantada! Poetas como Vinicius de Morais são românticos e os poemas de Cora Coralina sempre me deixam boquiaberta e feliz! Sim , temos bons poetas e à medida que a Poesia é valorizada, abrem – se espaços para novos poetas. Tem tanta gente com sensibilidade e que gostaria de ter um espaço. Considero a poesia brasileira bem superior à americana mas, pode ser melhorada e atingir níveis como a de Portugal e, principalmente a Francesa.

 

 

Fale das suas frustrações com relação à política.

 

Em 1963 votei pela primeira vez até o Golpe e instalação do Regime Militar. Esse Regime , embora casasse vários benefícios (e às vezes não porque já se sabia que alguns políticos tinham tres ou mais empregos e que era possivel a instalação de uma ditadura comunista no país) eles trouxeram uma certa ordem em termos de controle da violência e trafico de drogas. O Brasil tinha imensa área e diversificação de recursos minerais , hidricos e um excelente ecossistema. ERA rico em Nióbio (que o Inglês levou), em xelita, pedras preciosas e semi – preciosas, em ferro, manganês, tungstenio, etc. A maior reserva hídrica do planeta. Descobriram ainda em inicio desse Século um rio que segue por baixo de camadas rochosas o rio Amazonas um dos maiores do mundo em extensão. Chamaram (franceses e americanos) de Rio Hemza. O aquifero Guarani que poderia abastecer por vários anos cidades como São Paulo e cidades interioranas, etc. já não nos pertence. A Amazonia consta em livros de Geografia nos Estados Unidos como sendo Americana. Sua devasração está sendo acelerada. Há mais de setenta anos e, mesmo nas grandes sêcas dos anos 88, 89 e 92 do Seculo XIX os rios do Amazonas eram perenes por causa da proteção natural da floresta amazônica e pelo uso restrito das águas. Mesmo no Ciclio da Borracha já em pleno Século XX nunca nenhum rio do Amazonas secou!! Hoje, devido à falta de Operação, Gerenciamento de nossos recursos naturais permitem que as próximas gerações de Brasileiros sofram com a falta do bem mais precioso da Humanidade: A Água. Leis devem ser criadas e outras abolidas. Um controle mais rígido e, se possivel uma Legislação de modo a garantir que o povo brasileiro tenha uma melhor qualidade de vida. Paises  pequenos como a Holanda (duas vezes menor que a Paraiba) e Bélgica tem um per capita altíssimo. As pessoas trabalharam em Cooperativas e construiram a Philips, a Nike e tantos outros. Não é a extensão do país que complica mas, a falta de uma Legislação mais forte que possa punir corruptos e corruptores e dar uma Educação melhor ao povo. Quando vejo o que se passa aqui e, como exemplo,  comparo nossos métodos ainda da Idade Média para tratar o lixo,  com o que vi na África do Sul em 1979 e em Portugal e Holanda há pouco tempo atrás eu fico boquiaberta e me pergunto sempre: “Como foi que isso aconteceu? Como chegamos à beira de um imenso abismo?”. A Politica já foi considerada como o ópio do povo. Hoje além de ópio é também destruidora e danosa.

 

Pensa em se mudar do Brasil, se pensa para onde deseja ir?

 

Gostaria muito de morar na Holanda e, se fosse mais jovem, plantaria a minha comida (como eles fazem lá), auferindo à minha saúde uma melhor condição. Tudo dependeria de poder estar junto ao único filho que tenho. Outro país que me agradou bastante foi Portugal por ser organizado, ter um custo de vida accessível (remédios e comida) e onde pesquisas estão em pleno andamento e serão bastante úteis aos cidadãos.

 

Família, o que representa para você?

 

A Família é o centro da Sociedade. Isso vem desde o tempo da Grécia antiga e depois no auge do Imperio Romano. Sem Família haveria o caos. Portanto, a Família é para mim muito importante e para a qual devemos construir um mundo melhor.

 

 

Fale dos projetos para o futuro.

 

Em se considerando a minha idade, conseguir uma melhor saúde para a realização de mais alguns projetos em termos de Literatura como sejam: (i) terminar de escrever mais livros de fundo histórico (o meu melhor dom), (ii) publicar , pelo menos, 2 livros de meus poemas (Meus Sentires e Poemas à Natureza) (iii)r publicar dois livros técnicos já escritos e inicialmente digitados mas, ainda com revisão a ser feita. São livros relacionados às águas naturais (doces e salinas) cujo entendimento se faz necessário devido á crescente escassez dela que se verifica em várias partes do mundo. As poesias irão me acompanhar até o fim de meus dias.

 

 

POEMAS

 

TRISTE ILUSÃO

Um beijo casual,

leve, solto, dado de forma banal.

Uma lágrima furtiva,

de modo cruel sentida,

teima em cair de meu rosto,

abarcando de vez em quando,

esse irrequieto coração!

Chorei, gritei até que a batida

de um coração bravo e indomável

consiga lentamente se controlar.

Meu tortuoso e confuso mundo,

onde a paixão intensa pela vida

consegue sobrepujar a dor da ilusão!

Esse meu novo sentir é profundo,

Está sempre explicitamente exposto

nas lágrimas que descem sem parar.

Não há medida incomensurável

para  o “sentir” de alma solitária.

Encontro nas lembranças guardadas,

sonhos lindos do tempo passado,

que me deixam sempre nesse estado,

à espera de novos sonhos acalentar!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

SER POETA

As vezes me perguntam a sorrir,
como se estivessem a zombar de mim:
Cansa ser poeta? Tem que escrever tanto todo dia!
Respondo euforica sem me deixar irritar:
Ser poeta é saber se doar,
É saber descrever o que de mais íntimo há
no âmago de uma alma, a poesia
É desnudar sentimento,
É trazer um novo alento,
àqueles que estão a sofrer!
Ser Poeta é também saber ler,
o que se passa no pensamento
de uma alma conturbada
onde o tudo ou mesmo o nada
tem algum significado.
É saber exaltar sem exagerar
uma bela mulher ou um sentimento
um doce bem querer e, às vezes, um tormento.
Ser poeta não é chorar e nem descrer
É saber, crer e poder desenvolver
uma leitura maviosa que permite relaxar
que chama a atenção
de um pobre e aflito solitário coração!

 

 

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