DEZ POEMAS DO POETA EVAN DO CARMO 

EVAN DO CARMO

SOMOS POETAS

Estamos destinados à tragédia
a vida simples e comum
dos homens não nos alimenta,
queremos mais que o absurdo
dos amores correspondidos.

Queremos a fatalidade e o imprevisto
a morte no drama do gozo proibido
somos poetas, pintores, artistas
de toda sorte, contamos sempre
com o azar em forma de destino.

Queremos a vida nas cinzas da Fênix
queremos o calvário do Cristo
e a cicuta de Sócrates
queremos as asas frágeis de Ícaro..

Somos a flor murcha da beira da estrada
que o amante não conseguiu ofertar
à namorada da infância.

Somos o medo vestido de Aquiles
somos a fuga e a desesperança
somos o verbo na língua de Deus
e o barro nas mãos do homem.

MINHA PRESUNÇÃO

Na poesia, e na escrita,
se acaso eu tivesse uma meta,
uma ambição insana
não seria superar Homero
nem Shakespeare
nem Cervantes
são mitos e lendas
e há sempre uma dúvida
quanto a se existiram de fato.

Contudo há um espírito
um poeta maior que Dante
que não se alcança facilmente
o seu eco de loucura fascinante
nem em sonho ou em delírios
um poeta que é a soma de todos estes.

Eu se fosse poeta
ou então um louco
em meus devaneios
só almejaria uma coisa
escrever como um tal Fernando
um esquizofrênico consciente
que em meio a tanta solidão
se superou e deu vida a muita gente.

DÁ-ME POESIA

Dá-me mais ilusão, pois a ilusão existe
entre tantos sonhos e quimeras
eu quero a sombra das coisas tristes

Dá-me mais tolerância, pois a união existe,
entre o ódio e o amor,
vivem a paz e a esperança…

Dá-me mais fé, pois o mito existe
ele é tudo sendo nada, um deus
que permite sonhar e alcançar o impossível.

Dá-me mais poesia, pois a fantasia é tudo.
e o mundo é nada.

ENIGMA LÍRICO

Em seu sorriso melancólico,
vi um fatalismo tácito
seguido de um silêncio morno
incompreensível

Subitamente
revelou-se o crepúsculo de um mito,
o fim da ilusão dolorosa…

A ressaca dionisíaca de um festejo
carnal, onde quase virou apoteose
de um carnaval em Veneza…

Encenamos um ato da tragédia goethiana
a morte do sonho mascarado
que fez do mendigo de Fausto
um Rei Lear, em seu apogeu
glorioso de terna insanidade e lucidez
antes da traição lírica da musa
ao poeta da divina comédia
do amor platônico.

Todo verdadeiro poeta é cético
contudo, levam a vida a falar
de metafisica, de almas
e de coisas semelhantes
são sobremodo adoradores
da beleza e do amor

DESESPERO E DESESPERANÇA

O mundo se encontra
em desespero
não há expectativa de coisas boas
para o futuro…

Caiu um muro em Berlim
mesmo assim as divisões persistem
as guerras santas e ideológicas
o terror e o sectarismo
segam a justiça, privam os homens
dos direitos mais elementares
o homem profana a sua origem e divindade
apodrece o planeta e mata a esperança
dos filhos do presente…

Não podemos esperar o apocalipse
para recomeçar uma nova experiência
as crianças clamam por uma chance
para fazer um mundo melhor
mas a base da humanidade se desmorona
a cada gesto de covardia do homem atual
a cada crime cometido por ganância
dos pais da desesperança
que semeiam medo e desconfiança
no coração dos filhos do futuro.

O mundo se encontra
em desespero
não há expectativa de coisas boas
para o futuro…

As mulheres não dão mais a luz
não acreditam mais no amor
no amor dos seus amantes
perderam a razão e a fé
em Deus e nos homens.

FICOU NO PASSADO

Em algum lugar do passado
você ficou,
ou foi o contrário,
fiquei eu,
diante do abismo do não,
talvez ficamos ambos
invisíveis naquela foto
que não tiramos juntos
naquele abraço interrompido
pelo receio da consequência
naquela dança ensaiada
na caminhada à noite
sob à lua de setembro
nas pedras centenárias
da cidade morta
naquele beijo irreprimível
Em algum lugar do passado
preferimos o silêncio
o acaso escolheu a inércia do corpo
e o calafrio das mãos
o quase sim da alma em desespero,
preferimos a calma e o conforto
a covardia racional
fugimos do mundo de Dante
restou a prosa proustiana
sem ciúmes, sem vida,
sem morte, sem poesia.

MORAL NIETZSCHIANA.

Nietzsche, quando ensina
que o que é bom é forte
e que o que é mau é fraco,
e que o que é fraco deve morrer
para que algo melhor e forte
nasça em seu lugar
não tinha ele muito claro o que queria dizer.

Pobre Nietzsche,
tinha tanta admiração
pelo carpinteiro judeu
que ensinou a mesma coisa
com tentativas vãs,
pregou o desprezo
pelo homem comum
quando na verdade pregava
a mesma moral cristã.

ESCRAVO DA LIBERDADE

Não sou,
nem nunca serei
escravo de ideologia
nem escravo do amor
nem da alegria…
Sou livre
assim penso e vivo
tenho um coração calmo,
ativo com muitos defeitos
um coração que ama
que ri, que chora e sangra.
Escravo do riso eu seria,
se não soubesse
como tolos são os que riem à toa
contudo, no meu universo
não há espaço para distração
de natureza humana.
Há contradição no meu discurso
e confusão no curso da minha epígrafe
enquanto escrevo e penso
outra ideia surge, no subterrâneo
onde o meu inconsciente
trava luta com minha lucidez
superficial.
Sou escravo de mim mesmo
dos meus servos-heterônimos
que conscientemente me guiam
quando eu divago sobre as suas teses
e admito que na obscuridade,
na verdade, são todas minhas

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