PEDRO PÁRAMO-O LIVRO, LIVRE PARA LEITURA…

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UMA OBRA INCOMPARÁVEL

VIM A COMALA porque me disseram que aqui vivia meu pai, um tal de Pedro Páramo.

Minha mãe me disse. E eu prometi que viria vê-lo assim que ela morresse. Apertei suas mãos em sinal de que faria isso; pois ela estava morrendo, e eu decidido a prometer tudo. “Não deixe de ir visitá-lo”, recomendou ela. “O nome dele é assim e assado. Tenho certeza que ele vai gostar de conhecer você.” Então não tive outro jeito a não ser dizer a ela que faria isso, e de tanto dizer continuei dizendo mesmo depois que minhas mãos tiveram trabalho para se safarem de suas mãos mortas.

Antes ainda, ela tinha me dito:

— Não peça nada a ele. Exige o que é nosso. O que ele tinha de ter me dado e não me deu nunca… O esquecimento em que nos deixou, filho, você deve cobrar caro.

— Vou fazer isso, mãe.

Mas não pensei em cumprir minha promessa. Até que agora comecei a me encher de sonhos e a soltar as ilusões. E assim foi se formando em mim um mundo ao redor da esperança que era aquele senhor chamado Pedro Páramo, o marido da minha mãe. Por isso vim a Comala.

AQUELE ERA O TEMPO da canícula, quando o ar de agosto sopra quente, envenenado pelo odor apodrecido das flores do sabão-de-macaco.

O caminho subia e descia: “Sobe ou desce conforme se vai ou se vem. Para quem vai, sobe; para quem vem, desce.

— Como é que o senhor disse que se chama o povoado que se vê lá embaixo?

— Comala, senhor.

— Tem certeza que é Comala?

— Tenho sim, senhor.

— E por que parece tão triste?

— São os tempos, senhor.

Eu imaginava ver aquilo através das recordações da minha mãe; da sua nostalgia, entre fiapos de suspiros. Ela viveu sempre suspirando por Comala, pelo regresso; mas jamais voltou. Agora, venho eu em seu lugar. Trago os olhos com que ela viu estas coisas, porque me deu seus olhos para ver: “Existe, passando o desfiladeiro dos Colimotes, a vista muito bela de uma planície verde, um pouco amarelada por causa do milho maduro. Desse lugar a gente vê Comala, branqueando a terra, iluminando a terra durante a noite.” E sua voz era secreta, quase apagada, como se falasse sozinha… Minha mãe.

— E o que traz o senhor a Comala, se é que se pode saber? — ouvi que me perguntava.

— Vou ver meu pai — respondi.

— Ah! — disse ele.

E voltamos ao silêncio.

Caminhávamos ladeira abaixo, ouvindo o trote ecoado dos burros. Os olhos arrebentados pelo torpor do sono, no forte calor de agosto.

— Decerto vai ter festança — tornei a ouvir a voz do que ia ali, ao meu lado. — Vai ficar contente de ver alguém depois de tantos anos sem aparecer ninguém por aqui.

E acrescentou:

— Seja o senhor quem for, ele vai ficar alegre de vê-lo.

Na reverberação do sol, a planície parecia uma lagoa transparente, desfeita em vapores por onde se transluzia um horizonte acinzentado. E mais além, uma linha de montanhas. E mais além ainda, a mais remota lonjura.

— E como é o seu pai, se é que se pode saber?

— Não o conheço — respondi. — Só sei que se chama Pedro Páramo.

— Ora, veja!

— Pois é, me disseram que é esse o nome dele.

Ouvi de novo um “Ah!” do tropeiro.

Eu havia topado com ele em Los Encuentros, onde se cruzavam vários caminhos. Fiquei ali esperando, até que finalmente aquele homem apareceu.

— Para onde o senhor está indo? — perguntei a ele.

— Vou descendo, senhor.

— Conhece um lugar chamado Comala?

— Pois é para onde estou indo.

E eu o segui. Fui atrás dele tratando de me emparelhar com seu passo, até que pareceu perceber que eu o seguia e diminuiu a pressa de seu andar. Depois nós dois íamos tão próximos que nossos ombros quase se tocavam.

— Eu também sou filho de Pedro Páramo — ele me disse.

Uma revoada de corvos passou, cruzando o céu vazio, fazendo “cuar, cuar, cuar”.

Depois de varar os montes, descemos cada vez mais. Havíamos deixado o ar quente lá de cima e fomos nos afundando no puro calor sem ar. Tudo parecia estar à espera de alguma coisa.

— Faz calor aqui — eu disse.

— Pois é, mas isso não é nada — respondeu o outro. — Fique tranquilo. Quando chegarmos a Comala, o senhor vai ver o que é calor forte. Aquilo fica em cima das brasas da terra, bem na boca do inferno. Digo eu que muitos dos que morrem por lá, quando chegam ao inferno voltam para buscar um cobertor.

— O senhor conhece Pedro Páramo? — perguntei.

Eu me atrevi a perguntar porque vi nos olhos dele uma gota de confiança.

— Quem é ele? — tornei a perguntar.

— O rancor em pessoa — respondeu ele.

E deu uma chibatada nos burros, sem necessidade, pois os burros iam muito na nossa frente, encarreirados por causa da descida.

Senti o retrato de minha mãe guardado no bolso da camisa, esquentando meu coração, como se ela também suasse. Era um retrato velho, carcomido nas beiradas; mas foi o único que conheci. Eu havia encontrado o retrato no armário da cozinha, dentro de uma caçarola cheia de ervas: folhas de capim-limão, flores de Castela, ramos de arruda. Desde então guardei o retrato. Minha mãe sempre foi inimiga de deixar-se fotografar. Dizia que os retratos eram coisa de bruxaria. E pareciam ser; porque o dela estava cheio de furos como de agulha, e na direção do coração tinha um bem grande onde podia muito bem caber o dedo médio.

É esse mesmo retrato que trago aqui, achando que poderia ajudar meu pai a me reconhecer.

— Veja bem, senhor — me diz o tropeiro, detendo-se. — Está vendo aquele morro que parece bexiga de porco? Pois justo atrás dele fica a Media Luna. Agora, vire para lá. Vê o topo daquele morro? Pois veja. E agora vire para este outro rumo. Vê aquele outro topo que quase não dá para ver de tão longe? Bem, pois isso é a Media Luna de cabo a rabo. Como se diz por aí, toda terra que dá para percorrer com o olhar. E esse terrenão todo é dele. A verdade é que nossas mães nos malpariram numa esteira, apesar de sermos filhos de Pedro Páramo. E o mais engraçado é que ele nos levou para batizar. Com o senhor deve ter acontecido a mesma coisa, não é?

— Eu não me lembro.

— Pois então vai para o caralho!

— O que foi que o senhor disse?

— Que já estamos chegando, senhor.

— Pois é, estou vendo. O que foi que aconteceu?

— Um corre-caminhos, senhor. É assim que chamam esses pássaros.

— Não, eu perguntava o que foi que aconteceu com o povoado, que parece tão solitário, como se estivesse abandonado. Parece que ninguém mora nele.

— Não é que pareça. É que é. Aqui não mora ninguém.

— E Pedro Páramo?

— Pedro Páramo morreu faz muitos anos.

ERA A HORA em que as crianças de todos os povoados brincam nas ruas, enchendo a tarde com seus gritos. Quando até mesmo as paredes negras refletem a luz amarela do sol.

Pelo menos foi o que eu havia visto em Sayula, ontem mesmo, a esta mesma hora. E vira também o voo das pombas rompendo o ar quieto, sacudindo suas asas como se se soltassem do dia. Voavam ou caíam sobre os telhados, enquanto os gritos das crianças revoavam e pareciam tingir-se de azul no céu do entardecer.

Agora eu estava aqui, nesta vila sem ruídos. Ouvia meus passos caírem sobre as pedras redondas que empedravam as ruas. Meus passos ocos, repetindo seu som no eco das paredes tingidas pelo sol do entardecer.

Naquela hora, fui andando pela rua principal. Olhei as casas vazias; as portas cambaias, invadidas pela erva. Como foi mesmo que aquele fulano me disse que essa erva se chamava? “A capitânia, senhor. Uma praga que só espera que as pessoas saiam para invadir as casas. O senhor vai ver”.

Ao passar num cruzamento vi uma senhora envolta em seu xale, e que desapareceu como se não existisse. Depois meus passos tornaram a se mover e meus olhos continuaram espiando o vazio das portas. Até que novamente a mulher de xale passou na minha frente.

— Boa noite! — ela me disse.

Segui-a com o olhar. Gritei:

— Onde mora a dona Eduviges?

E ela apontou com o dedo:

— Lá. Na casa que fica ao lado da ponte.

Notei que sua voz estava feita de fiapos humanos, que sua boca tinha dentes e uma língua que se travava e destravava ao falar, e que seus olhos eram como todos os olhos das pessoas que vivem sobre a terra.

Havia escurecido.

Tornou a me dar boa-noite. E embora não houvesse crianças brincando, nem pombas, nem telhados azuis, senti que o povoado vivia. E que se eu escutava somente o silêncio era porque ainda não estava acostumado ao silêncio; talvez porque minha cabeça viesse cheia de ruídos e de vozes.

De vozes, sim. E aqui, onde o ar era escasso, ouviam-se melhor essas vozes. Ficavam dentro da gente, pesadas. Recordei o que minha mãe me dissera: “Lá, você me ouvirá melhor. Estarei mais perto de você. Você irá sentir mais perto a voz de minhas lembranças do que a da minha morte, se é que algum dia a morte teve alguma voz.” Minha mãe… a viva.

Queria ter dito a ela: “Você enganou-se de endereço. E me deu um endereço errado. E me mandou ao ‘onde fica isto, onde fica aquilo?’ A um povoado solitário. Procurando alguém que não existe.”

Cheguei à casa da ponte orientando-me pelo barulho do rio. Bati na porta. Mas em falso. Minha mão sacudiu-se no ar como se o ar tivesse aberto a porta. Uma mulher estava lá. Ela me disse:

— Entre, senhor. E entrei.

EU TINHA FICADO em Comala. O tropeiro, que seguiu em frente, ainda antes de se despedir, me informou:

— Eu vou adiante, lá onde se vê o encontro dos montes. Lá fica a minha casa. Se o senhor quiser vir, será bem-vindo. Agora, se quiser ficar aqui, que assim seja; mas até que não seria demais dar uma olhada no povoado, vai ver o senhor encontra algum ser vivente.

E fiquei. Vim para isso.

— Onde poderei encontrar alojamento? — perguntei quase que aos gritos.

— Procure a dona Eduviges, se é que ela ainda está viva. Diga a ela que eu recomendei.

— E como é que o senhor se chama?

— Abundio — respondeu. Mas não consegui ouvir o sobrenome.

— SOU EDUVIGES Dyada. Entre, senhor.

Era como se estivesse à minha espera. Tinha tudo pronto, pelo que me disse, fazendo que eu a seguisse por uma longa série de quartos escuros, que pareciam desolados. Mas não; porque assim que me acostumei ao escuro e ao delgado fio de luz que nos seguia, vi crescerem sombras em ambos os lados e senti que íamos caminhando através de um corredor estreito aberto entre vultos.

— O que é que tem aqui? — perguntei.

— Trastes velhos — me disse ela. — Estou com a casa toda entrastada. Fui escolhida para guardar os móveis dos que foram embora, e ninguém regressou atrás deles. Mas o quarto que reservei para o senhor fica nos fundos. Deixo esse quarto sempre vazio, para o caso de chegar alguém. E quer dizer então que o senhor é filho dela?

— Ela quem?

— Doloritas.

— Sou, mas como é que a senhora sabe?

— Ela me avisou que o senhor viria. E justamente hoje. Que chegaria hoje.

— Quem avisou? Minha mãe?

— Sim. Ela.

E eu não soube o que pensar. Nem ela me deixou pensar:

— Este aqui é o seu quarto.

Não tinha portas, somente aquela pela qual havíamos entrado. Ela acendeu a vela e eu vi o vazio.

— Aqui não tem onde deitar.

— Não se preocupe com isso. O senhor deve estar cansado e o sono é um colchão muito bom para o cansaço. Amanhã eu arrumo a sua cama. Como o senhor sabe, não é fácil ajeitar tudo num dois-por-três. Para isso é preciso andar prevenido, e sua mãe só me avisou agora.

— Minha mãe — eu disse –, minha mãe já morreu.

— Com razão a voz dela estava tão fraca, como se tivesse precisado atravessar uma distância muito grande até chegar aqui. Agora eu entendo. E morreu faz quanto tempo?

— Já faz sete dias.

— Coitada dela. Deve ter-se sentido abandonada. Fizemos a promessa de morrer juntas. De irmos embora nós duas, para dar ânimo uma à outra durante a viagem, se fosse preciso, se por acaso encontrássemos alguma dificuldade. Éramos muito amigas. Ela nunca falou de mim para o senhor?

— Não, nunca.

— Acho estranho. Claro que naquela época éramos menininhas. E ela era recém-casada. Mas nós duas gostávamos muito uma da outra. Sua mãe era tão bonita, tão, digamos, tão doce, que dava gosto gostar dela. Dava vontade de gostar dela. Quer dizer então que ela foi-se embora na frente, não é mesmo? Mas tenha certeza de que vou alcançá-la. Só eu entendo como o céu está longe de nós; mas sei como encurtar as veredas. Tudo consiste em morrer, graças a Deus, quando a gente quiser e não quando Ele dispuser. Ou, se você preferir, forçá-lo a querer antes da hora. Perdoe chamar o senhor de você; se faço isso é porque o considero como filho. Sim, muitas vezes eu disse; “O filho de Dolores deveria ter sido meu.” Depois eu conto por quê. A única coisa que quero dizer agora é que alcançarei sua mãe em algum dos caminhos da eternidade.

Eu achava que aquela mulher estava louca. Depois não achei mais nada. Eu me senti num mundo distante e deixei-me arrastar. Meu corpo, que parecia afrouxar-se, dobrava-se diante de tudo, havia soltado suas amarras e qualquer um podia brincar com ele como se fosse de trapo.

— Estou cansado — disse a ela.

— Antes venha comer alguma coisa. Uma coisinha. Qualquer coisa. — Vou. Depois vou.

A ÁGUA QUE GOTEJAVA das telhas fazia um buraco na areia do quintal. Soava: plás plás e depois outra vez plás, na metade de uma folha de louro que dava voltas e revoltas metida na fenda dos tijolos. A tormenta tinha ido embora. Agora, de vez em quando a brisa sacudia os ramos do pé de romã fazendo jorrar uma chuva espessa, estampando a terra com gotas brilhantes que logo se embaçavam. As galinhas, encolhidas como se dormissem, sacudiam de repente suas asas e saíam ao pátio, bicando depressa, agarrando minhocas desenterradas pela chuva. Quando as nuvens corriam, o sol arrancava luz das pedras, coloria tudo de um arco-íris de cores, bebia a água da terra, brincava com a brisa dando brilho às folhas com as quais a brisa brincava.

— Que tanto você faz aí no banheiro, rapazinho?

— Nada não, mãe.

— Se você continuar aí vai aparecer uma cobra e vai picar você.

— Está bem, mãe.

“Pensava em você, Susana. Nas colinas verdes. Quando soltávamos pipas na época do vento. Ouvíamos lá embaixo o rumor vivo do povoado enquanto estávamos acima dele, no alto da colina, conforme ia embora o fio de cânhamo arrastado pelo vento. ‘Ajuda aqui, Susana.’ E mãos suaves apertavam-se em nossas mãos. ‘Solta mais linha.’

“O vento nos fazia rir; juntava o olhar de nossos olhos, enquanto a linha corria entre nossos dedos atrás do vento, até se romper com um leve rangido como se tivesse sido cortada pelas asas de algum pássaro. E lá no alto o pássaro de papel caía em cambalhotas arrastando sua cauda de trapos, perdendo-se no verdor da terra.

“Seus lábios estavam molhados como se tivessem sido beijados pelo orvalho.” — Já falei para você sair do banheiro, rapazinho.

— Sim, mamãe. Já vou.

“De você, eu me lembrava. Quando você estava ali me olhando com seus olhos de águamarinha.”

Ergueu a vista e olhou sua mãe na porta.

— Por que você demora tanto a sair? O que está fazendo aí?

— Estou pensando.

— E não dá para fazer isso em outro lugar? Faz mal ficar tanto tempo no banheiro. Além do mais, você devia ter alguma ocupação. Por que não vai ajudar sua avó a debulhar milho? — Já vou, mamãe. Já vou.

— VÓ, VIM AJUDAR a debulhar.

— Já acabamos. Mas vamos fazer chocolate. Onde é que você se meteu? O tempo inteiro que durou a tormenta ficamos procurando você.

— Eu estava no quintal de lá.

— E fazendo o quê? Rezando?

— Não, vó, eu só estava vendo chover.

A avó olhou para ele com aqueles seus olhos meio acinzentados, meio amarelados, que pareciam adivinhar o que havia dentro da gente.

— Pois então vai lá limpar o moinho.

“A centenas de metros, acima de todas as nuvens, além, muito além de tudo, você está escondida, Susana. Escondida na imensidão de Deus, atrás de sua Divina Providência, onde não consigo alcançar você nem ver você e onde minhas palavras não chegam.” — Vó, o moinho está quebrado, a moenda quebrou.

— Essa Micaela deve ter moído milho com espiga e tudo. Ela não perde essa mania horrorosa; mas, enfim, se não tem mais remédio…

— E por que a gente não compra outro? Esse aí nem servia mais, de tão velho.

— Você tem razão. Só que com os gastos que tivemos para enterrar seu avô, mais dízimos que pagamos para a Igreja, ficamos sem nenhum centavo. E ainda assim, haveremos de fazer um sacrifício, e compraremos outro. Seria bom você ir até a dona Inés Villalpando pedir que nos deixasse fiado até outubro. A gente paga com a colheita.

— Está bem, vó.

— E aproveita para fazer o mandado completo, e peça a ela que nos empreste uma peneira e uma podadeira; do jeito que as plantas cresceram, já, já se metem em tudo. Se eu tivesse minha casa grande, com aqueles currais grandes, não estaria me queixando. Mas seu avô empacou nessa ideia de virmos para cá. Que seja tudo por Deus: as coisas nunca saem do jeito que a gente quer. Diga a dona Inés que na colheita a gente paga tudo que deve.

— Está bem, vó.

Havia colibris. Era o tempo. Dava para ouvir o zumbido de suas asas entre o jasmineiro que estava carregado de flores.

Deu uma volta pela prateleirinha feito altar do Sagrado Coração e encontrou 24 centavos. Deixou os 4 e pegou os 20.

Antes de sair, sua mãe o deteve:

— Aonde é que você vai?

— Até a dona Inés Villalpando ver um moinho novo. O que a gente tinha quebrou.

— Diga a ela que mande um metro de tafetá preto, igual a este aqui — e deu uma amostra a ele. — Que ponha na nossa conta.

— Está bem, mamãe.

— E na volta me compre umas aspirinas. No vaso do corredor você vai encontrar dinheiro.

Encontrou um peso. Deixou os 20 centavos e apanhou o peso.

“Agora, vai sobrar dinheiro para o que eu quiser”, pensou.

— Pedro! – gritou alguém. – Pedro!

Mas ele não ouviu. Estava muito longe.

DE NOITE, tornou a chover. Ficou ouvindo o borbotar da água durante muito tempo; deve ter dormido em seguida, porque quando despertou só se ouvia um chuviscar calado. Os vidros das janelas estavam opacos, e do outro lado as gotas deslizavam em fios grossos como lágrimas. “Olhava as gotas caindo, iluminadas pelos relâmpagos, e cada vez que respirava, suspirava, e cada vez que pensava, pensava em você, Susana.”

A chuva se transformava em brisa. Ouviu: “O perdão dos pecados e a ressurreição da carne. Amém.” Isso era aqui dentro, onde umas mulheres rezavam o final do rosário.

Levantavam-se; prendiam os pássaros; trancavam a porta; apagavam a luz.

Só restava a luz da noite, o ciciar da chuva como um murmúrio de grilos…

— Por que você não foi rezar o rosário? Estamos na novena do seu avô.

Lá estava sua mãe no umbral da porta, com uma vela na mão. Sua sombra escorrida rumo ao teto, longa, estendida. E as vigas do teto a devolviam aos pedaços, despedaçada.

— Estou triste — disse.

Então ela se virou. Apagou a chama da vela. Fechou a porta e abriu seus soluços, que continuaram sendo ouvidos confundidos com a chuva.

O relógio da igreja badalou as horas, uma atrás da outra, uma atrás da outra, como se o tempo tivesse encolhido.

– POIS SIM, eu quase fui sua mãe. Ela nunca falou nada sobre isso com você?

— Não. Só me contava coisas boas. Da senhora eu só vim saber pelo tropeiro que me trouxe até aqui, um tal de Abundio.

— O bondoso Abundio. Quer dizer que ele ainda se lembra de mim? Eu costumava dar gorjetas a ele por cada hóspede que mandasse para a minha casa. E nós dois íamos bem nesse negócio. Agora, infelizmente, os tempos mudaram, pois desde que isto aqui empobreceu ninguém mais se comunica com a gente. Quer dizer então que ele recomendou a você que viesse me ver?

— Disse que a procurasse.

— Só posso agradecer. Foi um bom homem, e cumpridor. Era quem nos trazia o correio, e continuou trazendo mesmo depois de ter ficado surdo. Lembro-me do desventurado dia em que aconteceu essa desgraça com ele. Todos nós ficamos comovidos, porque gostávamos dele. Levava e trazia cartas para nós. Contava como andavam as coisas do lado de lá do mundo, e na certa contava a eles como é que nós estávamos. Era um grande conversador. Depois, não. Parou de falar. Dizia que não tinha sentido desandar a dizer coisas que ele não ouvia, que não tinham para ele som algum, palavras sem nenhum sabor. Tudo aconteceu por causa de um desses foguetões que a gente usa aqui para espantar as trombas d’água, e que estourou muito perto da cabeça dele. A partir de então emudeceu, embora não fosse mudo; mas, isso sim, continuou sendo uma pessoa boa.

— Mas esse de quem estou falando ouvia muito bem.

— Não deve ser ele. Além do mais, Abundio já morreu. Deve ter morrido, com certeza. Você entende? Quer dizer, não pode ser ele.

— Pois estou de acordo com a senhora.

— Então, muito bem: voltando à sua mãe, eu ia dizendo…

Sem deixar de ouvi-la, fiquei olhando a mulher que estava à minha frente. Pensei que devia ter passado por anos difíceis. Sua cara se transparentava como se não tivesse sangue, e suas mãos estavam murchas; murchas e cheias de rugas. Não se viam seus olhos. Usava um vestido branco muito antigo, cheio de babados, e da gola, atada num cordão, pendia uma Maria Santíssima do Refúgio com um letreiro que dizia: “Refúgio de pecadores”.

— … Esse fulano de quem estou falando trabalhava como “amansador” na Media Luna; dizia que seu nome era Inocencio Osorio. Mas todos o conheciam pelo mau nome de Busca-pé porque ele era muito leve e ágil para os saltos. Meu compadre Pedro dizia que ele era como se tivesse sido mandado fazer para amansar cavalos; mas a verdade é que tinha outro ofício: o de “provocador”. Era provocador de sonhos. Isso é o que ele era de verdade. E acabou enganando sua mãe do mesmo jeito que fazia com muitas. Entre outras, comigo. Uma vez que me senti doente, ele apareceu e me disse: “Venho tomar seu pulso para que você se alivie.” E tudo aquilo consistia em que ele se soltava apalpando a gente, primeiro nas pontas dos dedos, depois esfregando as mãos; e então os braços, e acabava se metendo pelas pernas da gente, a frio, e depois de um tempinho aquilo tudo acabava provocando um calorzinho. E, enquanto manobrava, ele falava do futuro. Entrava em transe, virava e revirava os olhos, invocando e amaldiçoando; enchia a gente de cuspidelas, do jeito que os ciganos fazem. Às vezes ficava pelado porque dizia que era esse o nosso desejo. E às vezes chegava lá; picava por tantos lados que acabava acertando.

“O fato é que o tal de Osorio prognosticou para a sua mãe, quando ela foi vê-lo, que ‘hoje à noite você não deve grudar em homem porque a lua está brava’.

“Dolores foi me dizer toda aflita que não podia. Que naquela noite era simplesmente impossível para ela se deitar com Pedro Páramo. Era sua noite de núpcias. E olhe só para mim, tentando convencê-la a não acreditar no Osorio, que além do mais era um trapaceiro enganador.

“— Não posso — ela me disse. — Vai você no meu lugar. Ele não vai perceber.

Claro que eu era muito mais jovem do que ela. E um pouco menos morena; mas isso ninguém nota no escuro.

“— Não dá, Dolores, você é que tem de ir.

“— Faz esse favor para mim. Eu pago com outros favores.

“Naquele tempo, sua mãe era uma mocinha de olhos humildes. Se ela tinha alguma coisa de bonito, eram os olhos. E sabiam convencer.

“— Vai no meu lugar — ela me dizia. “E fui.

“Eu me vali da escuridão e de outra coisa que ela não sabia: eu também gostava de Pedro Páramo.

“E me deitei com ele com gosto, com vontade. Eu me atraquei no seu corpo; mas a festança do dia anterior tinha deixado ele rendido, e passou a noite roncando. Tudo que fez foi enroscar suas pernas entre as minhas pernas.

“Antes do amanhecer me levantei e fui ver Dolores. Disse a ela:

“— Agora, vai você. Agora já é outro dia.

“— O que ele fez com você? — me perguntou.

“— Ainda não sei — respondi.

“No ano seguinte você nasceu; mas não de mim, embora tenha sido por pouco.

“Vai ver sua mãe não contou isso de vergonha.

… Planícies verdes. Ver subir e descer o horizonte com o vento que move as espigas, o ondear da tarde com uma chuva de ondas triplas. A cor da terra, o cheiro da alfafa e do pão. Uma cidade que cheira a mel derramado…

Ela sempre odiou Pedro Páramo. ‘Doloresinha! Você já mandou preparar o meu café da manhã?’ E sua mãe se levantava antes do amanhecer. Acendia o fogo. Os gatos acordavam com o cheiro do lume. E ela ia daqui para lá, seguida pela vigilância do batalhão de gatos. ‘Dona

Doloresinha!’

“Quantas vezes sua mãe terá ouvido esse chamado? ‘Dona Doloresinha, isto aqui está frio. Não presta.’ Quantas vezes? E embora ela estivesse acostumada a passar pelo pior, seus olhos humildes se endureceram.

… Não sentir outro sabor que não o dos botões das laranjeiras na mornidão do tempo.

Então começou a suspirar.

“— Por que a senhora está suspirando, dona Doloresinha?

“Eu os havia acompanhado naquela tarde. Estávamos no meio do campo, olhando passar as revoadas de tordos. Um urubu solitário se meteu no céu.

“— Por que a senhora está suspirando, dona Doloresinha?

“— Eu queria ser um urubu para voar até onde minha irmã mora.

“— Nem precisa, dona Doloresinha. Agorinha mesmo a senhora vai ver sua irmã. Vamos regressar. Que alguém prepare suas malas. Não por isso.

“E lá se foi sua mãe:

“— Até logo, dom Pedro.

“— Adeus, Doloresinha.

“E ela foi-se embora da Media Luna para sempre. Muitos meses depois perguntei por ela a Pedro Páramo.

“— Ela gostava mais da irmã do que de mim. Lá, deve estar contente. Além disso, eu já estava enjoado dela. Não penso em sair atrás de Dolores, se é que isso preocupa você. “— Mas do que elas vão viver?

“— Deus cuidará.

… O abandono em que nos deixou, filho, você deve cobrar caro.

“E desde então e até agora, quando me avisou que você iria chegar, não tornamos a saber mais nada dela.”

— E depois disso já aconteceu tanta coisa — eu disse. — Vivíamos em Colima arrimados na tia Gertrudis que jogava na nossa cara o peso que éramos. “Por que você não volta para o seu marido?”, dizia ela à minha mãe.

“— Ele por acaso mandou me buscar? Não vou enquanto ele não me chamar. Vim porque queria ver você. Porque gostava de você, por isso eu vim.

“— Compreendo. Mas já está na hora de ir embora.

“— Se dependesse de mim.”

Achei que aquela mulher estava me ouvindo, mas notei que tinha a cabeça inclinada, como se escutasse algum rumor longínquo. Depois, ela disse: — Quando é que você vai descansar?

“NO DIA EM QUE você foi embora, entendi que não tornaria a vê-la. Você ia tingida de vermelho pelo sol da tarde, pelo crepúsculo ensanguentado do céu. Você sorria. Deixava para trás um povoado do qual muitas vezes você mesma me disse: ‘Gosto daqui por sua causa; mas odeio isso aqui por causa de todo o resto, até por ter nascido aqui.’ Pensei: ‘Não regressará jamais; não voltará nunca.’

— O que você está fazendo aqui a esta hora? Você não está trabalhando?

— Não, vó. Rogelio quer que eu cuide do menino dele. Fico passeando com ele. Dá trabalho cuidar das duas coisas: o menino e o telégrafo, enquanto ele vive tomando cerveja no bilhar. Além do mais, não me paga nada.

— Você não está aí para ganhar dinheiro, mas para aprender; quando souber alguma coisa, então vai poder ser exigente. Por enquanto, você é apenas um aprendiz; talvez amanhã ou depois você vire chefe. Mas para isso é preciso paciência e, acima de tudo, humildade. Se pedem para você cuidar da criança, faça isso, pelo amor de Deus. É preciso se resignar.

— Pois que se resignem os outros, vó; eu não sou de resignações.

— Você e as suas esquisitices! Sinto que você vai se dar mal, Pedro Páramo.

— O QUE ESTÁ ACONTECENDO, dona Eduviges?

Ela balançou a cabeça como se despertasse de um sonho.

— É o cavalo de Miguel Páramo, galopando pelo caminho da Media Luna.

— Mas então, alguém mora em Media Luna?

— Não, lá não mora ninguém.

— E então?

— É só o cavalo, que vai e que vem. Eles eram inseparáveis. Corre por tudo que é canto, procurando por ele e volta sempre a esta hora. Talvez o coitado não aguente o remorso.

Porque até os animais sabem quando cometem um crime, não é?

— Não entendo. Nem ouvi nenhum ruído de nenhum cavalo.

— Não?

— Não.

— Então é coisa do meu sexto sentido. Um dom que Deus me deu; ou talvez uma maldição. Só eu sei o que sofri por causa disso.

Guardou um longo silêncio e depois acrescentou:

— Tudo começou com Miguel Páramo. Só eu soube o que tinha acontecido com ele na noite em que morreu. Estava deitada quando ouvi seu cavalo regressar rumo à Media Luna. Achei estranho porque ele nunca voltava naquela hora. Somente na entrada da madrugada. Ia conversar com sua noiva num povoado chamado Contla, um tanto longe daqui. Saía cedo e demorava a voltar. Mas naquela noite não regressou… Está ouvindo agora? Claro que dá para ouvir. Está de regresso.

— Não ouço nada.

— Então é coisa minha. Bem, como eu estava dizendo, essa história de que ele não regressou é só um jeito de falar. O cavalo mal tinha acabado de passar, quando ouvi que batiam na minha janela. Vá saber se foi ilusão minha. Mas a verdade é que alguma coisa me obrigou a ir ver quem era. E era ele, Miguel Páramo. Não estranhei, pois houve um tempo em que passava a noite na minha casa dormindo comigo, até encontrar essa moça que sorveu seus miolos.

“— O que aconteceu? — perguntei a Miguel Páramo. — Levou um fora?

“— Não. Ela continua gostando de mim — ele me disse. – Acontece que não consegui encontrá-la. Não achei o povoado. Havia muita neblina ou fumaça ou sei lá o quê; mas o que sei é que Contla não existe. Fui além dela, pelos meus cálculos, e não encontrei nada. Vim contar isso a você, porque você me compreende. Se eu contasse aos outros de Comala iam dizer que fiquei louco, do jeito que sempre disseram que sou.

“— Não. Louco não, Miguel. Você deve estar é morto. Lembre-se que disseram a você que esse cavalo ainda iria matá-lo algum dia. Lembre-se, Miguel Páramo. Pode até ser que você tenha desandado a fazer loucuras, mas isso já é uma outra história.

“— Eu só saltei a cerca de pedra que ultimamente meu pai mandou botar. Fiz o Colorado saltar para não dar esse rodeio tão longo que é preciso fazer agora para encontrar o caminho. Sei que pulei e depois continuei correndo; mas, como eu digo, não havia nada além de fumaça e fumaça e fumaça.

“– Amanhã seu pai vai se contorcer de dor — eu disse. — Sinto por ele. Agora vá embora e descanse em paz, Miguel. Agradeço você ter vindo se despedir de mim.

“E fechei a janela.

“Antes que amanhecesse o peão da Media Luna veio me dizer:

“— O patrão dom Pedro suplica. O menino Miguel morreu. Ele suplica pela sua companhia.

“— Já estou sabendo — respondi. — Pediram a você que chorasse?

“— Sim, senhora, dom Fulgor me disse que dissesse isso chorando.

“— Está bem. Diga a dom Pedro que eu vou. Faz muito tempo que trouxeram Miguel?

“— Não faz nem meia hora. Se fosse antes, talvez ele tivesse se salvado. Ainda que, conforme disse o doutor que o apalpou, ele já estivesse frio fazia tempo. Ficamos sabendo porque o Colorado voltou sozinho e ficou tão inquieto que não deixou ninguém dormir. A senhora sabe como ele e o cavalo se gostavam, e estou a ponto de achar que o cavalo sofre mais até do que dom Pedro. Não comeu nem dormiu e só faz correr para lá e para cá. Como se soubesse, a senhora sabe? Como se se sentisse despedaçado e carcomido por dentro.

“— Não se esqueça de fechar a porta quando sair.

“E o moço da Media Luna foi embora.

— Alguma vez você ouviu o queixume de um morto? — ela me perguntou.

— Não, dona Eduviges. — Melhor para você.

NA MINA D’ÁGUA as gotas caem uma atrás da outra. A gente ouve, saída da pedra, a água clara cair no cântaro. A gente ouve. Ouve rumores; pés que raspam o chão, que caminham, que vão e que vêm. As gotas continuam caindo sem parar. O cântaro transborda fazendo a água rodar sobre um solo molhado.

“Acorda!”, dizem a ele.

Reconhece o som da voz. Trata de adivinhar quem é; mas o corpo afrouxa e cai adormecido, esmagado pelo peso do sono. Umas mãos esticam a coberta agarrando-se nela, e debaixo de seu calor o corpo se esconde procurando paz.

“Acorda!”, tornam a dizer.

A voz sacode seus ombros. Faz o corpo se erguer. Entreabre os olhos. Ouvem-se as gotas de água que caem da mina d’água no cântaro raso. Ouvem-se passos que se arrastam… E o pranto.

Então ouviu o pranto. Aquilo o despertou: um pranto suave, delgado, que talvez por ser delgado tenha passado pela teia do sono, chegando ao lugar onde os sobressaltos se aninham.

Levantou-se devagar e viu a cara de uma mulher recostada contra o batente da porta, ainda escurecida pela noite, soluçando.

— Por que você chora, mamãe? — perguntou, pois assim que pôs os pés no chão reconheceu o rosto de sua mãe.

— Seu pai morreu — disse ela.

E depois, como se tivessem disparado os gatilhos de sua pena, deu volta sobre si mesma uma e outra vez, uma e outra vez, até que algumas mãos chegaram aos seus ombros e conseguiram deter o remexer de seu corpo.

Pela porta via-se o amanhecer no céu. Não havia estrelas. Só um céu de chumbo, cinzento, ainda não clareado pela luminosidade do sol. Uma luz parda, como se o dia não fosse começar, mas como se apenas estivesse chegando o princípio da noite.

Lá fora, no pátio, os passos, como de gente que ronda. Ruídos calados. E aqui, aquela mulher, de pé no umbral; seu corpo impedindo a chegada do dia; deixando aparecer, através dos seus braços, fiapos de céu, e debaixo de seus pés réstias de luz; uma luz borrifada como se o chão debaixo dela estivesse inundado de lágrimas. E depois o soluço. E outra vez o pranto suave mas agudo, e a dor fazendo seu corpo se contorcer.

— Mataram seu pai.

— E quem matou você, minha mãe?

“TEM AR E SOL, e tem nuvens. Lá em cima um céu azul e talvez atrás dele existam canções; talvez melhores vozes… Há esperança, enfim. Há esperança para nós, contra o nosso penar.

“Mas não para você, Miguel Páramo, que morreu sem perdão e não alcançará graça alguma.”

O padre Rentería deu as costas e entregou a missa ao passado. Apressou-se para terminar logo e saiu sem dar a bênção final para aquela gente que lotava a igreja.

— Padre, queremos que o abençoe para nós!

— Não! — disse ele mexendo a cabeça e negando. — Não vou fazer isso. Foi um homem ruim, e não entrará no Reino dos Céus. Deus irá me levar a mal se eu interceder por ele.

Dizia isso, enquanto tentava conter as mãos para que não mostrassem seu tremor. Mas foi.

Aquele cadáver pesava muito na alma de todos. Estava sobre um tablado, no meio da igreja, rodeado de círios novos, de flores, de um pai que estava atrás dele, sozinho, esperando que terminasse o velório.

O padre Rentería passou ao lado de Pedro Páramo procurando não roçar seus ombros. Levantou o aspersório com gestos suaves e orvalhou a água benta de alto a baixo, enquanto de sua boca saía um murmúrio que podiam ser orações. Depois se ajoelhou e todo mundo se ajoelhou com ele:

— Tem piedade do teu servo, Senhor.

— Que descanse em paz, amém — responderam as vozes.

E quando ele começava a se encher de raiva de novo, viu que todos saíam da igreja levando o cadáver de Miguel Páramo.

Pedro Páramo aproximou-se, ajoelhando-se ao seu lado:

— Eu sei que o senhor o odiava, padre. E com razão. O assassinato do seu irmão, que pelo que se rumoreja por aí foi cometido pelo meu filho; o caso da sua sobrinha Ana, que o senhor acha que foi violada por ele; as ofensas e faltas de respeito que ele às vezes teve com o senhor são motivos que qualquer um pode reconhecer. Mas esqueça isso agora, padre. Pense e perdoe como talvez Deus já tenha perdoado.

Pôs sobre o genuflexório um punhado de moedas de ouro e levantou-se:

— Receba isso como uma ajuda para a sua igreja.

A igreja já estava vazia. Na porta dois homens esperavam Pedro Páramo, que se juntou a eles, e juntos seguiram o féretro que aguardava descansando sobre os ombros de quatro caporais da Media Luna.

O padre Rentería apanhou as moedas uma por uma e se aproximou do altar.

— São tuas — disse. — Ele pode comprar a salvação. Tu saberás se o preço é este. Quanto a mim, Senhor, me ponho aos teus pés para pedir o justo ou o injusto, que tudo nos é dado pedir… Por mim, condena-o, Senhor.

E fechou o sacrário.

Entrou na sacristia, jogou-se num canto, onde chorou de pena e de tristeza até esgotar as lágrimas.

— Está bem, Senhor, tu ganhas — disse depois.

DURANTE A JANTA tomou seu chocolate como fazia todas as noites. Sentia-se tranquilo. — Escuta, Anita. Sabe quem foi enterrado hoje?

— Não, tio.

— Você se lembra de Miguel Páramo?

— Lembro, tio.

— Pois ele.

Ana baixou a cabeça.

— Tem certeza que foi ele, não é?

— Certeza, não, tio. Não vi a cara. Ele me agarrou de noite e na escuridão.

— Então como é que soube que era Miguel Páramo?

— Porque ele me disse: “Sou eu, Miguel Páramo, Ana. Não se assuste.” Foi o que ele me disse.

— Mas você sabia que ele foi o autor da morte do seu pai, não sabia?

— Sabia, tio.

— E então, o que fez para afastá-lo?

— Não fiz nada.

Os dois guardaram silêncio durante alguns instantes. Ouvia-se a brisa morna entre as folhas da goiabeira.

— Ele disse que estava ali justamente para isso: me pedir desculpas, e para saber se eu o perdoaria. Sem me mexer da cama, fui logo avisando: “A janela está aberta.” E ele entrou. Chegou me abraçando, como se essa fosse a forma de se desculpar pelo que tinha feito. E eu sorri para ele. Pensei naquilo que o senhor tinha me ensinado: que não se deve odiar ninguém nunca. Sorri ao dizer isso para ele; mas depois achei que não conseguiu ver meu sorriso, porque eu não via ele, de tão negra que a noite estava. Só deu para sentir que ele estava em cima de mim e que começava a fazer maldades comigo.

“Achei que ia me matar. Foi isso que eu achei, tio. E até deixei de pensar, só para morrer antes que ele me matasse. Mas com certeza ele não se atreveu.

“Entendi isso quando abri os olhos e vi a luz da manhã que entrava pela janela aberta.

Antes daquela hora, tinha sentido que havia deixado de existir.

— Mas você deve ter alguma certeza. A voz. Não deu para reconhecer a voz?

— Eu não conhecia ele de jeito nenhum, de voz e de nada. Só sabia que tinha matado meu pai. Nunca tinha visto e depois não cheguei a ver. Não tinha como, tio.

— Mas você sabia quem ele era.

— Sim. E que coisa ele era. Sei até que agorinha mesmo ele deve estar nas profundas do inferno; porque foi isso que eu pedi a todos os santos, e com todo o meu fervor.

— Não acredite tanto, filha. Vai saber quanta gente está rezando por ele neste momento! Você está sozinha. Uma prece contra milhares de preces. E, entre essas preces, algumas muito mais profundas do que a sua, como deve ser a do pai dele.

Ia dizer a ela: “E além do mais, eu dei a ele a absolvição.” Mas só pensou. Não quis maltratar a alma meio quebrada daquela moça. Em vez disso tomou-a pelo braço e disse:

— Vamos dar graças a Deus Nosso Senhor porque o levou desta terra onde causou tanto mal, e não importa que agora o tenha em seu céu.

UM CAVALO PASSOU a galope onde a rua principal cruza o caminho de Contla. Ninguém viu nada. E no entanto uma mulher que esperava fora do povoado contou que vira o cavalo correndo com as pernas dobradas como se fosse cair de bruços. Reconheceu o alazão de Miguel Páramo. E até pensou: “Esse animal vai quebrar a cabeça.” Depois viu quando o cavalo endireitava o corpo e, sem afrouxar a carreira, caminhava com o pescoço esticado para trás como se viesse assustado por causa de alguma coisa que tivesse deixado lá atrás.

Esses rumores chegaram à Media Luna na noite do enterro, enquanto os homens descansavam da longa caminhada que tinham feito até o panteão.

Conversavam, como se conversa em qualquer lugar, antes de ir dormir.

— Esse morto me doeu muito — disse Terencio Lubianes. — Ainda estou com os ombros doloridos.

— E em mim — disse Ubillado, seu irmão. — Até meus joanetes cresceram. Com essa história do patrão querendo que todos fôssemos de sapatos. Nem que fosse dia de festa, não é mesmo, Toribio?

— E o que vocês querem que eu diga? Acho que já morreu tarde.

Pouco depois chegaram mais fuxicos de Contla. Vieram com a última carreta.

— Dizem que o fantasma já está por lá. Viram o dito cujo batendo na janela de fulaninha. Igualzinho a ele. De perneiras e tudo.

— E você acha que dom Pedro, com o gênio que tem, ia permitir que seu filho continue barganhando mulheres? Já imagino o que ele faria, se ficasse sabendo: “– Muito bem — diria. — Você já morreu. Fica quieto aí na sepultura. Deixa esse negócio para nós.” E se visse o filho por aí, sou capaz de apostar que o mandaria de volta para o campo-santo.

— Você está certo, Isaías. Esse velho não é de brincadeira.

O carreteiro continuou seu caminho: “Conto do jeito que ouvi.”

Havia estrelas cadentes. Caíam como se o céu estivesse chuviscando lume.

— Vejam só — disse Terencio — o bailongo lá no alto.

— É que estão celebrando uma festança para Miguelito — interveio Jesús.

— Não será um mau sinal?

— Para quem?

— Vai ver sua irmã está sentindo saudades e querendo que ele volte.

— Você está falando da irmã de quem?

— Da sua.

— É melhor ir embora, pessoal. A gente labutou muito hoje, e amanhã temos de madrugar.

E se dissolveram como sombras.

HAVIA ESTRELAS cadentes. As luzes de Comala se apagaram.

Então o céu tomou conta da noite.

O padre Rentería se revirava na cama sem conseguir dormir:

— Tudo isso que está acontecendo é por minha culpa — disse a si mesmo. — O temor de ofender os que me apoiam. Porque a verdade é esta; eles me mantêm. Dos pobres não consigo nada; orações não enchem barriga. Assim foi até agora. E estas são as consequências. Minha culpa. Eu traí aqueles que gostam de mim e que me deram sua fé e que me procuram para que eu interceda por eles diante de Deus. Mas o que conseguiram com sua fé? Ganharam o céu? Ou a purificação de suas almas? E purificar as almas para quê, se no último momento… Ainda tenho diante de meus olhos o olhar de Maria Dyada, que veio pedir que eu salvasse sua irmã Eduviges:

“— Ela sempre serviu aos seus semelhantes. Deu a eles tudo que teve. Até um filho deu, a todos. E o colocou na frente de todo mundo para ver se alguém o reconhecia como seu; mas ninguém quis fazer isso. Então ela disse a eles: ‘Neste caso, eu também sou o pai, mesmo que por coincidência também seja a mãe.’ Abusaram da sua hospitalidade por causa daquela sua bondade de não querer ofender nem ser malquista por ninguém.

“— Mas ela se suicidou. Obrou contra a mão de Deus.

“— Era a única saída. E decidiu isso por causa da sua bondade.

“— Falhou no momento final — foi isso que eu disse a ela. — No último instante. Tantos bens acumulados para a sua salvação, e perdeu tudo de repente!

“— Mas é que não perdeu. Morreu cheia de muitas dores. E a dor… O senhor nos falou uma coisa sobre a dor, que eu não lembro mais. Ela foi-se embora por causa dessa dor. Morreu retorcida pelo sangue que a afogava. Ainda vejo sua cara, e sua cara era o gesto mais triste jamais feito por um ser humano.

“— Talvez se a gente rezar muito.

“— Pois vamos rezando muito, padre.

“— Digo talvez, quem sabe?, com as missas gregorianas; mas para isso precisamos pedir ajuda, mandar vir sacerdotes. E tudo custa dinheiro.

“Lá estava, na frente dos meus olhos, o olhar de Maria Dyada, uma pobre mulher cheia de filhos.

“— Não tenho dinheiro. O senhor sabe disso, padre.

“— Então vamos deixar as coisas do jeito que estão. Vamos esperar em Deus.

“— Está bem, padre.

Por que aquele olhar tornava-se valente diante da resignação? O que custava a ele perdoar, quando era tão fácil dizer uma ou duas palavras, ou cem, se fossem necessárias para salvar a alma? Que sabia ele do céu e do inferno? E no entanto ele, perdido num povoado sem nome, sabia quem tinha merecido o céu. Havia um catálogo. Começou a percorrer os santos do panteão católico, a começar pelos do dia: “Santa Nunilona, virgem e mártir; Anercio, bispo; Santas Salomé, viúva, Alódia ou Elódia e Nulina, virgens; Córdula e Donato.” E continuou. Já começava a ser dominado pelo sono quando se sentou na cama: “Estou repassando uma fileira de santos como se estivesse vendo carneiros saltarem.”

Saiu da casa e olhou o céu. Choviam estrelas. Lamentou aquilo, porque teria gostado de ver um céu quieto. Ouviu o canto dos galos. Sentiu a envoltura da noite cobrindo a terra. A terra, “este vale de lágrimas”.

— MELHOR ASSIM, meu filho. Melhor assim — me disse Eduviges Dyada.

A noite já estava alta. A lâmpada que ardia num canto começou a languescer; depois pestanejou e acabou se apagando.

Senti que a mulher se levantava e achei que estava indo atrás de uma nova luz. Ouvi seus passos cada vez mais distantes. Fiquei esperando.

Passado um tempo e ao ver que não voltava, eu também me levantei. Fui caminhando a passos curtos, tateando na escuridão, até que cheguei no meu quarto. E lá me sentei no chão para esperar o sono.

Dormi aos trancos.

Num desses trancos ouvi o grito. Era um grito arrastado feito o alarido de algum bêbado:

“Ai vida minha, você não me merece!”

Eu me ergui rapidamente, porque ouvi aquilo quase que grudado nas minhas orelhas; pode ter sido na rua; mas eu ouvi aqui, colado às paredes do meu quarto. Ao despertar, estava tudo em silêncio; apenas o cair das mariposas noturnas e o rumor do silêncio.

Não, não era possível calcular a fundura do silêncio que produziu aquele grito. Como se a terra tivesse se esvaziado do seu ar. Nenhum som; nem o do suspiro, nem o da batida do coração; como se até o ruído da consciência tivesse parado. E quando terminou a pausa e tornei a me tranquilizar, o grito voltou e pude continuar a ouvi-lo por um bom tempo: “Que me

deixem ao menos o direito que os enforcados têm, o de agitar as pernas!” Então a porta se abriu de par em par.

— É a senhora, dona Eduviges? — perguntei. — O que é que está acontecendo? A senhora sentiu medo?

— Não me chamo Eduviges. Sou Damiana. Soube que você estava aqui e vim vê-lo.

Quero convidá-lo para dormir na minha casa. Lá você terá onde descansar.

— Damiana Cisneros? A senhora não era uma das que moravam na Media Luna?

— Eu moro lá. Por isso demorei a chegar aqui.

— Minha mãe me falou de uma tal de Damiana que tinha cuidado de mim, quando eu nasci. Quer dizer que a senhora…

— Sou eu, sim. Conheço você desde que abriu os olhos.

— Pois eu vou com a senhora. Aqui os gritos não me deixaram em paz. A senhora ouviu o que está acontecendo? É como se estivessem assassinando alguém. A senhora não acabou de ouvir agora mesmo?

— Pode ser algum eco que ficou preso aqui. Neste quarto enforcaram Toribio Aldrete faz muito tempo. Depois taparam a porta, até que ele secasse; para que seu corpo não encontrasse repouso. Não sei como é que você conseguiu entrar, porque não existe chave para abrir esta porta.

— Foi dona Eduviges que abriu para mim. Ela me disse que era o único quarto que estava disponível.

— Eduviges Dyada?

— Ela.

— Coitada da Eduviges. Deve estar vagando em pena até agora.

“FULGOR SEDANO, homem de 54 anos, solteiro, de profissão administrador, apto para apresentar e acompanhar pleitos, por poder e por meu direito próprio, reclamo e alego o que segue…”

Tinha dito isso quando levantou a ata contra os atos de Toribio Aldrete. E terminou: “Que conste minha acusação por usufruto.”

— Não há quem lhe renegue a macheza, dom Fulgor. Sei do que o senhor é capaz. E não por causa do poder que tem atrás, mas por mérito próprio.

Lembrava-se. Foi a primeira coisa que Aldrete disse, depois que tinham andado se embebedando juntos, dizendo que era para celebrar a ata:

— Com este papel vamos nos limpar, o senhor e eu, dom Fulgor, porque não vai servir para outra coisa. E disso o senhor sabe muito bem. Enfim, pelo que lhe diz respeito, já cumpriu com o mandato, e me tirou de apuros; porque o senhor tinha me deixado preocupado, verdade seja dita. Agora já sei do que se trata, e dou risada. Quer dizer que “usufruto”.

Vergonha, isso sim, é o que o seu patrão deveria sentir, por ser tão ignorante.

Lembrava-se. Estavam na pensão de Eduviges. E até ele tinha perguntado a ela:

— Escuta aqui, Viges, você pode me emprestar o quarto do canto?

— Todos que o senhor quiser, dom Fulgor; se quiser, pode ocupar todos. Seus homens vão ficar para dormir?

— Não, só um. Não se preocupe com a gente, vá dormir. É só deixar a chave.

— Pois é o que eu digo, dom Fulgor — disse Toribio Aldrete. — Ninguém aqui vai diminuir a hombridade do homem que o senhor é; mas fico fulo é com esse malparido do seu patrão.

Lembrava-se. Foi a última coisa que o ouviu dizer com os seus cinco sentidos. Depois tinha se comportado como um poltrão, dando gritos. “Dizer a força que eu tinha atrás de mim. Arre!”

COM O CABO do chicote bateu na porta da casa de Pedro Páramo. Pensou na primeira vez que tinha feito aquilo, duas semanas atrás. Esperou um bom tempo da mesma forma que precisou esperar daquela vez. Olhou também, como tinha feito da outra feita, o laço negro dependurado no dintel da porta. Mas não comentou consigo mesmo: “Que coisa! Puseram um em cima do outro. O primeiro já está descolorido, o último reluz como se fosse de seda; embora não passe de um trapo tingido.”

A primeira vez ficou esperando até ser tomado pela ideia de que a casa talvez estivesse desabitada. E já ia indo embora, quando apareceu a figura de Pedro Páramo.

— Entra, Fulgor.

Era a segunda vez que se viam. A primeira só ele viu; porque Pedrinho era um recémnascido. E esta. Quase se podia dizer que era a primeira vez. E acabaram falando de igual a igual. Que coisa! Seguiu-o a grandes trancos, chicoteando as próprias pernas: “Num instante ele vai saber que quem sabe das coisas aqui sou eu. Vai saber. E saber o que vim fazer.” — Sente-se, Fulgor. Aqui podemos falar com mais calma.

Estavam no curral. Pedro Páramo se esparramou numa manjedoura e esperou:

— Por que não senta?

— Prefiro ficar de pé, Pedro.

— Como você quiser. Mas não se esqueça do dom. Dom Pedro.

Quem aquele moleque achava que era para falar desse jeito? Nem o pai dele, dom Lucas Páramo, tinha se atrevido a tanto. E de repente ele, que jamais tinha parado na Media Luna, e que não conhecia o trabalho nem de ouvir falar, se dirigia a ele como se ele fosse um peão qualquer. Ora essa!

— Como está aquilo lá?

Sentiu que chegava a sua oportunidade. “Agora é a minha vez”, pensou.

— Mal. Não sobrou nada. Vendemos a última cabeça de gado.

Começou a tirar os papéis para informar a quantas andava a sua dívida. E já ia dizer:

“Estamos devendo tanto”, quando ouviu:

— Para quem estamos devendo? Não me interessa quanto, mas a quem.

Passou uma lista de nomes. E terminou:

— Não tem de onde tirar para pagar. Essa é que é a questão.

— E por quê?

— Porque a família do senhor absorveu tudo. Pediam e pediam, sem devolver nada. E isso se paga caro. Eu bem que dizia: “Com o tempo, vão acabar com tudo.” Pois bem, agora acabaram. Embora exista por lá quem se interesse por comprar os terrenos. E pagam bem. Dava para cobrar as promissórias pendentes e ainda sobrava alguma coisa; mas, isso sim, bem diminuído.

— E não será você o interessado?

— Como é que o senhor pode acreditar que eu faria isso?

— Eu creio até no espírito santo. Amanhã vamos começar a arrumar os nossos assuntos. Vamos começar pelas Preciados. Você diz que devemos mais a elas?

— Digo. E é para quem a gente menos pagou. O pai do senhor sempre as deixou para o último lugar. Soube que uma delas, Matilde, foi morar na cidade. Não sei se em Guadalajara ou em Colima. E Lola, quer dizer, dona Dolores, ficou sendo dona de tudo. O senhor sabe: o

rancho de Enmedio. E é a ela que temos de pagar.

— Amanhã você vai pedir a mão de Lola.

— E o senhor acha que ela vai me aceitar, velho desse jeito?

— Vai pedir é para mim. Afinal das contas, ela tem lá sua graça. Você vai dizer que estou muito apaixonado por ela. E que ela leve isso muito em consideração. Aproveita e peça ao padre Rentería que arranje o nosso trato. Quanto dinheiro você tem aí?

— Nenhum, dom Pedro.

— Pois prometa dinheiro. Diga a ele que assim que a gente tiver, a gente paga. Tenho quase certeza que ele não vai pôr nenhuma dificuldade. Faça isso amanhã logo de manhã.

— E o Aldrete?

— Qual o problema de Aldrete? Você mencionou as Preciados e os Fregosos e os Guzmanes. E agora me aparece com Aldrete?

— Uma questão de divisa. Ele já mandou cercar e agora pede que a gente ponha o que falta para fazer a divisão.

— Deixa isso para depois. Não se preocupe com cercas. Não haverá cerca. A terra não tem divisões. Pense nisso, Fulgor, mas não deixe ele saber. Agora resolva rápido e de uma vez a questão da Lola. Você não quer sentar?

— Quero, dom Pedro. Palavra que estou gostando de negociar com o senhor.

— Você vai dizer a Lola isso e aquilo e que gosto dela. Isso é importante. Aliás, Sedano, gosto mesmo. Pelos olhos dela, sabe? Isso é o que você vai fazer amanhã de manhãzinha.

Estou reduzindo suas tarefas de administrador. Esquema a Media Luna.

“DE ONDE DIABOS aquele rapaz tinha tirado aquelas manhas?” pensou Fulgor Sedano, enquanto regressava à Media Luna. “Eu não esperava nada dele. ‘É um inútil’, dizia meu finado patrão dom Lucas. ‘Um frouxo de marca maior.’ Eu dava razão a ele. ‘Quando eu morrer, pode ir começando a procurar outro trabalho, Fulgor.’ ‘Está bem, dom Lucas.’ ‘Pois eu digo a você que tentei mandá-lo ao seminário para ver se pelo menos ele conseguia para comer e manter sua mãe quando eu faltar; mas nem isso ele se decidiu a fazer.’ ‘O senhor não merece isso, dom Lucas.’ ‘Não se pode contar com ele para nada, nem para servir de bengala quando eu estiver velho. Fracassei com ele, fazer o quê, Fulgor?’ ‘É uma verdadeira pena, dom Lucas.’

E agora, essa. Se eu não fosse tão encarinhado pela Media Luna, nem teria vindo ao encontro dele. Teria me largado sem avisar. Mas sentia apreço por aquelas terras; por aquelas colinas calvas tão trabalhadas e que continuavam aguentando o sulco do arado, dando cada vez mais de si… Querida Media Luna… E os agregados: “Venha para cá, terrinha do Enmedio.” E via como ela vinha. Como já estava aqui. O tanto que uma mulher, afinal de contas, significa. “Claro que sim!”, disse. E chicoteou suas pernas ao traspassar a porta grande da fazenda.

FOI MUITO FÁCIL estender a armadilha para Dolores. Até seus olhos reluziram, e sua cara se desmanchou.

— Perdoe eu ficar corada, dom Fulgor. Não achei que dom Pedro reparasse em mim.

— Nem dorme, só pensando na senhorita.

— Mas ele, sim, tem de onde escolher. Sobram moças bonitas em Comala. O que elas dirão quando souberem?

— Ele só pensa na senhorita, Dolores. A partir daí em diante, em mais ninguém.

— O senhor faz com que eu sinta calafrios, dom Fulgor. Eu não podia nem imaginar.

— É que ele é um homem reservado. Dom Lucas Páramo, que em paz descanse, chegou a dizer a ele que a senhorita não era digna dele. E ele calou-se, de pura obediência. Agora que o pai já não existe, não há nenhum impedimento. Foi sua primeira decisão; eu é que tardei em cumpri-la, por causa de minhas muitas ocupações. Vamos pôr como dia das bodas depois de amanhã. O que a senhorita acha?

— Não está muito perto? Não tenho nada preparado. Preciso encomendar o enxoval. Vou escrever para a minha irmã. Ou não, é melhor mandar um emissário; mas seja como for, não estarei pronta antes do 8 de abril. Hoje é dia primeiro. Sim, mal e mal para o dia 8. Diga a ele para esperar uns diazinhos.

— Por ele, seria agorinha mesmo. E se for por causa dos enxovais, nós podemos providenciá-los. A finada mãe de dom Pedro espera que a senhorita vista as roupas dela. Na família existe este costume.

— É que, além do mais, tem uma coisa nestes dias. Coisa de mulher, o senhor sabe. Ah, que vergonha me dá dizer isso ao senhor, dom Fulgor. Faz com que eu perca as cores. Estou naquela fase da lua. Ai, que vergonha.

— E daí? Casamento não é questão de fase de lua. É questão de gostar. E, havendo gosto, o resto é o resto.

— Mas é que o senhor não me entende, dom Fulgor.

— Entendo, sim. O casamento será depois de amanhã.

E deixou-a com os braços estendidos pedindo mais oito dias, oito dias e nada mais.

“Que eu não me esqueça de dizer a dom Pedro — eta rapazinho vivo, esse Pedro! — de dizer a dom Pedro que não se esqueça de dizer ao juiz da comunhão de bens. ‘Lembre-se, Fulgor, de dizer isso amanhã sem falta’.”

Dolores, por sua vez, correu até a cozinha com uma bacia nas mãos, para pôr água quente: “Vou fazer com que isso desça mais depressa. Que desça esta mesma noite. Mas é que seja como for vai durar meus três dias. Não tem remédio. Que felicidade! Ah, que felicidade! Graças, meu Deus, por me dar dom Pedro!” E acrescentou: “Mesmo que depois eu odeie.”

— JÁ PEDI e ela está muito de acordo. O padre quer 60 pesos para passar por cima dos proclamas. Disse a ele que no devido tempo iria ter o que pediu. Ele diz que precisa arrumar o altar e que a mesa do seu refeitório está toda destrambelhada. Prometi que mandaremos para ele uma mesa nova. Disse que o senhor nunca vai à missa. Prometi que o senhor iria. E que desde que sua avó morreu, nunca mais deram os dízimos. Disse a ele que não se preocupasse.

Está de acordo.

— Você não pediu nada adiantado a Dolores?

— Não, patrão. Não me atrevi. Essa é que é a verdade. Ela estava tão contente que não quis atrapalhar seu entusiasmo.

— Você é uma criança.

“Caramba! Eu, uma criança. Com 55 anos bem vividos. Ele mal começando a viver e eu a poucos passos da morte.”

— Não quis quebrar seu contentamento.

— Apesar de tudo, você é uma criança.

— Está bem, patrão.

— Semana que vem você vai ver Aldrete. E diz a ele que recolha a cerca. Invadiu terras da Media Luna.

— Ele fez as medições direito. Eu conferi.

— Pois vá lá e diga a ele que se enganou. Que calculou mal. Se for preciso, derruba as cercas.

— E as leis?

— Que leis, Fulgor? A lei, de agora em diante, nós é que fazemos. Você tem algum cabra valentão trabalhando na Media Luna?

— Sim, um ou outro.

— Pois mande todos em comitiva até Aldrete. Levanta contra ele uma ata acusando-o de “usufruto” ou do que você quiser. E faça com que ele se lembre de que Lucas Páramo já morreu. Que comigo é preciso negociar tudo de novo.

O céu ainda era azul. Havia poucas nuvens. O vento soprava lá em cima, embora aqui embaixo se transformasse em calor.

BATEU NOVAMENTE com o cabo do chicote, só para insistir, pois já sabia que não abririam até que Pedro Páramo resolvesse abrir. Olhando para a soleira da porta, disse: “Esses laços negros são bonitos, cada qual com seu dono.”

Nesse momento abriram a porta e ele entrou.

— Entre, Fulgor. A questão do Toribio Aldrete está resolvida?

— Está liquidada, patrão.

— Fica faltando a questão dos Fregosos. Deixe pendente. Porque agora estou ocupado com a minha “lua de mel”.

— ESTA CIDADE está cheia de ecos. Parece até que estão trancados no oco das paredes ou debaixo das pedras. Quando você caminha, sente que vão pisando seus passos. Ouve rangidos. Risos. Umas risadas já muito velhas, como cansadas de rir. E vozes já desgastadas pelo uso.

Você ouve tudo isso. Acho que vai chegar o dia em que esses sons se apagarão.

Isso era o que Damiana Cisneros vinha me dizendo, enquanto atravessávamos a cidade.

— Teve um tempo em que andei ouvindo durante muitas noites o barulho de uma festa. Os ruídos chegavam até a Media Luna. Cheguei perto para ver aquela animação e vi isto: o que estamos vendo agora. Nada. Ninguém. As ruas tão solitárias como estão agora.

“Depois deixei de ouvir a festa. É que a alegria cansa. Por isso não estranhei quando aquilo terminou.

“Sim — tornou a dizer Damiana Cisneros. — Esta cidade está cheia de ecos. Eu já não me espanto. Ouço o uivo dos cães e deixo que uivem. Nos dias de brisa a gente vê o vento arrastando folhas das árvores, quando aqui, como você vê, já não há árvores. Existiram em algum tempo, porque se não tivessem existido de onde essas folhas sairiam?

“E o pior de tudo é quando você ouve as pessoas falarem, como se as vozes saíssem de alguma fenda, e ainda assim tão claras que dá para reconhecê-las. Sem tirar nem pôr, agora que eu vinha vindo, encontrei um velório. Parei para rezar um pai-nosso. E nisso estava eu, quando uma mulher se afastou das outras e veio me dizer:

“— Damiana! Roga a Deus por mim, Damiana!

“Soltou o xale e reconheci a cara da minha irmã Sixtina.

“— O que você está fazendo aqui? — perguntei a ela.

“Então ela correu para se esconder entre as outras mulheres.

“Minha irmã Sixtina, se por acaso você não sabe, morreu quando eu tinha 12 anos. Era a mais velha. E na minha casa fomos 16 de família, daí dá para você fazer as contas do tempo que ela está morta. E olha ela aí até agora, ainda vagando por este mundo. Por isso não se assuste se ouvir ecos mais recentes, Juan Preciado.

— A senhora também recebeu aviso de minha mãe dizendo que eu ia vir? — perguntei.

— Não. E aliás, o que foi feito da sua mãe?

— Morreu — disse.

— Já morreu? E de quê?

— Eu não soube de quê. Talvez de tristeza. Suspirava muito.

— Isso é ruim. Em cada suspiro é como se a gente se desfizesse de um sorvo de vida.

Quer dizer que morreu?

— Morreu. Achei que a senhora tinha ficado sabendo…

— E por que eu haveria de saber? Faz muitos anos que não sei de nada.

— E então como é que a senhora deu comigo?

– …

— A senhora está viva, dona Damiana? Diga, Damiana!

E de repente me encontrei sozinho naquelas ruas vazias. As janelas das casas abertas ao céu, deixando aparecer os talos ressecados do capim. Paredes esfoladas que mostravam seus adobes revirados.

— Damiana! — gritei. — Damiana Cisneros!

O eco me respondeu: “…ana… neros…! …ana… neros..!”

OUVI QUE OS CÃES latiam, como se eu os houvesse despertado.

Vi um homem atravessando a rua:

— Ei, você! — chamei.

— Ei, você! — me respondeu minha própria voz.

E como se estivessem na virada da esquina, ouvi umas mulheres que conversavam:

— Olha só quem vem lá. Não é o Filoteo Aréchiga?

— É ele. Vamos fingir que não vimos.

— É melhor a gente ir embora. Se ele vier mesmo atrás de nós é que de verdade quer uma das duas. Quem você acha que ele vai seguir?

— Você, com certeza.

— Pois eu acho que vai seguir mesmo é você.

— Pois pode parar de correr. Ele ficou parado naquela esquina.

— Pois então não é nenhuma das duas, está vendo?

— Mas que tal se fosse você ou eu? Que tal?

— Não se iluda.

— Afinal de contas, até que foi melhor. Dizem por aí que é ele quem se encarrega de conseguir mocinhas para dom Pedro. Veja só do que escapamos.

— É mesmo? Pois com esse velho não quero ter nada a ver.

— É melhor a gente ir.

— Você disse bem. Vamos embora daqui.

NOITE. Muito além da meia-noite. E as vozes:

— … Pois eu digo que se o milho deste ano der bem, a gente vai ter como pagar você. Agora, se o milho se perder, pois você vai ter de aguentar mais.

— Não exijo. Você sabe muito bem que fui razoável com você. Mas a terra não é sua.

Você se pôs a trabalhar em terreno alheio. Vai tirar de onde para poder me pagar?

— E quem foi que disse que a terra não é minha?

— O que se afirma por aí é que você vendeu para Pedro Páramo.

— Eu nem cheguei perto desse senhor. A terra continua sendo minha.

— Isso é o que você diz. Mas por aí o que se diz é que tudo é dele.

— Pois que venham dizer a mim.

— Olha bem, Galileo, eu, aqui em confiança, aprecio você. Não é à toa que você é o marido da minha irmã. E que você a trata bem, não há quem duvide. Mas não venha me negar que vendeu as terras.

— Estou dizendo que não vendi.

— Só que elas são de Pedro Páramo. Na certa ele decidiu assim. Dom Fulgor não veio ver você?

— Não.

— Na certa você vai ver ele chegando amanhã. Se não amanhã, qualquer outro dia.

— Pois me mata ou morre; mas não vai sair do jeito que chegou.

Requiescat in pace, amém, cunhado. Por via das dúvidas.

— Pode deixar, que você vai voltar a me ver. Não se preocupe por mim. Não foi à toa que minha mãe curtiu bem meu couro, para que aguentasse.

— Até amanhã então. Diga a Felícitas que esta noite não venho jantar. Eu não gostaria de poder contar depois: “Eu estive com ele na véspera.”

— Vamos guardar alguma coisa, se você na última hora mudar de ideia.

Ouviram-se os pesados passos que iam embora entre um ruído de esporas.

— … AMANHÃ, ao amanhecer, você vai comigo, Bugra. Já aparelhei os animais.

— E se meu pai morrer de raiva? Velho do jeito que está… Eu nunca me perdoaria se, por minha causa, acontecesse alguma coisa com ele. Sou a única pessoa que ele tem para fazer as necessidades. E não tem mais ninguém. Qual é essa pressa de me roubar? Aguenta mais um pouquinho. Ele já não demora para morrer.

— Você me disse isso mesmo há um ano. E até jogou na minha cara a minha falta de valentia, pois já estava, você mesma disse, farta de tudo. Preparei as mulas, que estão prontas. Você vem comigo?

— Deixa eu pensar.

— Bugra! Você não sabe quanto eu gosto de você. Não aguento mais de vontade, Bugra. E então você vem comigo ou vem comigo, e já.

— Deixa eu pensar. Entenda. Temos de esperar que ele morra. Falta um pouquinho. Daí eu vou com você e você não vai nem precisar me roubar.

— Isso você também me disse faz um ano.

— E daí?

— E daí que precisei alugar as mulas. Eu não tenho mais nenhuma. Elas estão lá esperando. Deixa que ele se arranje sozinho! Você está bonita. E é jovem. Não vai faltar uma velha qualquer que venha cuidar dele. Aqui tem alma caritativa de sobra.

— Não posso.

— Claro que pode.

— Não posso. É que me dá pena, sabe? Afinal, ele é meu pai.

— Então está resolvido. Vou lá ver Juliana, que se derrete por mim.

— Muito bem. Já não digo mais nada.

— Não vai querer me ver amanhã? — Não. Não quero ver você mais.

RUÍDOS. VOZES. Rumores. Canções distantes:

Minha querida me deu um lenço com bainhas de choro…

Em falsete. Como se fossem mulheres cantando.

VI AS CARRETAS passarem. Os bois movendo-se devagar. O ranger das pedras debaixo das rodas. Os homens como se estivessem dormindo.

… Toda madrugada a cidade treme com a passagem das carretas. Chegam de todos os lados, atopetadas de salitre, de espigas de milho, de erva-do-pará. Gemem suas rodas fazendo as janelas vibrarem, despertando todo mundo. É a mesma hora em que se abrem os fornos e cheira a pão recém-assado. E de repente o céu pode troar. Cair a chuva. Pode chegar a primavera. Lá você vai se acostumar aos “de repentes”, meu filho.

Carretas vazias, remoendo o silêncio das ruas. Perdendo-se no escuro caminho da noite. E as sombras. O eco das sombras.

Pensei em voltar. Senti lá no alto o caminho por onde tinha vindo, como uma ferida aberta no negror das colinas.

Então alguém tocou meus ombros.

— O que é que o senhor está fazendo aqui?

— Vim procurar… — e já ia dizer quem, quando parei: — vim buscar meu pai.

— E por que não entra?

Entrei. Era uma casa com metade do teto derrubado. As telhas no chão. O teto no chão. E na outra metade um homem e uma mulher.

— Vocês não estão mortos? — perguntei a eles.

E a mulher sorriu. O homem me olhou seriamente.

— Está bêbado — disse o homem.

— Só está assustado — disse a mulher.

Havia uma lamparina de querosene. Havia uma cama de palha seca, e uma cadeira de vime e assento de couro onde estavam as roupas dela. Porque ela estava pelada, do jeito que Deus a botou no mundo. E ele também.

— Ouvimos alguém que gemia e dava cabeçadas na nossa porta. E lá estava o senhor. O que aconteceu?

— Aconteceram comigo tantas coisas que é melhor querer dormir.

— Nós já estávamos dormindo. — Vamos então dormir.

A MADRUGADA foi apagando minhas recordações.

Ouvia de vez em quando o som das palavras, e notava a diferença. Porque as palavras que havia ouvido até então, e só então fiquei sabendo, não tinham nenhum som, não soavam; sentiam-se; mas sem som, como as que se ouve durante os sonhos.

— Quem será? — perguntava a mulher.

— Quem sabe? — respondia o homem.

— Como é que veio parar aqui?

— Quem sabe?

— É como se eu ouvisse ele dizendo alguma coisa de seu pai.

— Eu também ouvi dizer isso.

— Será que não estará perdido? Lembre-se de quando caíram por aqui aqueles que disseram que andavam perdidos. Procuravam um lugar chamado Os Confins e você disse a eles que não sabia onde aquilo ficava.

— Sim, eu me lembro; mas me deixa dormir. Não amanheceu ainda.

— Falta pouco. Se estou falando, é para que você acorde. Você me pediu para acordar antes do amanhecer. Por isso estou falando. Levanta!

— E você quer que eu levante para quê?

— Não sei para quê. Você que me disse ontem à noite para acordar você. Não explicou para quê.

— Nesse caso, me deixe dormir. Você não ouviu o que esse aí disse, quando chegou? Que a gente o deixasse dormir. Foi a única coisa que disse.

É como se as vozes fossem embora. Como se o seu ruído se perdesse. Como se estivessem se afogando. Ninguém mais diz nada. É o sono.

E depois, de novo:

— Acaba de se mexer. Se a gente facilitar, já vai acordar. E se vir a gente aqui, vai perguntar coisas.

— Que tipo de pergunta ele pode fazer?

— Bem. Alguma coisa ele vai ter de dizer, não é?

— Deixa ele. Deve estar muito cansado.

— Você acha?

— Cala a boca de uma vez, mulher.

— Olha só, ele se mexe. Vê como se revira? É igualzinho como se estivessem sacudindoo por dentro. Eu sei disso porque isso já aconteceu comigo.

— O que aconteceu com você?

— Isso.

— Não sei do que você está falando.

— Eu não falaria se não me lembrasse, ao ver esse aí se remexendo, do que me aconteceu na primeira vez que você fez. E de como doeu e do quanto que me arrependi disso.

— De qual isso?

— De como eu me sentia, assim que você fez aquilo, que mesmo que você não queira eu sei que foi malfeito.

— E só agora você me vem com essa lengalenga? Por que não dorme e me deixa dormir?

— Você me pediu para acordar. É o que estou fazendo. Por Deus, só estou fazendo o que você me pediu para fazer. Saco! Já está mais do que na hora de acordar.

— Vê se me deixa em paz, mulher.

O homem parecia dormir. A mulher continuou resmungando; mas com voz muito baixa:

— Já deve ter amanhecido, porque tem luz. Daqui posso ver esse homem, e se vejo é porque tem luz bastante para ver. Não demora e sai o sol. Claro, isso nem se pergunta. Na certa, esse fulano é algum malvado. E a gente deu abrigo a ele. Não importa que tenha sido só por esta noite; mas a coisa é que nós escondemos ele. E isso vai acabar trazendo o mal para nós… Olha só como ele se mexe, como não encontra acomodação. Vai ver não dá mais conta da própria alma.

O dia clareava. O dia desbarata as sombras. Desfaz. O quarto onde estava parecia quente com o calor dos corpos adormecidos. Através das pálpebras me chegava a alva do amanhecer. Sentia a luz. Cheirava:

— Ele se revira em cima do próprio corpo feito um condenado. E tem todo jeito de homem mau. Levanta, Donis! Olha só para ele. Que se esfrega contra o chão, se retorcendo.

Baba. Há de ser alguém que deve muitas mortes. E você nem para reconhecê-lo.

— Deve ser um pobre coitado. Durma e deixe a gente dormir!

— E por que eu vou dormir, se não tenho mais sono?

— Pois então levanta e vai para algum lugar onde não me azucrine!

— Vou mesmo. Vou acender o fogo. E aproveito para dizer a esse fulano que venha cá se deitar com você, no lugar que vou deixar para ele.

— Pois diga.

— Não vou conseguir. Vou ficar com medo.

— Então vai fazer o que tiver de fazer e deixa a gente em paz.

— Vou.

— E está esperando o quê?

— Estou indo.

Senti que a mulher descia da cama. Seus pés descalços golpearam o chão e passaram por cima da minha cabeça. Abri e fechei os olhos.

Quando acordei, havia um sol de meio-dia. Ao meu lado, uma jarra de café. Tentei beber aquilo. Dei uns goles.

— Não temos mais. Desculpe o pouco. Estamos tão escassos de tudo, tão escassos…

Era uma voz de mulher.

— Não se preocupe comigo — disse a ela. — Por mim, não se preocupe. Estou acostumado. Como é que se faz para ir embora daqui?

— Para onde?

— Para onde for.

— Há uma multidão de caminhos. Tem um que vai para Contla; outro que vem de lá. Outro mais que vai direto para a serra. Esse que a gente vê daqui, que não sei para onde irá — e me apontou com seus dedos o buraco no telhado, ali onde o teto estava arrebentado. — Este outro por aqui passa pela Media Luna. E tem outro mais, que atravessa a terra inteira e é o que vai mais longe.

— Vai ver eu vim por ele.

— E vai dar onde?

— Em Sayula.

— Veja só! E eu que achava que Sayula ficava do outro lado. Sempre quis conhecer Sayula. Dizem que tem muita gente por lá, não é mesmo?

— Que nem tem em todo lado.

— Imagine só. E nós aqui tão sozinhos. A gente se desvivendo por conhecer nem que seja só um tantinho da vida.

— Aonde foi o seu marido?

— Não é meu marido. É meu irmão; mas ele não quer que se saiba. Aonde foi? Pois na certa procurar algum bezerro fujão que anda por aí zanzando sem rumo. Pelo menos foi o que ele me disse.

— Quanto tempo faz que vocês estão aqui?

— Desde sempre. A gente nasceu aqui.

— Devem ter conhecido Dolores Preciado.

— Talvez ele, Donis. Eu sei tão pouco das pessoas. Nunca saio. Aqui onde o senhor me vê, pois aqui estive sempiternamente… Bem, nem tão sempre. Só depois que ele me fez sua mulher. Desde então passo aqui trancada, porque tenho medo que me vejam. Ele não quer acreditar, mas não é verdade que estou de dar medo? — e chegou perto de onde dava o sol. — Olhe só a minha cara!

Era uma cara comum e corrente.

— O que é que a senhora quer que eu olhe?

— Não vê o pecado? Não vê essas manchas arroxeadas que nem de varíola e que me cobrem de cima abaixo? E isso é só por fora; por dentro estou um mar de lodo.

— E quem pode ver a senhora, se aqui não tem ninguém? Andei o povoado inteiro e não vi ninguém.

— O senhor é que pensa; é que por aqui ainda tem alguns. Senão, me diga que Filomeno não está vivo, e que Dorotea, e Melquiades, e o velho Prudencio, e Sóstenes e todos não estão vivos. Acontece que eles passam o tempo todo trancados. De dia, sei lá o que fazem; mas passam as noites trancados. É que aqui, essas horas são cheias de assombrações. Se o senhor visse a multidão de almas que andam soltas pelas ruas… Assim que escurece, começam a sair. E ninguém gosta de vê-las. São tantas, e nós tão pouquinhos, que nem tratamos de rezar para que saiam de suas penas. Nossas orações não dariam para todos. No máximo um pedaço de um pai-nosso para cada uma. E isso não adiantaria nada. E além do mais, no meio tem os nossos pecados. Nenhum de nós, dos que ainda vivemos, está nas graças de Deus. Ninguém poderá erguer seus olhos ao céu sem sentir-se sujo de vergonha. E a vergonha não tem cura. Pelo menos foi o que me disse o senhor bispo, quando passou por aqui faz algum tempo dando confirmações. Eu me pus na frente dele e confessei tudo:

“— Isso não tem perdão — ele me disse.

“— Mas estou envergonhada.

“— O que não é remédio.

“— Case a gente!

“— Aparte-se de mim!

“Eu quis dizer a ele que a vida tinha nos juntado, encurralando-nos e colocado um ao lado do outro. Estávamos tão sozinhos aqui, que éramos os únicos. E de alguma forma era preciso povoar o povoado. Talvez ele já tenha alguém para batizar quando regressar. “— Separem-se. Isso é tudo que pode ser feito.

“— Mas como iremos viver?

“— Como todos vivem.

“E foi-se embora, montado na sua mula, a cara fechada, sem olhar para trás, como se tivesse deixado aqui uma imagem de perdição. Não voltou jamais. E esta é a razão disto aqui estar cheio de almas; um vagabundear de gente que morreu sem perdão e que não conseguirá ser perdoada de jeito nenhum, e menos ainda se valendo de nós. Lá vem. O senhor ouve? — Sim, ouço.

— É ele.

A porta foi aberta.

— O que aconteceu com o bezerro? — ela perguntou.

— Resolveu não aparecer agora; mas fui seguindo seu rastro e estou quase sabendo onde ele está. Hoje de noite agarro ele.

— Você vai me deixar sozinha de noite?

— Pode ser que sim.

— Não dou conta de aguentar. Preciso ter você comigo. É a única hora em que me sinto tranquila. A hora da noite.

— Esta noite vou atrás do bezerro.

— Acabo de saber — e me intrometi — que vocês são irmãos.

— Acaba de saber? Pois eu sabia muito antes do senhor. Por isso mesmo é melhor não se intrometer. Nós não gostamos que falem de nós.

— Eu estava só falando, com intenção de entendimento. Por nenhuma outra razão.

— E o que é que o senhor entende?

Ela se pôs ao lado dele, apoiando-se em seus ombros e dizendo também:

— E o que é que o senhor entende?

— Nada — disse eu. — Cada vez entendo menos — e acrescentei: — Gostaria de voltar ao lugar de onde vim. Vou aproveitar este pouco resto de luz que sobrou do dia.

— É melhor esperar — ele disse. — Aguarde até amanhã. Não demora em escurecer e todos os caminhos são um emaranhado de matagal espinhento. O senhor bem que pode se perder. Amanhã, eu o encaminho. — Está bem.

PELO TETO ABERTO ao céu vi passar revoadas de tordos, esses pássaros que voam ao entardecer antes que a escuridão feche seus caminhos para eles. Depois, umas quantas nuvens já esfiapadas pelo vento que vem para levar o dia embora. Depois apareceu a estrela da tarde e mais tarde a lua.

O homem e a mulher não estavam comigo. Saíram pela porta que dava ao quintal e quando retornaram já era noite. Assim, não souberam o que aconteceu enquanto estavam lá fora.

E foi isto o que aconteceu:

Vindo da rua, uma mulher entrou no quarto. Era velha de muitos anos, e magra como se tivessem curtido e encolhido seu couro. Entrou e passeou seus olhos redondos pelo quarto. Pode ser até que tenha me visto. Pode ser até que tenha achado que eu estava dormindo. Foi direto até onde estava a cama e tirou de debaixo dela um baú forrado de couro. Revirou-o. Pôs uns lençóis debaixo do braço e foi andando na ponta dos pés para não me acordar.

Eu fiquei teso, aguentando a respiração, procurando olhar para o outro lado. Até que enfim consegui torcer a cabeça e ver até lá, até onde a estrela da tarde tinha se juntado com a lua.

— Tome isso! — ouvi.

Não me atrevi a voltar a cabeça.

— Tome! Vai fazer bem. É água de flor de laranjeira. Sei que você está assustado porque está tremendo. Com isso o medo vai sumir.

Reconheci aquelas mãos e ao erguer os olhos reconheci a cara. O homem, que estava atrás dela, perguntou:

— O senhor está se sentindo mal?

— Não sei. Vejo coisas e gente onde talvez vocês não vejam nada. Acaba de passar por aqui uma senhora. Vocês devem ter visto quando ela saiu.

— Venha cá — disse ele para a mulher. — Deixa ele sozinho. Deve ser um místico.

— A gente devia é deitá-lo na cama. Olha só como ele treme, na certa tem um febrão.

— Não dê confiança a ele. Esses sujeitos se põem nesse estado para chamar a atenção. Conheci um na Media Luna que se dizia adivinho. O que nunca adivinhou foi que ia morrer assim que o patrão descobriu que ele era um trapaceiro. Esse aí há de ser um desses místicos. Passam a vida recorrendo povoados “para ver o que a Providência Divina quer dar a vocês”; mas aqui não vai achar nem quem mate a sua fome. Está vendo como parou de tremer? É que está escutando a gente.

COMO SE O TEMPO tivesse retrocedido. Tornei a ver a estrela ao lado da lua. As nuvens se desfazendo. As revoadas de tordos. E em seguida a tarde, ainda cheia de luz.

As paredes refletindo o sol da tarde. Meus passos ressoando nas pedras. O tropeiro que me dizia: “Procure a dona Eduviges, se é que ela ainda está viva!”

Depois um quarto escuro. Uma mulher roncando ao meu lado. Notei que sua respiração era desigual como se estivesse entre sonhos, ou como se não dormisse e só imitasse os ruídos que o sono produz. A cama era de palha coberta com sacos de estopa que cheiravam a urina, como se nunca tivessem sido arejados ao sol; e o travesseiro era um trapo que envolvia uma paina ou lã tão dura ou tão suada que tinha endurecido feito pau.

Junto aos meus joelhos sentia as pernas nuas da mulher, e junto à minha cara a sua respiração. Sentei-me na cama apoiando-me naquela espécie de adobe do travesseiro.

— O senhor não dorme? — ela me perguntou.

— Não tenho sono. Dormi o dia inteiro. Onde está o seu irmão?

— Saiu por aí. O senhor ouviu onde ele tinha de ir. Talvez não volte esta noite.

— Quer dizer que acabou indo mesmo? Apesar da senhora?

— É. E talvez não volte. Assim foi com todos. Que vou até aqui, que vou até ali. Até que foram se afastando tanto que no fim não voltaram. Ele sempre quis ir embora, e acho que agora chegou a vez. Talvez sem que eu soubesse, me deixou com o senhor para que o senhor cuidasse de mim. Viu que era a oportunidade. Essa história do bezerro fujão foi só um pretexto. O senhor vai ver como ele não volta.

Quis dizer a ela: “Vou sair para buscar um pouco de ar, porque sinto náuseas”, mas disse: — Não se preocupe. Ele volta.

Quando me levantei, ela me disse:

— Deixei alguma coisa em cima do braseiro. É muito pouco; mas pode ser que acalme a sua fome.

Encontrei um pedaço de carne-seca e em cima das brasas umas tortilhas.

— São as coisas que consegui — ouvi que ela dizia lá de onde estava. — Troquei com minha irmã por dois lençóis limpos que eu tinha guardado desde os tempos da minha mãe. Ela deve ter vindo aqui buscar. Não quis dizer nada na frente de Donis; mas foi ela a mulher que o senhor viu e que o assustou tanto.

Um céu negro, cheio de estrelas. E ao lado da lua, a maior estrela de todas.

— ESTÁ ME OUVINDO? — perguntei em voz baixa.

E sua voz me respondeu:

— Onde você está?

— Estou aqui, no seu povoado. Com a sua gente. Não está me vendo?

— Não, filho, não vejo você.

Sua voz parecia cobrir tudo. Perdia-se mais além da terra. — Não vejo você.

REGRESSEI AO PEDAÇO DE TETO onde aquela mulher dormia e disse a ela:

— Vou ficar aqui, no meu mesmo canto. Afinal, a cama está tão dura como o chão. Se precisar de alguma coisa, me avise.

Ela me disse:

— Donis não vai voltar. Vi em seus olhos. Estava esperando alguém chegar para ir embora. Agora você é que vai cuidar de mim. Ou não quer cuidar de mim? Venha dormir aqui comigo.

— Estou bem aqui.

— É melhor você subir na cama. Aí, vai ser comido pelos carrapatos. Então fui e me deitei com ela.

O CALOR ME FEZ acordar por volta da meia-noite. E o suor. O corpo daquela mulher, feito de terra, envolvido em crostas de terra, se desfazia como se estivesse derretendo num charco de lodo. Eu me sentia nadar no meio do suor que jorrava dela e me faltou o ar que se necessita para respirar. Então me levantei. A mulher dormia. De sua boca borbotava um ruído de borbulhas muito parecido ao estertor.

Saí à rua; mas o calor que me perseguia não desgrudava de mim.

E é que não havia ar; só a noite entorpecida e quieta, acalorada pelas altas temperaturas de agosto.

Não havia ar. Tive de sorver o mesmo ar que saía da minha boca, parando-o com as mãos antes que ele fosse embora. Sentia o ar indo e vindo, cada vez menos; até que se fez tão fino que se filtrou entre meus dedos para sempre.

Digo para sempre.

Tenho memória de haver visto algo assim como nuvens espumosas fazendo redemoinhos sobre a minha cabeça e depois enxaguar-me com aquela espuma e me perder em sua nuvarada. Foi a última coisa que vi.

ESTÁ QUERENDO que eu acredite que o que matou você foi a sufocação, Juan Preciado? Eu encontrei você na praça, muito longe da casa de Donis, e comigo também estava ele, dizendo que você estava se fazendo de morto. Nós dois arrastamos você até a sombra do portal, já bem teso, retorcido daquele jeito em que morrem os que morrem mortos de medo. Se não tivesse havido ar para respirar naquela noite que você está falando, teriam faltado forças para que nós carregássemos você, quanto mais para enterrá-lo. Você está vendo, nós enterramos você.

— Tem razão, Doroteo. Você disse que se chama Doroteo?

— Dá na mesma. Só que meu nome é Dorotea. Mas dá na mesma.

— Pois é verdade, Dorotea. Os murmúrios me mataram.

Lá você vai encontrar a minha querência. O lugar que eu amei. Onde os meus sonhos emagreceram. Meu povoado, levantado sobre a planície. Cheio de árvores e de folhas, como um cofre onde guardamos nossas memórias. Você vai sentir que ali a gente gostaria de viver para a eternidade. O amanhecer; a manhã; o meio-dia e a noite, sempre os mesmos; mas com a diferença do ar. Lá, onde o ar muda a cor das coisas; onde a vida se ventila como se fosse um murmúrio; como se fosse um puro murmúrio da vida…

— Sim, Dorotea. Os murmúrios sussurrados me mataram. Embora eu trouxesse um medo atrasado. Tinha vindo se juntando, até que não aguentei mais. E quando me encontrei com os murmúrios minhas cordas arrebentaram.

“Cheguei na praça, você tem razão. Fui levado até lá pelo alvoroço das gentes e achei que de verdade havia gente. Eu já não estava muito em meus eixos; recordo que vim me apoiando nas paredes como se caminhasse com as mãos. E os sussurros pareciam destilar das paredes, como se se filtrassem entre as gretas e os descascados abertos no reboco. Eu os ouvia. Eram vozes de gente; mas não vozes claras, e sim secretas, como se me murmurassem alguma coisa ao passar, ou como se zumbissem contra os meus ouvidos. Afastei-me das paredes e continuei pelo meio da rua; mas ouvia do mesmo jeito, do mesmo jeito que se estivessem vindo comigo, adiante ou atrás de mim. Não sentia calor, como disse antes; antes pelo contrário, sentia frio. Desde que saí da casa daquela mulher que me emprestou sua cama e que, como dizia, vi se desfazendo na água de seu suor, desde então fiquei com frio. E conforme eu andava, o frio aumentava mais e mais, até me deixar a pele toda arrepiada. Quis retroceder porque achei que voltando poderia encontrar o calor que eu tinha acabado de deixar; mas reparei, assim que comecei a andar, que o frio saía de mim, do meu próprio sangue. Então reconheci que estava assustado. Ouvi o alvoroço maior na praça e achei que ali, no meio das pessoas, o medo iria diminuir. Por isso é que vocês me encontraram na praça. Quer dizer então que Donis acabou voltando? A mulher tinha certeza de que jamais tornaria a vê-lo.

— Já era de manhã quando encontramos você. Ele estava vindo sei lá de onde. Não perguntei.

— Bem, então cheguei na praça. Encostei-me num pilar tios portais. Vi que não havia ninguém, embora continuasse ouvindo o burburinho como de muita gente em dia de feira. Um rumor parelho, sem tom nem som, parecido ao que o vento faz contra os galhos de uma árvore na noite, quando a gente não vê nem a árvore nem os galhos, mas ouve o seu farfalhar. Assim. Não dei mais nem um passo. Comecei a sentir que chegava perto de mim e dava voltas ao meu redor aquele zunzum apertado como de um enxame, até que consegui distinguir umas palavras quase vazias de ruído: “Rogai a Deus por nós.” Ouvi que era isso que me diziam. Então minha alma gelou. Foi por isso que vocês me acharam morto.

— Teria sido melhor se você não tivesse saído da sua terra. O que veio fazer aqui?

— Eu já disse no começo. Vim procurar Pedro Páramo, que ao que parece foi meu pai. Vim trazido pela ilusão.

— Ilusão? Isso custa caro. A mim custou viver mais do que o devido. Paguei com isso a dívida de encontrar meu filho, que não foi, por assim dizer, nada além de uma ilusão a mais; porque nunca tive filho algum. Agora que estou morta me deu tempo para pensar e ficar sabendo de tudo. Nem mesmo o ninho para guardá-lo Deus me deu. Só esta longa vida arrastada que tive, levando daqui para lá meus olhos tristes que sempre olharam de viés, como buscando atrás das pessoas, suspeitando que alguém tivesse me escondido meu menino. E tudo por culpa do maldito sonho. Tive dois: um deles eu chamo de “bendito” e o outro de “maldito”. O primeiro foi o que me fez sonhar que tinha tido um filho. E, enquanto vivi, nunca deixei de acreditar que fosse de verdade; porque o senti entre meus braços, novinho, terno, cheio de boca e de olhos e de mãos; durante muito tempo conservei em meus dedos a impressão de seus olhos adormecidos e o palpitar de seu coração. Como não ia pensar que aquilo fosse verdade? Eu o levava comigo aonde quer que fosse, envolto no meu xale, e de repente o perdi. No céu me disseram que tinham se enganado comigo. Que tinham me dado um coração de mãe, mas um seio de uma qualquer. Esse foi o outro sonho que tive. Cheguei ao céu e fui ver se entre os anjos reconhecia a cara de meu filho. E nada. Todas as caras eram iguais, feitas com a mesma forma. Então perguntei. Um daqueles santos se aproximou de mim e, sem me dizer nada, afundou uma das mãos no meu estômago, como se a tivesse afundado num montão de cera. Ao tirá-la, mostrou algo assim como uma casca de noz: “Isto prova o que se demonstra.”

“Você sabe como eles falam esquisito lá em cima; mas dá para entender. Quis dizer a eles que aquilo era só o meu estômago enrugado pela fome e pelo pouco que comi; mas outro daqueles santos me empurrou pelos ombros e me mostrou a porta de saída: ‘Vai descansar um pouco mais na terra, filha, e procure ser boa para que seu purgatório não seja tão longo.’

“Esse foi o sonho ‘maldito’ que tive e do qual tirei a explicação de que nunca havia tido nenhum filho. Soube quando já era demasiado tarde, quando meu corpo tinha se desmedrado, quando a espinha saltou por cima da minha cabeça, quando já não podia caminhar. E de arremate, o povoado foi ficando solitário; todos tomaram caminho para outros rumos e com eles foi-se embora também a caridade da qual eu vivia. Então me sentei para esperar a morte. Depois que encontramos você, meus ossos se revolveram e ficaram quietos. ‘Ninguém me dará importância’, pensei. Sou uma coisa que não estorva ninguém. Você vê, nem mesmo roubei espaço aqui na terra. Fui enterrada na mesma sepultura que você e coube muito bem no oco dos seus braços. Aqui neste canto, onde você me vê agora. Só me ocorre que deveria ser eu que estivesse abraçando você. Está me ouvindo? Lá fora está chovendo. Você não sente o bater da chuva?

— Sinto como se alguém caminhasse em cima de nós.

— Deixe de ter medo. Ninguém mais pode botar medo em você. Trate de pensar em coisas agradáveis porque vamos estar muito tempo enterrados.

AO AMANHECER, grossas gotas de chuva caíram sobre a terra. Soavam ocas ao estampar-se no pó branco e solto dos sulcos. Um pássaro brincalhão cruzou no rés do chão e gemeu imitando o queixume de uma criança; um pouco adiante ouviu-se que ele dava gemidos como de cansaço, e ainda mais longe, lá onde o horizonte começava a se abrir, soltou um soluço e depois uma gargalhada, para tornar a gemer depois.

Fulgor Sedano sentiu o cheiro da terra e saiu para ver como a chuva deflorava os sulcos. Seus olhos pequenos se alegraram. Até aspirou três bocadas daquele sabor e sorriu até mostrar os dentes.

“Que coisa!” — disse ele. “Outro bom ano está chegando.” E acrescentou: “Vem, aguinha, vem. Deixe-se cair até cansar! Depois corre mais para lá, lembre-se que abrimos a terra inteira para a lavoura, só para você se dar esse gostinho.” E soltou o riso.

O pássaro brincalhão que acabava de percorrer os campos passou quase na frente dele e gemeu um gemido desgarrado.

A água apertou sua chuva até que lá por onde começava o amanhecer, o céu se fechou e pareceu que a escuridão, que já estava indo embora, regressava.

A porta grande da Media Luna rangeu ao abrir, empapada pela brisa. Foram saindo primeiro dois, depois outros dois, e mais outros dois, e assim até somarem duzentos homens a cavalo que se esparramaram pelos campos chuvosos.

— É preciso arrebanhar o gado do Enmedio para lá do que foi Estagua, e o de Estagua é preciso encurralar lá para os montes de Vilmayo — ia ordenando Fulgor Sedano conforme eles saíam. — E agora mesmo, que as águas estão despencando em cima de nós!

Disse isso tantas vezes que os últimos só ouviam: “Daqui para lá e de lá para mais para lá!”

Todos e cada um levavam a mão ao chapelão para dar a entender que tinham entendido.

E quando o último homem mal havia acabado de sair, entrou a todo galope Miguel Páramo, que, sem deter sua carreira, apeou do cavalo quase no nariz de Fulgor, deixando que o cavalo buscasse sozinho seu cocho.

— E de onde você vem a essas horas, rapaz?

— De ordenhar.

— Ordenhar quem?

— Você não adivinha?

— Deve ser de ordenhar a Dorotea Perneta, a única que gosta de bebês.

— Você é um imbecil, Fulgor; mas não por culpa sua.

E saiu, sem tirar as esporas, atrás de almoço.

Na cozinha, Damiana Cisneros também fez a ele a mesma pergunta:

— Vindo de onde, Miguel?

— De aí pelas vizinhanças, visitando mães.

— Não é para se zangar. Disfarce. Como quer que eu prepare os ovos?

— Do jeito que você gosta.

— Estou falando direito com você, Miguel.

— Está bem, Damiana. Não se preocupe. Escuta aqui, você conhece uma tal de Dorotea Perneta?

— Conheço. E se você quiser vê-la, está logo aí fora. Madruga sempre para vir até aqui atrás do café da manhã. É uma que traz um embrulhinho de pano dentro do xale e fica embalando e dizendo que é seu filho. Parece que aconteceu alguma desgraça lá em seus tempos; mas, como nunca fala, ninguém sabe o que aconteceu. Vive de esmola.

— Maldito velho! Vou armar uma para ele que vai ser de fazer redemoinho em seus olhos.

Depois ficou pensando se aquela mulher não lhe serviria para alguma coisa. E, sem duvidar um instante, foi até a porta dos fundos da cozinha e chamou Dorotea:

— Venha até aqui, que eu quero propor um trato — disse a ela.

E quem saberá que tipo de proposta faria, mas o fato é que quando entrou de novo esfregava as mãos:

— Mande logo esses ovos! — gritou para Damiana. E acrescentou: — De hoje em diante você vai dar de comer a essa mulher a mesma coisa que dá para mim, e não importa o que aconteça.

Enquanto isso, Fulgor Sedano foi até o celeiro revisar a altura do milho. Estava preocupado com a escassez porque ainda faltava muito para a colheita. Para falar a verdade, mal haviam acabado de semear. “Quero só ver se dá.” Depois, continuou: “Esse rapaz! Igualzinho ao pai; mas começou cedo demais. A esse passo, acho que não vai conseguir. Esqueci de mencionar a ele que ontem chegaram aqui com a acusação de que ele tinha matado alguém. Se continuar assim…”

Suspirou e tratou de imaginar por onde andariam os vaqueiros. Mas o potro alazão de Miguel Páramo, que raspava o focinho contra a cerca, o distraiu. “Nem para tirar a sela”, pensou. “E não vai tirar. Pelo menos dom Pedro é mais responsável com a gente, e tem lá seus momentos de calma. Só que mima muito esse Miguel. Ontem contei a ele o que o filho tinha feito, e me respondeu: ‘Pense que fui eu, Fulgor; ele é incapaz de fazer isso: ainda não tem nem força para matar alguém. Para isso é preciso ter os rins deste tamanhão.’ Pôs as mãos assim, como se medisse uma abóbora. ‘Bote em mim a culpa de tudo que ele fizer’.”

— Miguel há de lhe dar muitas dores de cabeça, dom Pedro. Ele gosta de criar caso.

— Deixa ele se mexer. É só um menino. Quantos anos fez? Deve ser uns 17. Não é isso, Fulgor?

— Pode ser. Lembro que foi trazido logo depois de nascer, como se fosse ontem; mas é tão violento e vive tão depressa que às vezes acho que está apostando corrida com o tempo. Vai acabar perdendo, o senhor haverá de ver.

— Ainda é uma criança, Fulgor.

— Será o que o senhor quiser, dom Pedro; mas essa mulher que veio ontem chorar aqui, alegando que o senhor seu filho tinha matado seu marido, estava desconsolada e sem remédio. Eu sei medir o desconsolo, dom Pedro. E essa mulher carregava quilos dele. Ofereci a ela 50 hectolitros de milho para que esquecesse o assunto; mas ela não quis. Então prometi que arranjaríamos um jeito de corrigir o dano. Mas ela não se conformou.

— De quem se tratava?

— É gente que eu não conheço.

— Então você não tem por que se preocupar, Fulgor. Essa gente não existe.

Chegou ao celeiro e sentiu o calor do milho. Tomou em suas mãos um punhado para ver se não tinha sido pego pelo gorgulho. Mediu a altura: “Renderá” disse. “Assim que o pasto crescer não vamos mais precisar de dar milho para o gado. Tem de sobra.”

De volta olhou o céu cheio de nuvens: “Teremos água durante um bom tempo.” E se esqueceu de todo o resto.

— LÁ FORA O TEMPO deve estar mudando. Minha mãe me dizia que, assim que começava a chover, tudo se enchia de luzes e do cheiro verde dos brotos e botões. Contava como chegava a maré de nuvens, como despencavam sobre a terra e a descompunham trocando suas cores… Minha mãe, que viveu sua infância e seus melhores anos neste povoado e que não pôde nem vir morrer aqui. Até para isso me mandou em seu lugar. É curioso, Dorotea, mas não consegui nem ver o céu. Pelo menos, talvez, deve ser o mesmo que ela conheceu.

— Sei não, Juan Preciado. Fazia tantos anos que não erguia o rosto, que me esqueci do céu. E mesmo que eu tivesse erguido, o que haveria de ganhar? O céu está tão alto, e meus olhos tão sem olhar, que vivia contente só de saber onde ficava a terra. Além do mais, perdi todo o interesse depois que o padre Rentería me assegurou que eu jamais conheceria a glória.

Que nem de longe a veria… Foi coisa dos meus pecados; mas ele não devia ter me dito. A vida já é dura o bastante. A única coisa que faz com que a gente mova os pés é a esperança de que ao morrer nos levem de um lugar a outro; mas quando fecham para a gente uma porta e a que continua aberta é só a do inferno, mais valeria não ter nascido… O céu para mim, Juan Preciado, está aqui onde estou agora.

— E a sua alma? Onde acha que ela foi parar?

— Deve andar vagando pela terra como tantas outras; buscando vivos que rezem por ela. Talvez me odeie pelos maus-tratos que dei a ela; mas isso já não me preocupa. Descansei do vício de seus remorsos. Eu me amargava até por causa do pouco que comia, e fazia minhas noites insuportáveis enchendo-as de pensamentos intranquilos com figuras de condenados e coisas assim. Quando me sentei para morrer, ela rogou que eu me levantasse e que continuasse arrastando a vida, como se esperasse ainda por algum milagre que me limpasse de culpas. Nem tentei: “Aqui o caminho se acaba” disse para ela. “Não me restam forças para mais.” E abri a boca para que minha alma fosse embora. E ela foi. Senti quando caiu em minhas mãos o fiozinho de sangue com que estava amarrada ao meu coração.

BATERAM NA PORTA; mas ele não respondeu. Ouviu que continuaram batendo em todas as portas, acordando as pessoas. A correria de Fulgor — reconheceu os seus passos — até a porta grande se deteve um momento, como se tivesse intenção de tornar a bater na sua porta.

Depois, a correria continuou.

Rumor de vozes. Arrastar de passos vagarosos como se carregassem algo pesado.

Ruídos vagos.

Veio à sua memória a morte de seu pai, também num amanhecer como aquele; embora naquela época a porta estivesse aberta e transluzia a cor acinzentada de um céu feito de cinzas, triste, do jeito que era. E uma mulher contendo o pranto, recostada contra a porta. Uma mãe de que ele já tinha se esquecido e esquecido muitas vezes, dizendo a ele: “Mataram o seu pai!” Com aquela voz quebrada, desfeita, unida apenas pelo fiapo do soluço.

Não quis nunca reviver essa lembrança porque trazia outras, como se rompesse um silo repleto e depois quisesse conter os grãos. A morte de seu pai que arrastou outras mortes e em cada uma delas estava sempre a imagem da cara despedaçada: um olho roto, olhando vingativo para o outro. E outro e outro mais, até que havia apagado essa imagem da memória quando já não houve mais ninguém que a recordasse.

— Descansa ele aqui! Não, assim não. É preciso entrar com a cabeça para trás. Você! Está esperando o quê?

Tudo em voz baixa.

— E ele?

— Ele está dormindo. Não o acordem. Não façam barulho.

Lá estava ele, enorme, olhando a manobra de enfiar um vulto embrulhado em sacos velhos, amarrado com cordas de cânhamo como se estivesse sendo amortalhado.

— Quem é? — perguntou.

Fulgor Sedano se aproximou e disse a ele:

— É Miguel, dom Pedro.

— O que foi que fizeram com ele? — gritou.

Esperava ouvir: “Mataram.” E já estava reunindo sua fúria, armando duras montanhas de rancor; mas ouviu as palavras suaves de Fulgor Sedano, que lhe diziam:

— Ninguém fez nada com ele. Ele encontrou a morte sozinho.

Havia lamparinas de querosene azulando a noite.

— … O cavalo matou-o — um deles se atreveu a dizer.

Foi estendido na cama, depois de terem jogado o colchão no chão, deixando as tábuas nuas onde acomodaram o corpo já desprendido das cordas com que vinha sendo puxado e arrastado. Colocaram suas mãos sobre o peito e taparam sua cara com um pano negro. “Parece maior do que era”, disse em segredo Fulgor Sedano.

Pedro Páramo tinha ficado sem expressão alguma, como se estivesse alheio ao redor.

Seus pensamentos seguiam-se uns a outros sem se alcançar nem se juntar. No fim disse: — Estou começando a pagar. Mais vale começar cedo, para terminar logo.

Não sentiu dor.

Quando falou às pessoas reunidas no pátio para agradecer a companhia, abrindo passo para a voz através do pranto das mulheres, não cortou nem o suspirar de suas palavras. Depois se ouviu naquela noite apenas o campear dos cascos do potrinho alazão de Miguel Páramo na terra.

— Amanhã você manda matar esse animal para que não continue sofrendo — ordenou a Fulgor Sedano.

— Está bem, dom Pedro. Entendo. O coitado deve sentir-se desolado.

— É o que eu também acho, Fulgor. E aproveita para dizer a essas mulheres que não armem tanto escândalo, é alvoroço demais para o meu morto. Se fosse delas, não chorariam com tanta vontade.

O PADRE RENTERÍA iria se lembrar muitos anos depois da noite em que a dureza de sua cama o manteve acordado e depois obrigou-o a sair. Foi a noite em que morreu Miguel Páramo.

Percorreu as ruas solitárias de Comala, espantando com seus passos os cães que fuçavam o lixo. Chegou até o rio e ali se entreteve olhando nos remansos o reflexo das estrelas que estavam caindo do céu. Levou várias horas lutando com seus pensamentos, jogando-os na água negra do rio.

“O assunto começou” pensou “quando Pedro Páramo, de coisa baixa que era, alçou-se a maior. Foi crescendo feito praga. O ruim disso é que obteve tudo de mim: ‘Confesso, padre, que ontem dormi com Pedro Páramo.’ ‘Confesso, padre, que tive um filho de Pedro Páramo.’ ‘Que emprestei minha filha a Pedro Páramo.’ Sempre esperei que ele viesse para confessar de alguma coisa; mas não fez isso nunca. E depois estendeu os braços de sua maldade com esse filho que teve. O filho que ele reconheceu, sabe Deus por quê. O que eu sei é que pus em suas mãos esse instrumento.”

Lembrava-se perfeitamente do dia em que ele tinha levado o filho, recém-nascido.

Tinha dito a ele:

— Dom Pedro, a mãe morreu ao dar à luz. Disse que era seu. Aqui está ele.

E ele nem titubeou, disse apenas:

— E por que o senhor não fica com ele, padre? Faça-o cura.

— Com o sangue que está dentro dele, não quero assumir essa responsabilidade.

— Mas o senhor acha mesmo meu sangue ruim?

— Realmente, sim, dom Pedro.

— Pois vou provar que não é verdade. Deixe o menino comigo. Sobra gente que se encarregue de cuidar dele.

— Pois foi precisamente o que pensei. Pelo menos com o senhor não lhe faltará sustento.

O menininho se retorcia, pequeno como era, feito uma víbora.

— Damiana! Tome conta dessa coisa. É meu filho.

Depois havia aberto uma garrafa:

— Pela finada e pelo senhor, tomarei este gole.

— E por ele?

— Por ele também, por que não?

Encheu outra taça e os dois beberam pelo porvir daquela criatura.

Assim foi.

Começaram a passar as carretas rumo à Media Luna. Ele se agachou, escondendo-se no remanso do rio. “De quem você se esconde?”, perguntou a si mesmo.

— Salve, padre! — ouviu que diziam a ele.

Ergueu-se da terra e respondeu:

— Salve! Que o Senhor te abençoe.

As luzes do povoado estavam apagando-se. O rio encheu sua água de cores luminosas.

— Padre, já deram a alvorada? — perguntou outro dos carreteiros.

— Já deve ser muito depois da alvorada — respondeu ele. E caminhou em sentido contrário ao deles, com intenção de não se deter.

— Indo para onde tão cedo, padre?

— Onde está o moribundo, padre?

— Morreu alguém em Contla, padre?

Bem que gostaria de ter respondido: “Eu. O morto sou eu.” Mas se conformou com sorrir. Ao sair do povoado precipitou seus passos.

Regressou já avançada a manhã.

— Onde é que o senhor esteve, tio? — perguntou-lhe Ana, sua sobrinha. — Muitas mulheres vieram atrás do senhor. Queriam confessar porque amanhã é a primeira sexta-feira.

— Pois que voltem logo mais à noite.

Ficou quieto um tempinho, sentado num banco do corredor, cheio de fadiga.

— Como o ar está fresco, não é mesmo, Ana?

— Está um calorão, tio.

— Eu não sinto.

Não queria pensar de jeito nenhum que havia estado em Contla, onde fez confissão geral com o senhor pároco, e que ele, apesar de seus rogos, tinha-lhe negado a absolvição:

— Este homem de quem você não quer mencionar o nome despedaçou a sua Igreja e você deixou. O que se pode esperar de você, padre? O que é que você fez da força de Deus? Quero me convencer de que você é bom e que recebe, lá, a estima de todos; mas não basta ser bom. O pecado não é bom. E para acabar com ele, há de ser duro e impiedoso. Quero acreditar que todos continuam sendo crentes; mas não é você quem mantém a sua fé; eles mantêm a fé por superstição e por medo. Quero além do mais estar com você na pobreza em que você vive e no trabalho e nos cuidados que você labuta todos os dias em seu compromisso. Sei como é difícil essa nossa tarefa nesses pobres povoados onde nos abandonaram; mas isso mesmo me dá o direito de dizer a você que não se deve entregar nossos serviços a uns poucos, que nos darão um pouco a troco da nossa alma, e que com a nossa alma nas mãos deles o que é que você poderá fazer para ser melhor que aqueles que são melhores do que você? Não, padre, minhas mãos não são suficientemente limpas para dar a sua absolvição. Você vai ter de procurar em outro lugar.

— Então o senhor está querendo dizer, senhor pároco, que tenho de ir buscar confissão em outras bandas?

— Tem. Não pode continuar consagrando os outros, se você próprio estiver em pecado.

— E se suspenderem meus ministérios?

— Não acredito que façam isso, embora talvez você mereça. Fica a critério deles.

— Será que o senhor não poderia…? Provisoriamente, digamos… Necessito dar os santos óleos… a comunhão. No meu povoado morrem tantos, senhor pároco.

— Padre, deixe os mortos ao julgamento de Deus.

— Então é não?

E o senhor cura de Contla havia dito que não.

Depois os dois passearam pelos corredores da paróquia, sombreados pelas azaleias. Sentaram-se debaixo de um caramanchão, onde as uvas amadureciam.

— São ácidas, padre — antecipou-se o senhor cura à pergunta que ele ia lhe fazer. — Vivemos em uma terra que tudo dá, graças à Providência; mas tudo dá com acidez. Estamos condenados a isso.

— Tem razão, senhor cura. Lá em Comala tentei plantar uvas. Não dão. Por lá só cresce goiaba e laranja; laranjas amargas e goiabas amargas. Eu já me esqueci do sabor das coisas doces. O senhor se lembra das goiabas da China, tão vermelhas, que nós tínhamos no seminário? Os pêssegos, e aquelas tangerinas que só de apertar já soltavam a casca. Eu trouxe para cá algumas sementes. Poucas; só um saquinho… depois pensei que talvez tivesse sido melhor deixá-las por lá, onde amadureceriam, pois trouxe para cá só para que morressem.

— E no entanto, padre, dizem que as terras de Comala são boas. Pena que estejam nas mãos de um homem só. Pedro Páramo ainda é o dono, não é?

— Esta é a vontade de Deus.

— Não acho que a vontade de Deus intervenha nesse caso. O senhor também não acha, padre?

— Às vezes, duvidei; mas lá acham e reconhecem.

— E você está entre os que acham e reconhecem?

— Eu sou um pobre homem disposto a se humilhar, cada vez que sinto o impulso para fazer isso.

Depois tinham se despedido. Ele, tomando as mãos do pároco e beijando-as. E apesar disso, agora, aqui, de volta à realidade, não queria tornar a pensar naquela manhã de Contla. Levantou-se e foi até a porta.

— Indo aonde, tio?

Sua sobrinha Ana, sempre presente, sempre ao lado dele, como se buscasse a sua sombra para defender-se da vida.

— Vou caminhar um pouco, Ana. Para ver se desse jeito desafogo.

— Está se sentindo mal?

— Mal, não, Ana. Mau. Um homem mau. Estou sentindo que sou isso.

Foi até a Media Luna e deu os pêsames a Pedro Páramo. Tomou a ouvir as desculpas pelas culpas que tinham posto em seu filho. Deixou-o falar. Afinal, nada mais tinha importância. Em compensação, recusou o convite para comer com ele:

— Não posso, dom Pedro, preciso estar cedo na igreja, porque estou com um montão de mulheres me esperando ao lado do confessionário. Fica para a próxima.

Saiu a caminho, e quando entardecia entrou direto na igreja, tal como estava, coberto de poeira e de miséria. Sentou-se para confessar.

A primeira que se aproximou foi a velha Dorotea, que sempre andava por ali esperando que as portas da igreja se abrissem.

Sentiu que cheirava a álcool.

— Como é, já está bêbada? Desde quando?

— É que eu estive no velório de Miguelzinho, padre. E fui além da conta, padre. É que me deram tanto de beber, que até virei palhaça.

— Você nunca foi outra coisa, Dorotea.

— Mas é que agora trago pecados, padre. E de sobra.

Em várias ocasiões ele tinha dito a ela: “Não se confesse, Dorotea, que você só vem me fazer perder tempo. Você já não consegue cometer nenhum pecado, nem querendo. Deixe espaço para os outros.”

— Agora sim, padre. É de verdade.

— Pois diga.

— Já que não posso causar nenhum mal ao finado, vou dizer ao senhor que era eu, a Dorotea, quem conseguia as moças ao falecido Miguelzinho Páramo.

O padre Rentería, que estava pensando em dar-se um momento para pensar, pareceu sair de seus sonhos e perguntou quase por hábito:

— Desde quando?

— Desde que ele virou rapazinho. Desde que pegou a febre dessa coisa.

— Torne a repetir o que acabou de dizer, Dorotea.

— Pois que era eu a que conseguia as moças para o Miguelzinho.

— Você as levava?

— Algumas vezes, sim. Outras, só apalavrava. E de outras, eu dava o norte. O senhor sabe: a hora em que ficavam sozinhas e ele podia agarrá-las descuidadas.

— Foram muitas?

Não queria ter dito isso; mas a pergunta saiu por costume.

— Até perdi a conta. Foram muitas e muitas mais.

— O que quer que eu faça com você, Dorotea? Seja seu próprio juiz. Veja se consegue se perdoar.

— Eu, não, padre. Mas o senhor, sim, pode. Por isso vim.

— Quantas vezes você veio até aqui me pedir que a mandasse para o céu quando você morresse? Queria ver se lá nos céus encontrava seu filho, não é isso, Dorotea? Pois bem: você não pode mais ir para o céu. Que Deus a perdoe.

— Obrigada, padre.

— Está bem. Eu também perdoo você, em nome dEle. Pode ir.

— Não vai me deixar nenhuma penitência?

— Você não precisa, Dorotea.

— Obrigada, padre.

— Vá com Deus.

Bateu na janelinha do confessionário com os nós dos dedos para chamar outra daquelas mulheres. E enquanto ouvia o Eu pecador, sua cabeça dobrou-se como se não conseguisse manter-se no alto. Depois veio aquela tontura, aquela confusão, o ir-se diluindo como em água espessa, e o corrupiar das luzes; a luz inteira do dia que se desmanchava fazendo-se cacos; e aquele sabor de sangue na língua. O Eu pecador ouvia-se mais forte, repetido, e depois terminava: “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos dos séculos, amém”; “pelos séculos…”

— Agora, calada — disse. — Há quanto tempo você não se confessa?

— Dois dias, padre.

Lá estava ela de novo. Como se a desventura o rodeasse. “O que você está fazendo aqui?” disse a si mesmo. “Descanse. Vá descansar. Você está muito cansado.”

Levantou-se do confessionário e foi direto para a sacristia. Sem virar a cabeça disse para aquelas pessoas que estavam esperando por ele:

— Quem se sentir sem pecado pode comungar amanhã. Atrás dele, ouviu-se apenas um murmúrio.

ESTOU DEITADA na mesma cama onde morreu minha mãe, já faz muitos anos; sobre o mesmo colchão; debaixo do mesmo cobertor de lã negra, com o qual nós duas nos envolvíamos para dormir. Então eu dormia ao seu lado, num lugarzinho que ela me fazia debaixo de seus braços.

Acho que ainda sinto o golpe pausado de sua respiração; as palpitações e suspiros com que acalantava meu sono… Penso sentir a pena da sua morte…

Mas isso é falso.

Estou aqui, virada para cima, pensando naquele tempo para esquecer minha solidão. Porque não estou deitada apenas por algum tempo. E nem na cama de minha mãe, mas dentro de um caixão negro como o que se usa para enterrar os mortos. Porque estou morta.

Sinto o lugar onde estou e penso…

Penso em quando os limões amadureciam. No vento de fevereiro que rompia os talos das samambaias, antes que o abandono as secasse; os limões maduros que enchiam o velho pátio com seu perfume.

O vento baixava das montanhas nas manhãs de fevereiro. E as nuvens ficavam lá no alto à espera de que o bom tempo as fizesse descer para o vale; enquanto isso deixavam vazio o céu azul, deixavam que a luz caísse no jogo do vento fazendo círculos sobre a terra, removendo a poeira e batendo os galhos das laranjeiras.

E os pardais riam; bicavam as folhas que a brisa fazia cair, e riam; deixavam suas plumas entre os espinhos dos galhos e perseguiam as borboletas, e riam. Era esse tempo.

Em fevereiro, quando as manhãs estavam cheias de vento, de pardais e de luz azul. Eu me lembro.

Minha mãe morreu nessa época.

Eu devia ter gritado; minhas mãos tinham que ter se despedaçado esmagando sua desesperança. Assim você queria que tivesse sido. Mas por acaso aquela manhã não era alegre? Pela porta aberta entrava o ar, quebrando as varas das heras. Em minhas pernas começava a crescer uma penugem entre as veias, e minhas mãos tremiam cálidas ao tocar meus seios. Os pardais brincavam. Nas colinas as espigas ondulavam. Tive pena porque ela não tornaria a ver o brincar do vento nos jasmins; que fechasse seus olhos para a luz dos dias. Mas por que iria chorar?

Você se lembra, Justina? Você ajeitou as cadeiras ao longo do corredor para que as pessoas que viessem vê-la esperassem a vez. Ficaram vazias. E minha mãe sozinha, no meio dos círios; sua cara pálida e seus dentes brancos mal aparecendo entre seus lábios arroxeados, endurecidos pela morte arroxeada. Suas pestanas já quietas; já quieto seu coração. Você e eu ali, rezando rezas intermináveis, sem que ela ouvisse nada, sem que você e eu ouvíssemos nada, tudo perdido na sonoridade do vento debaixo da noite. Você tinha passado o vestido negro, engomado o decote estreito e o punho das mangas para que as mãos parecessem novas, cruzadas sobre seu peito morto; seu velho peito amoroso, em cima dele eu dormi durante tempos, e que me deu de comer e que palpitou para ninar meus sonhos.

Ninguém veio vê-la. Foi melhor assim. A morte não se reparte como se fosse um bem.

Ninguém anda à procura de tristezas.

Bateram na aldraba. Você saiu.

— Vá você — eu disse. — Eu vejo enevoadas as caras das pessoas. E faça com que elas vão embora. Estão atrás do dinheiro das missas gregorianas? Ela não deixou nenhum dinheiro. Diga a quem estiver aí, Justina. Que ela não vai sair do Purgatório, se não rezarem essas missas? Quem são eles para fazer justiça, Justina? Você acha que eu estou louca? Está bem.

E as cadeiras ficaram vazias até que fomos enterrá-la com aqueles homens alugados, suando por um peso alheio, distantes de qualquer tristeza. Fecharam a sepultura com areia molhada; baixaram o caixão devagar, com a paciência de seu ofício, debaixo da brisa que refrescava seus esforços. Seus olhos frios, indiferentes. Disseram: “Custa tanto.” E você pagou a eles, como quem compra uma coisa, desfazendo o nó do seu lenço úmido de lágrimas, espremido e tornado a espremer e agora guardando o dinheiro dos funerais…

Quando eles foram embora, você ajoelhou-se no lugar onde a cara dela tinha ficado e beijou a terra e poderia ter aberto um buraco, se eu não tivesse dito: “Vamos embora, Justina, ela está em outro lugar, aqui só está uma coisa morta.”

— FOI VOCÊ que disse tudo isso, Dorotea?

— Quem, eu? Adormeci um pouco. Continuam assustando você?

— Ouvi alguém falando. Uma voz de mulher. Achei que era você.

— Voz de mulher? Achou que era eu? Deve ser a que fala sozinha. A da sepultura grande. Dona Susanita. Está enterrada aqui, ao nosso lado. A umidade deve ter chegado até ela, que está se revirando no meio do sono.

— E quem é ela?

— A última esposa de Pedro Páramo. Uns dizem que era louca. Outros, que não. A verdade é que já falava sozinha quando estava viva.

— Deve estar morta há muito tempo.

— Ui, sim! Faz muito tempo. O que você ouviu ela dizer?

— Alguma coisa sobre a mãe dela.

— Mas se ela nem teve mãe…

— Pois era disso que falava.

– … Ou, pelo menos, não trouxe a mãe quando veio para cá. Mas espera aí. Agora lembro que ela nasceu aqui, e que quando estava meio crescidinha desapareceram. E sim, lembro, sua mãe morreu tísica. Era uma senhora muito estranha que sempre foi doente e que não visitava ninguém.

— É o que ela diz. Que ninguém foi ver a sua mãe quando morreu.

— Mas de que tempos será que ela fala? Claro que ninguém apareceu na casa da mãe, de medo de pegar tísica. Será que essa descarada não lembra disso?

— Pois falava disso.

— Quando você tomar a ouvi-la me avisa, que eu gostaria de saber o que ela diz.

— Está ouvindo? Parece que ela vai dizer alguma coisa. Dá para ouvir um murmúrio.

— Não, não é ela. Isso vem de mais longe, lá daqueles lados. E é voz de homem. O que acontece com esses mortos velhos é que quando a umidade chega neles, começam a se remexer. E despertam.

“O céu é grande. Deus esteve comigo naquela noite. Se não fosse isso, quem sabe o que teria acontecido? Porque já era noite quando revivi…” — Está ouvindo mais claro agora?

— Sim.

“… Tinha sangue por tudo que é lado. E ao me levantar, chafurdei com minhas mãos no sangue regado nas pedras. E era meu. Montões de sangue. Mas eu não estava morto. Reparei. Soube que dom Pedro não tinha intenção de me matar. Só de me dar um susto. Queria averiguar se eu tinha estado em Vilmayo dois meses antes. No dia de São Cristóvão. No casamento. Qual casamento? Que São Cristóvão? Eu chafurdava no meu sangue e perguntava a ele: ‘Em qual casamento, dom Pedro?’ Não, não, dom Pedro, eu não fui. Pode até ser que, por acaso, eu tenha passado por lá. Mas foi coincidência… Ele não teve intenção de me matar. Fiquei manco, desse jeito que vocês veem, e sem o uso do braço. Mas não me matou. Dizem que desde então fiquei com um olho torto, por causa do pavor. Mas a verdade é que virei mais homem. O céu é grande. Não tem como duvidar disso.” — Quem será que foi?

— Como vou saber… Um de tantos. Pedro Páramo causou tamanha mortandade depois que mataram seu pai, que falam por aí que ele acabou com quase todos os que estavam no casamento em que dom Lucas Páramo ia ser padrinho. E isso que dom Lucas foi pego meio que sem querer, porque parece que a coisa toda era contra o noivo. E como nunca se soube de onde tinha saído a bala que acertou nele, Pedro Páramo apagou todos. Isso foi lá no morro de Vilmayo, onde havia uns ranchos dos que já não sobrou nem rastro… Olha só, agora, sim, parece que é ela. Você, que tem ouvidos jovens, presta atenção. E depois me conta o que ela disser.

— Não dá para entender. Parece que nem fala, só se queixa.

— E se queixa de quê?

— Pois quem sabe?

— Deve ser de alguma coisa. Ninguém se queixa de nada. Escuta direito.

— Pois se queixa e pronto. Talvez Pedro Páramo tenha feito ela sofrer.

— Não acredite nisso. Ele gostava dela. Quase que eu digo que ele não quis nunca outra mulher como quis essa. É que já entregaram ela sofrida e, vai ver, louca. Tanto gostou dela, que passou o resto de seus anos jogado numa cadeira de assento de couro, olhando o caminho por onde ela foi levada para o campo-santo. Perdeu o interesse por tudo. Desalojou sua terra e mandou queimar os seus trastes e suas coisas. Uns dizem que foi porque ele já estava cansado demais, outros porque ficou desesperado; mas o fato é que pôs o pessoal para fora e sentou-se na sua cadeira de couro, virado de cara para aquele caminho.

“Desde então a terra ficou baldia e arruinada. Dava pena ver a terra enchendo-se de achaques de tanta praga que a invadiu, quando a deixaram abandonada. De lá para cá, as pessoas se consumiram; os homens debandaram à procura de outros ‘bebedouros’. Lembro os dias em que Comala encheu-se de ‘adeuses’ e até nos parecia coisa alegre ir se despedir dos que iam embora. E é que eles iam com a intenção de voltar. Pediam para a gente tomar conta das suas coisas e das famílias. Depois alguns mandavam buscar a família mas não suas coisas, e depois parece que se esqueceram do povoado e de nós, e até de suas coisas. Eu fiquei porque não tinha para aonde ir. Outros ficaram esperando que Pedro Páramo morresse, pois pelo que diziam ele tinha lhes prometido herdar seus bens, e com essa esperança alguns ainda viveram. Mas se passaram anos e anos e ele continuava vivo, sempre ali, feito um espantalho diante das terras da Media Luna.

“E quando já faltava pouco para ele morrer, aconteceram as tais guerras dos ‘cristeiros’[*] e a tropa fez fieira, arrebanhando os poucos homens que sobravam. Foi quando comecei a morrer de fome, e desde então nunca mais tornei a me acasalar.

“E tudo isso por causa das ideias de dom Pedro, por suas guerras da alma. Tudo porque sua mulher morreu, a tal Susanita. Imagina só se ele gostava dela ou não.

FOI FULGOR SEDANO quem disse a ele:

— Patrão, sabe quem anda por aqui?

— Quem?

— Bartolomé San Juan.

— E daí?

— E daí que eu me pergunto o que será que ele veio fazer.

— E você não foi investigar?

— Não. A verdade seja dita. E é que ele não procurou pouso. Chegou direto na sua antiga casa, dom Pedro. Ali desmontou e apeou suas maletas, como se o senhor tivesse alugado para ele de antemão. Pelo menos senti nele essa segurança.

— E o que é que você está fazendo, Fulgor, que não foi descobrir o que acontece? Não é essa a sua função?

— É que eu me desorientei um pouco por causa disso que disse. Mas amanhã mesmo esclareço tudo, se o senhor acha que é necessário.

— O que for para ser feito amanhã você deixa para mim. Eu me encarrego deles. Vieram os dois?

— Sim, ele e a mulher. Mas como é que o senhor sabe?

— Não será a filha dele?

— Pois do jeito que ele a trata, parece mais ser sua mulher.

— Vá dormir, Fulgor.

— Com a sua licença, patrão.

“ESPEREI TRINTA ANOS pelo seu regresso, Susana. Esperei até eu ter tudo. Não somente alguma coisa, mas tudo que se pudesse conseguir de maneira que não nos sobrasse nenhum desejo, só o seu, o desejo por você. Quantas vezes convidei seu pai para tornar a morar aqui, dizendo que precisava dele? Fiz isso até com mentiras.

“Ofereci nomeá-lo administrador, com tal de tomar a ver você. E o que foi que ele me respondeu? ‘Não tem resposta’ me dizia sempre o leva-e-traz recados. ‘O senhor dom Bartolomé rasga as suas cartas, assim que eu as entrego.’ Mas pelo leva-e-traz fiquei sabendo que você tinha casado e logo fiquei sabendo que você tinha ficado viúva e estava outra vez fazendo companhia ao seu pai.

“Depois, o silêncio.

“O leva-e-traz ia e vinha e sempre voltava me dizendo:

“— Não os encontro, dom Pedro. Disseram para mim que saíram de Mascote. E uns me dizem que para cá, e outros, que para lá.

“E eu:

“— Não repare em gastos, vá atrás deles, procure. Nem que a terra tenha engolido os dois.

“Até que um dia veio e me disse:

“— Vasculhei a serra inteira indagando qual o canto em que dom Bartolomé San Juan se esconde, até que dei com ele, lá, perdido num buraco nas montanhas, vivendo numa cova feita de troncos, no mesmo lugar onde estão as minas abandonadas da La Andromeda.

“Já naquela época sopravam ventos raros. Dizia-se por aí que havia gente rebelada e com armas. Os rumores nos chegavam. Foi isso que trouxe o seu pai por aqui. Não por ele, segundo me disse em sua carta, e sim pela sua segurança, queria trazer você de volta à vida entre os vivos.

“Senti que o céu se abria. Tive vontade de correr até você. De rodear você de alegria. De chorar. E chorei, Susana, quando soube que você enfim iria voltar.”

— EXISTEM POVOADOS que têm sabor de infortúnio. A gente os conhece só de sorver um pouco do seu ar velho e intumescido, pobre e magro como tudo que é velho. Este aqui é um desses povoados, Susana.

“Lá, de onde viemos agora, pelo menos você se distraía olhando o nascimento das coisas: nuvens e pássaros, o musgo, lembra? Aqui, porém, você não sentirá nada a não ser esse odor amarelo e azedo que parece destilar por todo lado. É que este é um povoado infeliz; todo sufocado nos infortúnios.

“Ele nos pediu que voltássemos. Emprestou-nos a casa. E nos deu tudo que poderíamos necessitar. Mas não devemos estar agradecidos. Somos desgraçados por estarmos aqui, porque aqui não teremos salvação alguma. Eu pressinto isso.

“Sabe o que Pedro Páramo me pediu? Eu bem que pensei que isso tudo que ele nos dava não era gratuito. E estava disposto que ele cobrasse com meu trabalho, já que de algum modo tínhamos de pagar. Detalhei para ele tudo em relação a La Andromeda, e mostrei que, trabalhando com método, aquilo tinha possibilidades. E sabe o que ele me respondeu? ‘Sua mina não me interessa, Bartolomé San Juan. A única coisa sua que eu quero é a filha. Ela é o seu melhor trabalho.’

“Então, ele quer é você, Susana. Diz que você brincava com ele quando eram crianças. Que conhece você. Que chegaram a tomar banho de rio juntos quando eram pequenos. Eu não fiquei sabendo; se tivesse ficado, mataria você com chibatadas do meu cinturão.

— Não duvido.

— Foi você quem disse: não duvido?

— Eu disse.

— Então você está disposta a se deitar com ele?

— Sim, Bartolomé.

— Você não sabe que ele é casado e que teve uma infinidade de mulheres?

— Sim, Bartolomé.

— Não me chame de Bartolomé. Sou seu pai!

Bartolomé San Juan, um mineiro morto. Susana San Juan, filha de um mineiro morto nas minas de La Andromeda. Enxergava claro. “Terei de ir até lá para morrer”, pensou. Depois ele disse:

— Disse a ele que você, embora viúva, continua vivendo com seu marido, ou pelo menos é assim que se comporta; tratei de dissuadi-lo, mas seu olhar se turva quando falo com ele, e assim que seu nome aparece, ele fecha os olhos. Ele é, pelo que eu sei, a maldade pura. Isso é Pedro Páramo.

— E quem sou eu?

— Você é minha filha. Minha. Filha de Bartolomé San Juan.

Na mente de Susana San Juan começaram a caminhar as ideias, primeiro lentamente, depois se detiveram, para depois começarem a correr de tal maneira que só conseguiu dizer:

— Não é verdade. Não é verdade.

— Este mundo, que nos dilacera por todos os lados, que vai esvaziando punhados de nosso pó aqui e acolá, desfazendo-nos em pedaços como se regasse a terra com nosso sangue. O que fizemos? Por que nossa alma apodreceu? Sua mãe dizia que pelo menos nos restava a misericórdia de Deus. E você a renega, Susana. Por que me renega, a mim, como seu pai? Você está louca?

— Você não sabia?

— Você está louca?

— Claro que sim, Bartolomé. Você não sabia?

— VOCÊ SABIA, Fulgor, que essa é a mulher mais bela que se deu sobre a terra? Cheguei a acreditar que tinha perdido essa mulher para sempre. Mas agora não tenho vontade de tornar a perdê-la. Você me entende, Fulgor? Diga ao pai dela que continue explorando suas minas. E lá… imagino que seja fácil sumir com o velho naquelas bandas onde ninguém vai jamais. Você não acha?

— Pode ser.

— Precisamos que seja. Ela tem de ficar órfã. Temos a obrigação de amparar alguém. Você não acha?

— Não parece difícil.

— Então, andando, Fulgor. Andando.

— E se ela fica sabendo?

— Quem é que vai dizer? Vamos ver, me diga, cá entre nós, quem é que vai dizer?

— Tenho certeza que ninguém.

— Pois pode tirar essa coisa de “tenho certeza que”. Tira já, e você vai ver como tudo dá certo. Lembre-se do trabalho que deu encontrar La Andromeda. Mande o velho para lá, continuar trabalhando. Que vá e volte. Nem pensar em levar a filha junto. Nós cuidamos dela aqui. Lá estará o seu trabalho e aqui a sua casa, a qualquer momento que ele quiser. Diga isso a ele, Fulgor.

— Torno a gostar do jeito que o senhor se movimenta, patrão, é como se os seus ânimos estivessem rejuvenescendo.

SOBRE OS CAMPOS do vale de Comala, está caindo a chuva. Uma chuva miúda, estranha para estas terras que só sabem de aguaceiros. É domingo. De Apango desceram os índios com seus rosários de camomila, seu alecrim do campo, seus punhados de tomilho. Não trouxeram nós de pinho porque o pinho está molhado, e nem terra de azinheira porque também está molhada pelo muito chover. Estendem suas ervas no chão, debaixo dos arcos da entrada do povoado, e esperam.

A chuva continua caindo sobre as poças.

Entre os sulcos, onde está nascendo o milho, corre a água em rios. Os homens não vieram hoje ao mercado, ocupados em romper os sulcos para que a água busque novos leitos e não arraste o milho verde. Andam em grupos, navegando na terra alagada, debaixo da chuva, quebrando com suas pás os torrões macios, atando com as mãos o milho verde e procurando protegê-lo para que cresça sem trabalho.

Os índios esperam. Sentem que é um dia de maus agouros. Talvez por isso tremem debaixo de suas molhadas vestimentas de palha; não de frio, mas de temor. E olham a chuva esfarelada e o céu que não larga suas nuvens.

Ninguém vem. O povoado parece estar só. Uma mulher encomendou um pouco de linha de costura e algo de açúcar, e se fosse possível, e se houvesse, uma peneira para coar o cauim de milho verde. A palha que vestem fica pesada de umidade conforme se aproxima o meiodia. Conversam, contam piadas e soltam o riso. As camomilas brilham salpicadas pelo orvalho. Pensam: “Se pelo menos tivéssemos trazido um bocadinho de cauim de cacto não teria importância; mas os brotos dos cactos maguey viraram um mar de água. Enfim, fazer o quê?”

Justina Díaz, coberta por um guarda-chuva, vinha pela rua direita que vem da Media Luna, rodeada pelos jorros que borbotavam na calçada. Fez o sinal da cruz e se persignou ao passar pela porta da igreja matriz. Cruzou a entrada principal do povoado. Os índios viraramse para vê-la. Viu o olhar de todos, como se a esquadrinhassem. Deteve-se na primeira banca do mercado, comprou dez centavos de ramos de alecrim e regressou, seguida pelos olhares enfileirados daquele montão de índios.

“Tudo está caro demais neste tempo” disse ao tomar de novo o caminho rumo à Media Luna. “Este raminho triste de alecrim do campo, 10 centavos. Não vai dar nem para perfumar nada.”

Os índios levantaram suas bancas quando escureceu. Entraram na chuva com seus pesados cestos às costas; passaram pela igreja para rezar à Virgem, deixando um punhado de tomilho de esmola. Depois tomaram o rumo de Apango, de onde tinham vindo. “Então será outro dia”, disseram. E pelo caminho iam contando piadas e soltando gargalhadas.

Justina Díaz entrou no dormitório de Susana San Juan e pôs o raminho de alecrim do campo na prateleira. As cortinas fechadas impediam a passagem da luz, e naquela escuridão só via sombras, só adivinhava. Supôs que Susana San Juan estaria dormindo; ela desejava sempre que estivesse dormindo. Sentiu que ela dormia e se alegrou. Mas então ouviu um suspiro distante, como se saído de algum canto daquele cômodo escuro.

— Justina! — disseram a ela.

Ela virou a cabeça. Não viu ninguém; mas sentiu uma mão sobre seu ombro e a respiração em seus ouvidos. A voz em segredo: “Saia daqui, Justina. Arrume suas coisas e vá embora. Não precisamos mais de você.”

— Ela sim, precisa — disse, endireitando o corpo. — Está doente e precisa de mim.

— Já não mais, Justina. Eu ficarei aqui para cuidar dela.

— É o senhor, dom Bartolomé? — e não esperou pela resposta. Lançou aquele grito que caiu em cima dos homens e mulheres que voltavam dos campos e fez com que dissessem: “Parece ser um uivo humano; mas não parece ser de nenhum ser humano.”

A chuva amortece os ruídos. Continua-se ouvindo mesmo depois de tudo, granizando suas gotas, fiando o fio da vida.

— O que é que você tem, Justina? Por que está gritando? — perguntou Susana San Juan.

— Eu não gritei, Susana. Você deve ter sonhado.

— Já disse a você que eu não sonho nunca. Você não tem consideração por mim. Não dormi quase nada. Ontem à noite você não pôs o gato para fora, e ele não me deixou dormir.

— Ele dormiu comigo, entre as minhas pernas. Estava ensopado e eu de pena deixei que ficasse na minha cama; mas não fez barulho.

— Não, não fez barulho. Ele só passou a noite brincando de circo, pulando em mim dos pés à cabeça, e miando quietinho como se tivesse fome.

— Pois eu fiz ele comer bem e não desgrudou de mim a noite inteira. Você está de novo sonhando mentiras, Susana.

— Estou dizendo que passou a noite me assustando com seus pulos. E mesmo que o seu gato seja muito carinhoso, não quero saber dele quando estou dormindo.

— Você vê coisas, Susana. Isso é o que acontece. Quando Pedro Páramo vier vou dizer a ele que não aguento mais você. Vou dizer que vou embora. Não vai faltar gente que seja boa e que me dê trabalho. Nem todos são maníacos que nem você, nem vivem atormentando a gente que nem você. Amanhã eu vou-me embora e levo o gato e você fica tranquila.

— Você não vai embora daqui, maldita e condenada Justina. Não vai a lugar nenhum porque nunca vai encontrar quem goste de você como eu.

— Não, Susana, não vou. Não vou. Você sabe muito bem que estou aqui para cuidar de você. Mesmo que você me faça blasfemar, vou cuidar de você para sempre.

Tinha cuidado dela desde que Susana nasceu. Tinha segurado em seus braços. Tinha ensinado a andar. A dar aqueles passos que para ela pareciam eternos. Tinha visto crescer sua boca e seus olhos “feitos de doces”. “O doce de menta é azul. Amarelo e azul. Verde e azul. Mexido com menta e hortelã.” Mordia as suas pernas. Divertia Susana dando-lhe de mamar seus seios, que não tinham nada, que eram como de brinquedo. “Brinca” dizia a ela “brinca com este seu brinquedinho”. Esses abraços, e tão apertados, poderiam ter despedaçado Susana.

Lá fora ouvia-se o cair da chuva sobre as folhas das bananeiras, sentia-se como se a água estancada fervesse sobre a terra.

Os lençóis estavam frios de umidade. Os canos borbotavam, faziam espuma, cansados de trabalhar durante o dia, durante a noite, durante o dia. A água continuava correndo, diluviando em incessantes borbulhas.

ERA MEIA-NOITE e lá fora o ruído da água apagava todos os sons.

Susana San Juan levantou-se devagar. Endireitou o corpo lentamente e se afastou da cama. Lá estava outra vez o peso, em seus pés, caminhando pelas beiradas de seu corpo; tratando de encontrar sua cara:

— É você, Bartolomé? — perguntou.

Achou que ouviu a porta gemer, como quando alguém entrava ou saía. E depois só a chuva, intermitente, fria, rodando sobre as folhas das bananeiras, fervendo em sua própria fervura.

Dormiu e não despertou até que a luz iluminou os tijolos vermelhos, borrifados pelo orvalho entre a manhã cinza de um novo dia. Gritou:

— Justina!

E ela apareceu em seguida, como se já tivesse estado ali, envolvendo seu corpo num cobertor.

— O que você quer, Susana?

— O gato. Veio outra vez.

— Coitadinha de você, Susana.

Recostou-se sobre seu peito, abraçando-a, até que ela conseguiu levantar aquela cabeça e perguntou:

— Por que você chora? Vou dizer a Pedro Páramo que você é boa para mim. Não contarei nada dos sustos que seu gato me dá. Não fica assim, Justina.

— Seu pai morreu, Susana. Anteontem à noite morreu, e hoje vieram dizer que não há nada a ser feito; que já foi enterrado; que não puderam trazê-lo até aqui porque o caminho era muito longo. Você ficou sozinha, Susana.

— Então era ele — e sorriu. — Veio se despedir de mim — disse, e sorriu.

MUITOS ANOS ANTES, quando ainda ela era menina, ele tinha dito:

— Desça mais, Susana, e me diga o que está vendo.

Estava pendurada naquela corda que machucava sua cintura, sangrava as suas mãos; mas que não queria soltar: era como se fosse o único fio que a unia ao mundo lá de fora.

— Não vejo nada, papai.

— Procura bem, Susana. Faz por encontrar alguma coisa.

E a iluminou com sua lamparina.

— Não vejo nada, papai.

— Vou descer você mais. Avisa quando chegar no chão.

Tinha entrado por um pequeno buraco aberto no meio das tábuas. Havia caminhado sobre tábuas apodrecidas, velhas, quebradas e cheias de terra pegajosa:

— Desça mais, Susana, que você encontra o que estou dizendo.

E ela desceu e desceu balançando, ondulando na profundeza, com seus pés bamboleando sem ter onde os pôr.

— Mais para baixo, Susana. Mais para baixo. Diga se está vendo alguma coisa.

E quando encontrou apoio permaneceu ali, calada, porque emudeceu de medo. A lamparina circulava e a luz passava ao largo perto dela. E o grito lá do alto a estremecia:

— Susana, me dá aquilo ali!

E ela agarrou a caveira nas mãos e, quando a luz bateu em cheio, soltou-a.

— É uma caveira de morto — disse.

— Deve ter mais alguma coisa ao lado dela. Quero que você me dê tudo que encontrar.

O cadáver se desfez em ossos; a queixada soltou-se como se fosse de açúcar. Foi dando a ele pedaço a pedaço até que chegou aos dedos dos pés e entregou falange por falange. E a caveira, primeiro; aquela bola redonda que se desfez entre suas mãos.

— Procura mais um pouco, Susana. Dinheiro. Rodelas redondas de ouro. Procura, Susana.

Então ela não soube dela, a não ser muitos dias depois no meio do gelo, no meio do olhar de gelo de seu pai.

Por isso dava risada agora:

— Adivinhei que era você, Bartolomé.

E a coitada da Justina, que chorava sobre seu coração, precisou levantar-se ao ver que ela ria e que seu riso se transformava em gargalhada.

Lá fora continuava chovendo. Os índios tinham ido embora. Era segunda-feira e o vale de Comala continuava empapando-se de chuva.

OS VENTOS CONTINUARAM soprando todos aqueles dias. Aqueles ventos que tinham trazido as chuvas. A chuva tinha ido embora; mas o vento ficou. Lá nos campos o milharal arejou suas folhas agora secas e deitou-se sobre os sulcos para se defender do vento. De dia passava manso; retorcia as heras e fazia ranger as telhas dos telhados; mas de noite gemia, gemia longamente. Pavilhões de nuvens passavam em silêncio pelo céu como se caminhassem roçando a terra.

Susana San Juan ouve o golpe do vento contra a janela fechada. Está deitada com os braços atrás da cabeça, pensando, ouvindo os ruídos da noite; ouvindo como a noite vai e vem arrastada pelo sopro do vento sem quietude. Depois, o estancar seco.

Abriram a porta. Uma rajada de ar apaga a lamparina. Vê a escuridão e então pára de pensar. Sente pequenos sussurros. Em seguida ouve a percussão de seu coração em palpitações desiguais. Através de suas pálpebras fechadas entrevê a chama da luz.

Não abre os olhos. O cabelo está esparramado sobre sua cara. A luz acende gotas de suor em seus lábios. Pergunta:

— É você, pai?

— Sou seu pai, minha filha.

Entreabre os olhos. Vê como se cruzasse os seus cabelos uma sombra sobre o teto, com a cabeça em cima da sua cara. E a figura borrosa aqui em frente, atrás da chuva de suas pestanas. Uma luz difusa; uma luz no lugar do coração, em forma de coração pequeno que palpita como chama pestanejante. “Seu coração está morrendo de dor” pensa. “Já sei que você veio me contar que Florencio morreu; mas disso eu já sabia. Não fique aflito pelos outros; não se apresse por mim. Eu tenho minha dor guardada num lugar seguro. Não deixe que seu coração se apague.”

Ergueu o corpo e se arrastou até onde estava o padre Rentería.

— Deixe que eu console você com meu desconsolo! — disse, protegendo a chama da vela com as mãos.

O padre Rentería deixou que ela se aproximasse; viu-a cercar com as mãos a vela acesa e depois juntar sua cara ao pavio inflamado, até que o cheiro de carne chamuscada obrigou-o a sacudi-la, apagando a vela com um sopro.

Então voltou a escuridão e ela correu para se refugiar debaixo dos lençóis.

O padre Rentería disse a ela:

— Eu vim confortar você, filha.

— Então adeus, padre — respondeu ela. — Não volte aqui. Não preciso de você.

E ouviu quando se afastaram os passos que sempre deixavam nela uma sensação de frio, de tremor e de medo.

— Para que você vem me ver, se está morto?

O padre Rentería fechou a porta e saiu para o ar da noite. O vento continuava soprando.

UM HOMEM CHAMADO de O Gago chegou à Media Luna e perguntou por Pedro Páramo. — Para que o senhor o solicita?

— Quero faalar comcom ele.

— Não está.

— Diga aa ele, quanquando voltar, que venho da paparte de dom Fulgor.

— Vou buscá-lo; mas espera umas tantas horas.

— Diga a ele, é coooisa de urgência.

— Vou dizer.

O homem que era chamado de O Gago esperou em cima do cavalo. Passado um tempo, Pedro Páramo, que ele nunca tinha visto, postou-se à sua frente:

— Em que posso servi-lo?

— Preciso fafalar diretamente com o patrão.

— Sou eu. O que você quer?

— Popois é só issso. Mataram dom Fulgor Sesedano. Eu lhe fazia companhia. Tínhamos vindo pelos lalados dos “desaguadouros” para averiguar por que a água andava escasseando. E estatávamos nisso quanquando vimos uma manada de homens que saíram ao nosso encontro. E no meio daquela mulmultidão brobrotou uma voz que disse: “Esse aí eu coconheço. É o administrador da Memedia Luna.”

“Nenem ligaram para mimim. Mas mandaram dom Fulgor largar o animal. Disseram que eram revolucionários. Que vinham atrás das terras do sinhô. ‘Cooorra!’ disseram a dom Fulgor. ‘Vai lá dizer ao seu patrão que nos encontraremos.’ E ele largou o animal e saiu chispando, apavorado. Não muito depressa poporque era muito pesado; mas correu. Mamataram ele correendo. Momorreu com uma pata papara cima e outra para baixo.

“Então eu nenem meme mexi. Esperei até dede nooite e aqui estou para anunciar o queque aconteceu.

— E está esperando o quê? Por que não se mexe logo? Vai lá e diz a esses fulanos que estou aqui para o que eles quiserem. Que venham tratar comigo. Mas antes dê uma volta por La Consagración. Você conhece o Sucuri? Ele vai estar por lá. Diga a ele que preciso vê-lo. E avisa a esses fulanos que espero por eles assim que tiverem um tempo disponível. Que joça de revolucionários são?

— Nãnão sei. Eles é que se chamaram ansim.

— Diga ao Sucuri que preciso dele aqui mais do que depressa.

— Popode deixar, papatrão.

Pedro Páramo tornou a se encerrar em seu escritório. Sentia-se velho e acabrunhado. Não se preocupava com Fulgor, que afinal de contas já estava “mais pra lá do que pra cá”. Havia dado de si tudo que tinha para dar; embora tenha sido muito serviçal, cada qual era cada um. “Seja como for, os ‘sucurizaços’ que esses loucos vão levar”, pensou.

Pensava mais em Susana San Juan, metida sempre em seu quarto, dormindo, e quando não, era como se dormisse. Tinha passado a noite anterior em pé, recostado na parede, observando através da pálida luz do candeeiro o corpo de Susana em movimento; a cara suarenta, as mãos agitando os lençóis, amassando o travesseiro até fazê-lo em pedaços.

Desde que tinha trazido Susana para morar aqui não sabia de outras noites passadas ao seu lado, a não ser aquelas noites doloridas, de interminável quietude. E se perguntava quando é que aquilo iria terminar.

Esperava que alguma vez. Nada pode durar tanto, não existe nenhuma recordação que, por intensa que seja, não se apague.

Se pelo menos tivesse sabido o que era aquilo que a maltratava por dentro, que fazia com que se debatesse insone, como se a despedaçassem.

Ele achava que a conhecia. E mesmo se não fosse assim, será que não bastava saber que ela era a criatura mais amada por ele sobre a terra? E que além do mais — e isso era o mais importante — serviria para que ele se fosse da vida alumbrando-se com aquela imagem que apagaria todas as outras recordações.

Mas qual era o mundo de Susana San Juan? Essa foi uma das coisas que Pedro Páramo jamais chegou a saber.

“MEU CORPO SENTIA-SE à vontade sobre o calor da areia. Tinha os olhos fechados, os braços abertos, as pernas desdobradas para a brisa do mar. E o mar ali em frente, distante, deixando apenas restos de espuma em meus pés, quando a maré subia…”

— Agora sim é ela falando, Juan Preciado. Não se esqueça de me dizer o que ela diz.

“… Era cedo. O mar corria e baixava em ondas. Soltava-se da sua espuma e ia embora, limpo, com sua água verde, em ondas caladas.

“— No mar só sei me banhar nua — disse a ele. E ele me seguiu no primeiro dia, nu também, fosforescente ao sair do mar. Não havia gaivotas; só esses pássaros que chamam de ‘bicos feios’, esses tucanos grunhem como se roncassem e que depois que o sol sai desaparecem. Ele me seguiu no primeiro dia e sentiu-se só, apesar de eu estar ali.

“— É como se você fosse um ‘bico feio’, um a mais entre todos — me disse. — Gosto mais de você nas noites, quando estamos os dois no mesmo travesseiro, debaixo dos lençóis, na escuridão.

“E se foi.

“Eu voltei. Voltaria sempre. O mar molha meus tornozelos e vai embora; molha meus joelhos, minhas coxas; rodeia minha cintura com seu braço suave, dá voltas sobre meus seios; se abraça ao meu pescoço; aperta meus ombros. Então me afundo nele, inteira. E me entrego a ele em seu bater forte, em seu suave possuir, sem deixar pedaço.

“— Gosto de tomar banho no mar — disse a ele.

“Mas ele não entende.

“E no outro dia estava outra vez no mar, me purificando. Entregando-me às suas ondas.”

EMPARDECENDO A TARDE, apareceram os homens. Vinham encarabinados e cruzados por cartucheiras. Eram cerca de vinte. Pedro Páramo convidou-os para jantar. E eles, sem tirar o chapéu, se acomodaram à mesa e esperaram calados. Só ouvimos eles sorverem o chocolate quando lhes trouxeram o chocolate, e mastigar tortilha atrás de tortilha quando lhes passaram as tortilhas e os feijões.

Pedro Páramo os olhava. Não lhe parecia que fossem caras conhecidas. Bem atrás dele, na sombra, o Sucuri aguardava.

— Patrões — disse a eles quando viu que acabavam de comer —, em que mais posso servi-los?

— O senhor é o dono disso? — perguntou um deles abanando a mão.

Mas outro o interrompeu dizendo:

— Aqui, quem fala sou eu!

— Pois bem. Em que posso servi-los? — tornou a perguntar Pedro Páramo.

— Como o senhor está vendo, nós nos alçamos em armas.

— E então?

— E isso é tudo. Acha pouco?

— Mas fizeram isso por quê?

— Pois porque os outros também fizeram. O senhor não está sabendo? Espere um pouquinho até que cheguem nossas instruções e então vamos esclarecer a causa para o senhor. Mas para começar, já estamos aqui.

— Eu sei a causa — disse outro. — E se o senhor quiser, eu conto. Nós nos rebelamos contra o governo e contra os senhores porque já estamos fartos de suportá-los. O governo porque é ordinário, e os senhores porque não passam de uns desavergonhados bandidos e uns ladrões sebentos. E do senhor governo não digo mais nada porque vamos dizer à bala o que queremos dizer.

— De quanto vocês precisam para fazer a sua revolução? — perguntou Pedro Páramo. — Pode ser que eu possa ajudá-los.

— O que o senhor aqui está dizendo está bem dito, Perseverando. Você não devia ter soltado a língua. Precisamos agenciar um rico que nos habilite, e quem mais melhor do que o senhor aqui presente? Vamos ver, Casildo, diga você: quanto acha que nos faz falta?

— Pois que ele nos dê o que sua boa intenção quiser nos dar.

— Esse aí ‘não daria água nem para o Cristo na cruz’. Vamos aproveitar que estamos aqui para tirar dele de uma vez até o milho que está entalado em seu bucho de porco.

— Acalme-se, Perseverancio. Por bem se consegue melhor. Vamos entrar num acordo. Fale você, Casildo.

— Pois eu digo assim no cálculo que uns 20 mil pesos para começar não estariam mal. O que é que vocês acham? Ou pode até ser que a esse senhor aí isso pareça pouco, já que tem vontade de sobra de nos ajudar. Vamos dizer então 50 mil. De acordo?

— Vou lhes dar 100 mil pesos — disse Pedro Páramo. — Quantos vocês são?

— Nóis semu trezentos.

— Bem. Pois vou lhes emprestar outros trezentos homens para que aumentem seu contingente. Dentro de uma semana terão à sua disposição tanto os homens como o dinheiro. O dinheiro é de presente, os homens eu empresto. Assim que os desocupem, que mandem todos de volta para cá. Está bem assim?

— Mas como não?

— Então, até daqui a oito dias, senhores. E tive muito prazer em conhecê-los.

— Sim — disse o último a sair. — Lembre-se que, se não cumprir, vai ouvir falar de Perseverando, que é esse o meu nome.

Pedro Páramo despediu-se, estendendo a mão.

— QUEM VOCÊ ACHA que é o chefe desses aí? — perguntou mais tarde ao Sucuri.

— Pois eu acho mesmo é que era aquele barrigudão que estava no meio e que nem ergueu os olhos. Alguma coisa aqui dentro me bate que é ele… Eu me engano poucas vezes, dom Pedro.

— Não, Damasio, não, o chefe é você. Ou então você não está querendo ir para a revolta?

— Mas se eu acho até que está demorando muito. Gostando de um rebuliço do jeito que eu gosto…

— Pois então você já viu de que se trata, portanto nem precisa de meus conselhos. Junte aí uns trezentos rapazes da sua confiança e se aliste com esses rebeldes. Diz lá a eles que está levando o pessoal que eu prometi. O resto você vai saber como fazer.

— E o que é que eu digo do dinheiro? Também entrego?

— Vou dar a você 10 pesos para cada um. Isso, para os seus gastos mais urgentes. Diga que o resto está guardado aqui, e à disposição. Não é conveniente carregar tanto dinheiro, quando se anda nessas tarefas. Entre parênteses: você gostaria do ranchinho da Puerta de Piedra? Pois é seu desde agora. Você vai levar um recado ao doutor Gerardo Trujillo, de Comala, e lá mesmo você põe a propriedade em seu nome. O que você acha, Damasio?

— Pois eu acho que isso nem se pergunta, patrão. Mesmo sendo bem verdade que com isso ou sem isso eu faria do mesmo jeito, só pelo gosto. É como se o senhor não me conhecesse. Seja como for, agradeço. A velha terá ao menos com que se distrair enquanto eu solto fogo por aí.

— E veja, aproveita e arrebanha umas quantas vacas. O que falta nesse rancho é movimento.

— O senhor não se importa se forem zebus?

— Escolha as que quiser, e as que você imagine que sua mulher possa cuidar. E voltando ao nosso assunto, procure não se afastar muito de meus terrenos, porque assim se vierem outros vão ver o campo já ocupado. E venha me ver assim que você puder ou quando tiver alguma novidade.

— Nos veremos, patrão.

— O QUE ELA ESTÁ dizendo, Juan Preciado?

— Diz que ela escondia os pés entre as pernas dele. Seus pés gelados como pedras frias e que ali se esquentavam como num forno onde se doura o pão. Diz que ele mordia seus pés dizendo a ela que eram como pão dourado no forno. Que dormia encolhida, metendo-se dentro dele, perdida no nada ao sentir que sua carne se quebrava, que se abria como um sulco aberto por um prego ardoroso, depois morno, depois doce, dando golpes duros contra sua carne macia; mergulhando e mergulhando, até o gemido. Mas que a morte dele tinha doído ainda mais. Isso é o que ela diz.

— Ela está se referindo a quem?

— A alguém que morreu antes dela, na certa.

— Mas quem será?

— Não sei. Diz que na noite em que ele demorou a chegar sentiu que havia regressado já noite alta, ou talvez de madrugada. Mal reparou, porque seus pés, que tinham ficado solitários e frios, pareceram envolver-se em alguma coisa; que alguém os envolvia com alguma coisa e lhes dava calor. Quando acordou encontrou-os enrolados num jornal que ela tinha lido, enquanto esperava por ele e que tinha deixado cair no chão quando não aguentou mais de sono. E que lá estavam seus pés enrolados no jornal, quando vieram dizer a ela que ele tinha morrido.

— Devem ter quebrado o caixão onde a enterraram, porque dá para ouvir uma espécie de ranger de tábuas.

— É mesmo, eu também ouço.

NAQUELA NOITE tornaram a suceder-se os sonhos. Por que esse recordar intenso de tantas coisas? Por que não simplesmente a morte e não essa música doce do passado?

— Florencio morreu, senhora.

Como aquele homem era comprido! Que alto! E sua voz era dura. Seca como a terra mais seca. E sua figura era borrosa, ou se tornou borrosa depois?, como se entre ela e ele se interpusesse a chuva. “O que tinha dito? Florencio? De que Florencio ela falava? Do meu? Ah!, por que não chorei e me alaguei então em lágrimas para enxugar minha angústia? Senhor, tu não existes! Pedi tua proteção para ele. Que cuidasses dele. Isso eu te pedi. Mas tu só te ocupas das almas. E o que eu quero dele é seu corpo. Nu e quente de amor; fervendo de desejo; amassando o tremor de meus seios e de meus braços. Meu corpo transparente suspenso pelo dele. Meu corpo leve preso e solto às suas forças. O que farei agora com meus lábios sem sua boca para preenchê-los? O que farei de meus lábios doloridos?”

Enquanto Susana San Juan se revolvia inquieta, de pé, ao lado da porta, Pedro Páramo a olhava e contava os segundos daquele novo sonho que já durava muito. O óleo da lamparina faiscava e a chama tornava seu pestanejar cada vez mais débil. Logo se apagaria.

Se pelo menos fosse dor o que ela sentisse, e não esses sonhos sem sossego, esses intermináveis e esgotadores sonhos, ele poderia buscar-lhe algum consolo. Assim pensava Pedro Páramo, os olhos fixos em Susana San Juan, seguindo cada um de seus movimentos. O que aconteceria se ela também se apagasse como se apagou a chama daquela luz débil com a qual ele a via?

Depois saiu fechando a porta sem fazer ruído. Lá fora, o ar limpo da noite descolou de Pedro Páramo a imagem de Susana San Juan.

Ela acordou um pouco antes do amanhecer. Suada. Jogou no chão as cobertas pesadas e se desfez até do calor dos lençóis. Então seu corpo ficou nu, refrescado pelo vento da madrugada. Suspirou e em seguida tornou a adormecer.

Foi assim que horas depois o padre Rentería a encontrou: nua e adormecida.

— ESTÁ SABENDO, dom Pedro, que derrotaram o Sucuri?

— Sei que teve algum tiroteio ontem à noite, porque deu para ficar ouvindo o tumulto; mas daí em diante não sei mais nada. Quem foi que contou isso, Gerardo?

— Chegaram uns feridos a Comala. Minha mulher ajudou nessa coisa dos curativos. Disseram que eram do pessoal de Damasio e que tinham tido muitos mortos. Parece que se encontraram com uns sujeitos que se dizem de Pancho Villa.

— Que caralho, Gerardo! Estou vendo tempos ruins chegando. E o que você está pensando em fazer?

— Eu vou-me embora, dom Pedro. Para Sayula. E lá, vou me estabelecer de novo.

— Vocês advogados têm essa vantagem; podem levar seu patrimônio a tudo que é lugar, pelo menos enquanto alguém não arrebentar suas fuças.

— Nem pense nisso, dom Pedro; tem os nossos problemas. Além do mais dói deixar pessoas como o senhor, e as deferências que o senhor teve comigo a gente sempre sente falta. Nosso mundo muda o tempo todo, se é válido dizer assim. Onde o senhor quer que eu deixe os seus papéis?

— Não deixe os papéis. Leve tudo. Ou será que você não vai poder continuar cuidando de meus assuntos lá onde vai estar?

— Agradeço a sua confiança, dom Pedro. Agradeço sinceramente. Embora deva fazer a aclaração de que para mim vai ser impossível. Certas irregularidades… Digamos… Depoimentos que ninguém além do senhor deve conhecer. Podem prestar-se a manipulações ruins no caso de cair em outras mãos. O mais seguro é que fiquem aqui com o senhor.

— Você disse bem, Gerardo. Deixa tudo aqui. Vou queimar os papéis. Com papéis ou sem eles, quem pode discutir comigo a propriedade do que tenho?

— Sem sombra de dúvida, ninguém, dom Pedro. Ninguém. Com licença.

— Vá com Deus, Gerardo.

— O que foi que o senhor disse?

— Eu disse que Deus o acompanhe.

O doutor Gerardo Trujillo saiu devagar. Já estava velho; mas não para dar passos tão curtos, tão desanimados. A verdade é que ele esperava uma recompensa. Havia servido a dom Lucas, que em paz descanse, o pai de dom Pedro; depois, e ainda, a dom Pedro; e depois a Miguel, o filho de dom Pedro. A verdade é que ele esperava uma compensação. Uma retribuição grande e valiosa. Dissera à mulher:

— Vou me despedir de dom Pedro. Sei que ele vai me gratificar. Estou quase dizendo que com o dinheiro que ele vai me dar nos estabeleceremos bem em Sayula e vamos viver com folga o resto dos nossos dias.

Mas por que as mulheres sempre têm alguma dúvida? Recebem avisos do céu, ou o quê? Ela não pareceu estar segura nem mesmo de que ele receberia alguma coisa:

— Lá, você vai ter de trabalhar duro e muito para levantar a cabeça. Daqui você não arranca nada.

— Por que está dizendo isso?

— Eu sei.

Continuou andando até a porta, atento a qualquer chamado: “Ei, Gerardo! Estou tão preocupado que não me permiti pensar em você. Mas eu lhe devo favores que o dinheiro não paga. Receba isto: um presente insignificante.”

Mas o chamado não veio. Cruzou a porta e desamarrou o cabresto com que seu cavalo estava amarrado à forquilha. Subiu na sela e, em marcha curta, tratando de não se afastar muito para ouvir se o chamasse, caminhou até Comala sem se desviar do caminho. Quando viu que a Media Luna se perdia atrás, pensou: “Seria me rebaixar demais pedir a ele um empréstimo.”

— DOM PEDRO, voltei, porque não estou satisfeito comigo mesmo. Com prazer vou continuar cuidando de seus assuntos.

Disse isso sentado novamente no escritório de dom Pedro Páramo, onde havia estado não fazia nem meia hora.

— Está bem, Gerardo. Aí estão os papéis, onde você deixou.

— Eu também queria… Os gastos… A viagem… Um adiantamento mínimo de honorários… Algum extra, se o senhor houver por bem.

— Quinhentos?

— Não poderia ser um pouco, digamos, um pouquinho mais?

— Você ficaria conformado com mil?

— E se fossem cinco?

— Cinco o quê? Cinco mil pesos? Não tenho. Você sabe muito bem que está tudo investido. Terras, animais. Você sabe disso. Leva os mil. Não acho que você precise de mais.

Ficou meditando. A cabeça caída. Ouvia o tilintar dos pesos sobre a escrivaninha onde Pedro Páramo contava o dinheiro. Lembrava-se de dom Lucas, que sempre ficou devendo seus honorários. De dom Pedro, que abriu conta nova. De seu filho Miguel: quanta dor de cabeça aquele rapaz tinha dado!

Livrou-o da cadeia pelo menos umas 15 vezes, se é que não foram mais. E o assassinato que cometeu com aquele homem, como era mesmo o nome?, Rentería, isso. O morto chamado Rentería, em cuja mão puseram uma pistola. O jeito que Miguelzinho estava assustado, embora depois caísse no riso. Só isso, quanto teria custado a dom Pedro se as coisas tivessem ido até lá, até a lei? E a questão das violações, nada? Quantas vezes ele teve que tirar do próprio bolso dinheiro para que elas enterrassem o assunto: “Fique bem e em paz que você vai ter um filhote branquelo!”, dizia a elas.

— Aqui está, Gerardo. Cuida muito bem deles, porque não geram cria.

E ele, que ainda estava em suas cismas, respondeu:

— Pois é, os mortos também não — e acrescentou: — Desgraçadamente.

FALTAVA MUITO PARA o amanhecer. O céu estava cheio de estrelas, gordas, inchadas de tanta noite. A lua havia saído um pouco e depois tinha ido embora. Era uma dessas luas tristes que ninguém olha, que ninguém faz caso. Ficou um tempinho lá, desfigurada, sem dar nenhuma luz, e depois foi se esconder atrás dos morros.

Longe, perdido na escuridão, ouvia-se o bramido dos touros.

“Esses animais não dormem nunca” disse Damiana Cisneros. “Nunca dormem. São como o diabo, que anda sempre buscando almas para levar para o inferno.”

Deu voltas na cama, aproximando a cara da parede. Então ouviu as batidas.

Deteve a respiração e abriu os olhos. Tornou a ouvir três batidas secas, como se alguém golpeasse a parede com os nós dos dedos. Não aqui, ao lado dela, e sim mais longe; mas na mesma parede.

“Valha-me! Será que serão as três batidas de São Pascual Bailón, que vem avisar a algum devoto que chegou a hora da sua morte?”

E como ela havia perdido a novena fazia tempo, por causa de seus reumatismos, não se preocupou; mas sentiu medo, e mais do que medo, curiosidade.

Levantou-se do catre sem fazer ruído e foi espiar pela janela.

Os campos estavam negros. No entanto conhecia ele tão bem, que reconheceu o corpo enorme de Pedro Páramo entrando pela janela da moça Margarita.

— Ah!, esse dom Pedro — disse Damiana. — Não perde a mania. O que não entendo é por que gosta de fazer as coisas tão às escondidas; se tivesse me avisado, eu teria dito para a Margarita que o patrão ia necessitá-la esta noite, e ele não teria tido nem o trabalho de sair da sua cama.

Fechou a janela ao ouvir o mugido dos touros. Jogou-se sobre o catre cobrindo-se até as orelhas, e depois se pôs a pensar no que estaria acontecendo com a Margarita tão formosa. Mais tarde teve de tirar a camisola porque a noite começou a ficar abafada demais…

— Damiana! — ouviu.

Naquele tempo era ela moça.

— Abra essa porta, Damiana!

Seu coração tremia como se fosse um sapo saltando entre suas costelas.

— Mas para quê, patrão?

— Abra, Damiana!

— Mas é que estou dormindo, patrão!

Depois sentiu que dom Pedro ia embora pelos corredores compridos, dando aquelas pisadas que sabia dar quando estava irritado.

Na noite seguinte, ela, para evitar aborrecê-lo, deixou a porta encostada e até se despiu para que ele não encontrasse nenhuma dificuldade.

Mas Pedro Páramo jamais a procurou de novo.

Por isso agora, quando era a chefe de todas as serventas da Media Luna, por ter-se dado ao respeito, agora, que já estava velha, ainda pensava naquela noite quando o patrão disse:

“Abra essa porta, Damiana!”

E deitou-se pensando em como naquela hora seria feliz a criada Margarita.

Depois tomou a ouvir outras batidas; mas contra a porta grande, como se estivessem arrebentando-a a golpes de fuzil.

Outra vez abriu a janela e espiou a noite. Não se via nada; mas ainda assim achou que a terra estava cheia de ardores, como quando chove e ela se pavimenta de minhocas. Sentia que se levantava uma coisa parecida ao calor de muitos homens. Ouviu o croar das rãs; os grilos; a noite quieta do tempo das águas. Depois tornou a ouvir os golpes de fuzil contra a porta.

Uma lamparina regou sua luz sobre a cara de alguns homens. Depois se apagou.

“São coisas que não me interessam”, disse Damiana Cisneros, e fechou a janela.

— SOUBE QUE DERROTARAM você, Damasio. Por que deixou fazerem isso?

— O senhor foi mal-informado, patrão. Comigo não aconteceu nada. Meu pessoal está inteirinho. Trago aí setecentos homens e outros tantos arrimados. O que aconteceu é que uns poucos dos “velhos”, cansados de estar ociosos, se puseram a disparar contra um pelotão de beócios, que na verdade era um exército inteiro. Villistas, de Pancho Villa, o senhor ouviu falar?

— E esses de onde saíram?

— Eles vêm do Norte, arrasando tudo que encontram pela frente. Parece, pelo que se vê, que andam percorrendo a terra, tateando todos os terrenos. São poderosos. Isso ninguém há de negar.

— E por que você não se junta a eles? Eu já disse a você que temos de estar com quem estiver ganhando.

— Pois eu já estou com eles.

— Então veio me ver para quê?

— Precisamos de dinheiro, patrão. Já estamos cansados de comer carne de vaca. Nem temos mais vontade. E ninguém mais quer fiar para a gente. Por isso viemos, para que o senhor nos abasteça e para que a gente não se veja na urgência de roubar ninguém. Se estivéssemos no longe remoto não nos importaria dar um “passe para cá” nos vizinhos; mas aqui somos todos aparentados com alguém e roubar nos dá remorso. Enfim, é dinheiro o que necessitamos para comprar nem que seja uma tortilhona grossa com pimenta. Estamos fartos de comer carne.

— Quer dizer que agora o senhor vai me bancar o exigente, Damasio?

— De jeito nenhum, patrão. Estou pedindo pelos rapazes; por mim, nem pensar.

— Está certo que você se empenhe pelo seu pessoal; mas trata de tirar de outro o que você precisa. Eu já dei. Conforme-se com o que eu dei. E este não é um conselho, nem nada parecido, mas você já pensou em assaltar Contla? Para que você acha que está na revolução? Se é para pedir esmola para esses sujeitos, você é estúpido. Mais valia que fosse com sua mulher criar galinhas. Avança em cima de algum povoado! Se você anda arriscando o pescoço, por que diabos os outros não vão pôr sua parte? Contla está que ferve de tanto rico. Tire um pouquinho do que eles têm. Ou será que acham que você é a babá deles, e que está aí só para cuidar dos seus interesses? Não, Damasio. Faça com que vejam que você não está de brincadeira nem está se divertindo. Dá um pega neles e você vai só ver como consegue uns tostões desta algazarra.

— Seja como quiser, patrão. Do senhor eu sempre tiro alguma coisa de bom.

— Pois esteja à vontade.

Pedro Páramo viu como os homens iam embora. Sentiu desfilar na sua frente o trote de cavalos escuros, confundidos com a noite. O suor e o pó; o tremor da terra. Quando viu os pirilampos cruzando outra vez suas luzes, percebeu que todos os homens tinham ido. Só restava ele, sozinho, como um tronco duro começando a se despedaçar por dentro.

Pensou em Susana San Juan. Pensou na mocinha com quem fazia pouco acabara de dormir. Aquele pequeno corpo sobressaltado e tremelicante que parecia que ia pôr o coração pela boca. “Punhadinho de carne”, disse a ela. E tinha se abraçado a ela tratando de transformá-la na carne de Susana San Juan. “Uma mulher que não era deste mundo.”

NO COMEÇO DO amanhecer, o dia vai dando voltas, com pausas; quase dá para ouvir as dobradiças da terra, que giram emboloradas; a vibração desta terra velha que derrama sua escuridão.

— É verdade que a noite está cheia de pecados, Justina?

— É, Susana.

— De verdade?

— Deve ser, Susana.

— E o que você acha que a vida é, Justina, a não ser um pecado? Está ouvindo? Está ouvindo como a terra range?

— Não, Susana, eu não consigo ouvir nada. Minha sorte não é tão grande como a sua.

— Você iria se espantar. Eu digo que você iria se espantar se ouvisse o que eu ouço.

Justina continuou arrumando o quarto. Repassou uma vez e outra a estopa grossa sobre as tabuonas úmidas do assoalho. Limpou a água do floreiro quebrado. Recolheu as flores. Pôs os cacos de vidro no balde cheio d’água.

— Quantos pássaros você matou na vida, Justina?

— Muitos, Susana.

— E não sentiu tristeza?

— Senti, Susana.

— Então, está esperando o quê para morrer?

— A morte, Susana.

— Se é só isso, já, já ela chega. Não se preocupe.

Susana San Juan estava erguida sobre seus travesseiros. Os olhos inquietos, olhando para todos os lados. As mãos sobre o ventre, grudadas em seu ventre como uma concha protetora. Havia ligeiros zumbidos que passavam como asas por cima da sua cabeça. E o ruído das roldanas na madeira do poço. O rumor que as pessoas fazem ao acordar.

— Você acredita no inferno, Justina?

— Sim, Susana. E no céu também.

— Eu só acredito no inferno — ela disse. E fechou os olhos.

Quando Justina saiu do quarto, Susana San Juan estava adormecida de novo e lá fora o sol lançava chispas. Encontrou Pedro Páramo no caminho.

— Como é que a senhora está?

— Mal — ela respondeu agachando a cabeça.

— Ela se queixa?

— Não, senhor, não se queixa de nada; mas dizem que os mortos não se queixam mais. A senhora está perdida para todos.

— O padre Rentería não veio vê-la?

— Veio ontem, e tomou-lhe a confissão. Hoje ela deveria ter comungado, mas não deve estar nas graças, porque o padre Rentería não trouxe a comunhão para ela. Disse que ia fazer isso logo cedo, e o senhor está vendo, o sol já está aqui e ele não veio. Ela não deve estar nas graças.

— Nas graças de quem?

— De Deus, senhor.

— Não seja boba, Justina.

— Como o senhor quiser, patrão.

Pedro Páramo abriu a porta e ficou ao lado dela, deixando que um raio de luz caísse sobre Susana San Juan. Viu seus olhos apertados como quando se sente uma dor; a boca umedecida, entreaberta, e os lençóis sendo percorridos por mãos inconscientes até mostrar a nudez de seu corpo que começou a se contorcer em convulsões.

Percorreu aquele pequeno espaço que o separava da cama e cobriu o corpo nu, que continuou se debatendo como uma minhoca em espasmos cada vez mais violentos. Aproximouse de seu ouvido e falou: “Susana!” E tornou a repetir: “Susana!”

A porta foi aberta e em silêncio entrou o padre Rentería, movendo brevemente os lábios:

— Vou lhe dar a comunhão, filha minha.

Esperou que Pedro Páramo a levantasse encostando-a sobre o espaldar da cama. Susana San Juan, semiadormecida, estendeu a língua e engoliu a hóstia. Depois disse: “Tivemos um tempo muito feliz, Florencio.” E tornou a se afundar entre a sepultura de seus lençóis.

— A SENHORA ESTÁ vendo aquela janela, dona Fausta, lá na Media Luna, onde a luz sempre ficava acesa?

— Não, Angeles. Não vejo nenhuma janela.

— É que justinho agora ficou escura. Será que aconteceu alguma coisa ruim na Media Luna? Faz mais de três anos que aquela janela está alumbrada, noite a noite. Dizem, quem esteve lá, que é o quarto onde habita a mulher de Pedro Páramo, uma coitadinha louca que tem medo do escuro. E olha só: agora mesmo, a luz apagou. Não será um acontecimento ruim?

— Talvez tenha morrido. Estava muito doente. Dizem que já nem reconhecia as pessoas, e dizem que falava sozinha. Bom castigo deve ter suportado Pedro Páramo casando-se com essa mulher.

— Coitado do senhor dom Pedro.

— Não, Fausta. Ele merece. Isso e muito mais.

— Olha, a janela continua escura.

— Deixa essa janela em paz e vamos dormir, que é noite alta para que nós duas, esse par de velhas, andemos soltas pela rua.

E as duas mulheres, que saíam da igreja muito perto das onze da noite, perderam-se debaixo dos arcos do portal, olhando como a sombra de um homem cruzava a praça na direção da Media Luna.

— Escuta, dona Fausta, não parece que o senhor ali é o doutor Valência?

— Parece mesmo, mas ando tão cega que não conseguiria reconhecê-lo.

— Não se esqueça que ele veste sempre calças brancas e paletó preto. Eu aposto que está acontecendo alguma coisa ruim na Media Luna. E olha só como ele vai rijo, como se a urgência o empurrasse.

— Pode ser de verdade uma coisa ruim. Sinto vontade de voltar e dizer ao padre Rentería que se achegue por lá, vai que essa infeliz morre sem se confessar.

— Nem pense nisso, Angeles. Nem Deus queira. Depois de tudo que ela sofreu neste mundo, ninguém desejaria que se fosse sem os auxílios espirituais e continuasse a penar na outra vida. Embora os bruxos digam que nos loucos a confissão não vale, pois mesmo quando têm a alma impura são inocentes. Isso só Deus sabe… Veja só, já tornaram a acender a luz na janela. Oxalá tudo dê certo. Imagine só em aonde iria dar o trabalho que tivemos todos esses dias para arrumar a igreja para que pareça bonita agora no Natal, se alguém morrer naquela casa. Com o poder que tem, dom Pedro aguaria a nossa festa num triz.

— A senhora sempre pensa o pior, dona Fausta. Era melhor fazer como eu: encomende tudo à Providência Divina. Reze uma ave-maria à Virgem e tenho certeza que nada vai acontecer de hoje para amanhã. Depois, que seja feita a vontade de Deus; afinal de contas, ela não deve estar tão contente assim nesta vida.

— Acredite em mim, Angeles, a senhora sempre me repõe o ânimo. Vou dormir levando ao sono esses pensamentos. Dizem por aí que os pensamentos dos sonhos vão direto para o céu. Tomara que os meus alcancem esta altura. Amanhã nos vemos.

— Até amanhã, Fausta.

As duas velhas, porta a porta, se meteram em suas casas. O silêncio voltou a fechar a noite sobre o povoado.

— ESTOU COM A BOCA cheia de terra.

— Sim, padre.

— Não diga: “Sim, padre.” Repete comigo o que eu for dizendo.

— O que o senhor vai me dizer? Vai pegar a minha confissão outra vez? Por que outra vez?

— Esta não vai ser uma confissão, Susana. Só vim conversar com você. Preparar você para a morte.

— Eu já vou morrer?

— Vai, filha.

— Então por que não me deixa em paz? Estou com vontade de descansar. Devem ter pedido ao senhor que viesse tirar meu sono. Que ficasse aqui comigo até meu sono ir embora. E o que eu vou fazer depois para encontrar meu sono? Nada, padre. Então por que o senhor não vai embora de uma vez e me deixa tranquila?

— Vou deixar você em paz, Susana. Conforme você for repetindo as palavras que eu disser, irá adormecendo. Vai sentir como se você mesma se ninasse. E vai ver que quando você dormir, ninguém mais irá despertá-la… Você não vai voltar a despertar nunca mais.

— Está bem, padre. Vou fazer o que o senhor disser.

O padre Rentería, sentado na beira da cama, as mãos postas sobre os ombros de Susana San Juan, com sua boca assim quase grudada na orelha dela para não falar alto, encaixava secretamente cada uma de suas palavras: “Tenho a boca cheia de terra.” Depois se deteve. Tratou de ver se os lábios dela se moviam. E os viu balbuciar, embora sem deixar sair som algum.

“Tenho a boca cheia de ti, da sua boca. Seus lábios apertados, duros como se mordessem oprimindo meus lábios…”

Também se deteve. Olhou de viés o padre Rentería e viu-o ao longe, como se estivesse por trás de um vidro embaçado.

Depois tornou a ouvir a voz esquentando seu ouvido:

— Tenho saliva espumosa; mastigo torrões coalhados de vermes que se aninham na minha garganta e raspam o meu céu da boca… Minha boca se afunda, contorcendo-se em trejeitos, perfurada pelos dentes que a perfuram e devoram. O nariz amolece. A gelatina dos olhos se derrete. Os cabelos ardem numa labareda só…

Estranhava a quietude de Susana San Juan. Teria querido adivinhar seus pensamentos e ver a batalha daquele coração por rejeitar as imagens que ele estava semeando dentro dela. Olhou seus olhos e ela devolveu o olhar. E ele achou que estava vendo como os lábios dela forçavam um sorriso.

— Ainda falta uma coisa. A visão de Deus. A luz suave de seu céu infinito. O gozo dos querubins e o canto dos serafins. A alegria dos olhos de Deus, a última e fugaz visão dos condenados à pena eterna. E não apenas isso, mas tudo conjugado com uma dor terrena. O tutano dos nossos ossos convertido em lume e as veias do nosso sangue em fios de fogo, fazendo-nos contorcer de uma dor incrível; que não míngua nunca; atiçado sempre pela ira do Senhor.

“Ele me abrigava entre seus braços. Ele me dava amor.”

O padre Rentería repassou com os olhos as figuras que estavam à sua volta, esperando o último momento. Perto da porta, Pedro Páramo esperava com os braços cruzados; em seguida, o doutor Valência, e junto a eles outros senhores. Mais além, nas sombras, um punhado de mulheres para quem já estava se fazendo tarde para começar a rezar a oração dos defuntos.

Teve intenção de se levantar. Dar os santos óleos à enferma e dizer: “Terminei.” Mas não, ainda não terminara. Não podia entregar os sacramentos a uma mulher sem conhecer o tamanho de seu arrependimento.

Sentiu que entrava em dúvidas. Talvez ela não tivesse nada de que se arrepender. Talvez ele não tivesse nada a perdoar. Inclinou-se suavemente sobre ela, e sacudindo seus ombros, disse em voz baixa:

— Você está indo até a presença de Deus. E sua sentença é desumana para os pecadores.

Depois aproximou-se outra vez de seu ouvido; mas ela sacudiu a cabeça:

— Vá embora de uma vez, padre! Não se mortifique por mim. Estou tranquila e tenho sono.

Ouviu-se o soluço de uma das mulheres escondidas na sombra.

Então Susana San Juan pareceu recobrar a vida. Endireitou-se na cama e disse:

— Justina, faça-me o favor de ir chorar em outro canto!

Depois sentiu que a cabeça se cravava em seu ventre. Tentou separar o ventre de sua cabeça; afastar aquele ventre que apertava seus olhos e cortava sua respiração; mas cada vez se inclinava mais como se afundasse na noite.

— EU… Eu vi dona Susanita morrer.

— O que você está dizendo, Dorotea?

— Estou dizendo o que acabo de dizer.

NO ALVORECER, as pessoas acordaram com o badalar do carrilhão. Era a manhã de 8 de dezembro. Uma manhã cinzenta. Não fria; mas cinzenta. O repicar começou com o campanário maior. Depois vieram os outros. Alguns achavam que era o chamado para a missa grande e começaram a abrir as portas; poucas, só aquelas onde viviam as pessoas madrugadoras, que esperavam acordadas que o toque do alvorecer as avisasse de que a noite havia terminado. Mas o repicar durou mais do que devia. Já não eram apenas os sinos da igreja maior, mas também os da igreja Sangue de Cristo, e o campanário da Cruz Verde, e talvez o do Santuário.

Chegou o meio-dia e o repique não cessava. Chegou a noite. E de dia e de noite os sinos continuaram tocando, todos por igual, cada vez com mais força, até que aquilo se converteu num lamento ensurdecedor. Os homens gritavam para ouvir o que queriam dizer: “O que terá acontecido?”, se perguntavam.

Ao terceiro dia estavam todos surdos. Era impossível falar com aquele zumbido que enchia o ar. Mas os sinos continuavam, continuavam, alguns já trincados, com um soar oco feito o de um cântaro.

— Morreu dona Susana.

— Morreu? Quem?

— A senhora.

— Sua senhora?

— A de Pedro Páramo.

Começou a chegar gente de outras paragens, atraídas pelo repicar constante. De Contla, vinham como em peregrinação. E até de mais longe ainda. Sabe-se lá de onde, o fato é que chegou um circo, trazendo acrobatas e trapezistas. Músicos. Primeiro se aproximavam como se fossem curiosos, e num instante já tinham se transformado em vizinhos, de maneira que houve até serenata. E assim, pouco a pouco a coisa se transformou em festa. Comala formigou de gente, de festança e de ruídos, igual que nos dias da quermesse, quando dava trabalho dar um passo pelo povoado.

Os sinos deixaram de tocar; mas a festa continuou. Não teve como fazer o pessoal compreender que se tratava de um luto, de dias de luto. Não houve como fazer com que se fossem; pelo contrário, continuou chegando mais e mais gente.

A Media Luna estava solitária, em silêncio. Caminhava-se com pés descalços; falava-se em voz baixa. Enterraram Susana San Juan e pouca gente em Comala percebeu. Lá havia festa. Apostava-se nos galos, ouvia-se música; os gritos dos bêbados e das vísporas. Até lá chegava a luz do povoado, que parecia uma auréola sobre o céu cor de cinza. Porque foram dias cor de cinza, tristes para a Media Luna. Dom Pedro não falava. Não saía do seu quarto. Jurou vingarse de Comala:

— Vou cruzar os braços e Comala vai morrer de fome. E foi o que ele fez.

O SUCURI continuou aparecendo:

— Agora estamos com Carranza.

— Está bem.

— Agora estamos com o general Obregón.

— Está bem.

— Agora selaram a paz. Estamos soltos.

— Espere. Não desarme o seu pessoal. Isso pode não durar muito.

— O padre Rentería alçou-se em armas. Vamos com ele, ou contra ele?

— Não tem nem o que discutir. Você que se ponha do lado do governo.

— Mas é que somos irregulares. No governo nos consideram rebeldes.

— Então, vá descansar.

— Acelerado do jeito que estou?

— Então faça o que quiser.

— Pois vou dar apoio ao padre. Gosto do jeito que eles gritam. Além do mais, a gente leva de pingo a salvação da alma. — Faça o que quiser.

PEDRO PÁRAMO estava sentado numa velha cadeira de couro, ao lado da porta grande da Media Luna, pouco antes que se fosse a última sombra da noite. Estava sozinho, fazia talvez umas três horas. Não dormia. Tinha se esquecido do sono e do tempo: “Nós velhos dormimos pouco, quase nunca. Às vezes só cochilamos; mas sem deixar de pensar. Essa é a única coisa que me resta fazer.” Depois acrescentou em voz alta: “Não demora. Já não vai demorar.”

E continuou: “Faz muito tempo que você foi-se embora, Susana. A luz então era igual à de agora, não tão vermelha; mas era a mesma pobre luz sem lume, envolta no pano branco da neblina que existe agora. Era o mesmo momento. Eu aqui, ao lado da porta olhando o amanhecer e olhando quando você ia embora, seguindo o caminho do céu; por onde o céu começava a se abrir em luzes, afastando-se, cada vez mais descolorida entre as sombras da terra.

“Foi a última vez que vi você. Passou roçando com seu corpo os galhos de um jasmineiro que está na vereda e levou com o seu ar as últimas folhas. Depois, você desapareceu. Eu disse: ‘Volta, Susana!’ ”

Pedro Páramo continuou movendo os lábios, sussurrando palavras. Depois fechou a boca e entreabriu os olhos, onde a débil claridade do amanhecer refletiu. Amanhecia.

NAQUELA MESMA hora a mãe de Gamaliel Villalpando, dona Inés, varria a rua na frente da loja do filho, quando chegou e, pela porta entreaberta, entrou Abundio Martínez. Encontrou Gamaliel dormindo em cima do balcão, com o chapelão cobrindo sua cara para que as moscas não o incomodassem. Teve de esperar um bom tempo até ele acordar. Teve de esperar que dona Inés terminasse a labuta de varrer a rua e viesse cutucar as costelas do filho com o cabo da vassoura e dissesse a ele:

— Tem cliente aqui! Levanta!

Gamaliel endireitou-se de mau humor, dando uns grunhidos. Tinha os olhos avermelhados de tanto sono e de tanto acompanhar os bêbados, embebedando-se com eles. Já sentado sobre o balcão, amaldiçoou a mãe, amaldiçoou a si mesmo e amaldiçoou infinitas vezes a vida “que valia um caralho”. Depois tomou a se acomodar com as mãos entre as pernas e virou-se para dormir, ainda balbuciando maldições:

— Eu não tenho culpa de a essas horas os bêbados andarem soltos.

— Coitado do meu filho. Desculpe, Abundio. O coitado passou a noite atendendo a uns viajantes que não queriam saber de largar o copo. O que traz o senhor por aqui tão cedo?

Disse tudo isso aos berros, porque Abundio era surdo.

— Pois só um meio litro de álcool, que ando necessitado.

— Refugio tornou a desmaiar?

— Ela já morreu e tudo, mãe Villa. Ontem à noite, quase às onze. E pensar que até vendi meus burros. Até isso eu vendi para conseguir ajuda que lhe desse um alívio.

— Não escuto o que você está dizendo! Ou você não está dizendo nada? O que é que você diz?

— Que passei a noite inteira velando a morta, a Refugio. Deixou de suspirar ontem à noite.

— Com razão senti cheiro de morto. Veja só, eu até disse a Gamaliel: “Estou cheirando que alguém morreu no povoado.” Mas ele nem me deu confiança; por causa dessa história de ter de compartilhar com os viajantes, o coitado se embebedou. E você sabe que quando está nesse estado, tudo é rir, e ele nem me dá confiança. Mas o que é que você está me dizendo? E tem convidados para o velório?

— Nenhum, mamãe Villa. Por isso quero o álcool, para curar minhas penas.

— Puro?

— Sim, mãe Villa. Para me embebedar mais depressa. E me dê agorinha que estou apressado.

— Vou dar mais um quarto pelo mesmo preço e por ser para você. Vai dizendo à finadinha, enquanto isso, que eu sempre a apreciei e que ela se lembre de mim quando chegar à glória.

— Sim, mamãe Villa.

— Pois diz isso a ela antes que ela acabe de esfriar.

— Vou dizer. Eu sei que ela também conta com a senhora para que ofereça a ela suas orações. Só de pensar que ela morreu pesarosa porque não teve ninguém nem para auxiliá-la.

— O que, você não foi ver o padre Rentería?

— Fui. Mas me informaram que andava pelos montes.

— Em qual monte?

— Pois por esses ermos. A senhora sabe que andam na rebelião.

— Quer dizer que ele também? Pobres de nós, Abundio.

— Essa história não nos importa nada, mamãe Villa. Isso aí e nada para nós dá no mesmo. Sirva mais um. Assim meio disfarçado, já que o Gamaliel está é dormindo.

— Mas não se esqueça de pedir à Refugio que rogue a Deus por mim, que necessito tanto.

— Nem se angustie. É chegar e dizer. E até vou arrancar dela a promessa apalavrada, para o caso de ser necessário e para que a senhora deixe de aflições.

— Isso, é isso mesmo que você deve fazer. Porque você sabe como as mulheres são.

Assim, é preciso exigir delas que cumpram em seguidinha o combinado.

Abundio Martínez deixou outros 20 centavos em cima do balcão.

— Pois me dá o outro meio litro, mãe Villa. E se quiser me dar ainda mais outro bocadinho, pois aí é assunto da senhora. A única coisa que eu lhe prometo é que este, sim, irei beber ao lado da finadinha; ao lado da minha Cuca.

— Então vai de vez, antes que meu filho acorde. O humor dele azeda muito quando acorda depois de uma bebedeira. Vai voando e não se esqueça do meu pedido para a sua mulher.

Saiu do armazém espirrando. Aquilo lá era uma fumaceira só; mas, como tinham dito que assim subia mais depressa, bebeu um gole atrás do outro, abanando ar na boca com a fralda da camisa. Depois tratou de ir direto para casa, onde Refugio esperava por ele; mas torceu o caminho e desandou a andar rua acima, saindo do povoado por onde a vereda o levou.

— Damiana! — chamou Pedro Páramo. — Venha ver o que quer esse homem que vem pelo caminho.

Abundio continuou avançando, dando tropeços, agachando a cabeça e às vezes andando de quatro. Sentia que a terra se retorcia, dava voltas em volta dele, e depois se soltava; ele corria para agarrá-la, e quando já tinha a terra nas mãos, ela tornava a ir embora, até que chegou na frente da figura de um senhor sentado ao lado de uma porta. Então, parou:

— Uma caridade para enterrar minha mulher — disse.

Damiana Cisneros rezava: “Das armadilhas dos inimigos malvados, livrai-nos, Senhor.” E apontava para ele com as mãos fazendo o sinal da cruz.

Abundio Martínez viu a mulher com os olhos esbugalhados, pondo aquela cruz na sua frente, e estremeceu. Pensou que talvez o demônio o tivesse seguido até ali, e deu meia-volta, esperando encontrar alguma aparição ruim. Ao não ver ninguém, repetiu:

— Venho pedir uma ajudazinha para enterrar a minha morta.

O sol dava às suas costas. Aquele sol recém-saído, quase frio, desfigurado pela poeira da terra.

A cara de Pedro Páramo escondeu-se debaixo das cobertas como se se escondesse da luz, enquanto se ouviam os gritos de Damiana saírem cada vez mais repetidos, atravessando os campos: “Estão matando dom Pedro!”

Abundio Martínez ouvia aquela mulher gritando. Não sabia o que fazer para acabar com aqueles gritos. Não encontrava a ponta de seus pensamentos. Sentia que os gritos da velha deviam estar sendo ouvidos muito lá longe. Talvez até sua mulher estivesse ouvindo, porque perfuravam as orelhas dele, embora não entendesse o que ela dizia. Pensou em sua mulher que estava estendida no catre, sozinha, lá no quintal da casa, onde ele a havia posto para que serenasse e não apestasse depressa. A Cuca, que ainda ontem se deitava com ele, bem viva, espojando feito potranca, e que o mordia e raspava seu nariz com o nariz dela. A que deu a ele aquele filhinho que morreu assim que nasceu, dizem que porque ela estava incapacitada: o mau-olhado e os frios e a queimação na pança e sei lá de quantos males sua mulher padecia, pelo que disse o doutor que foi vê-la à última hora, quando teve de vender seus burros para trazê-lo até aqui, por causa da cobrança tão alta que cobrou. E que não serviu para nada… A Cuca, que agora estava lá aguentando o relento, com os olhos fechados, já sem poder ver o amanhecer; nem este sol nem nenhum outro.

— Uma ajuda! — disse. — Qualquer coisa.

Mas nem mesmo ele se ouviu. Os gritos daquela mulher o deixavam surdo.

Pelo caminho de Comala moveram-se uns pontinhos negros. De repente os pontinhos se converteram em homens que num instante chegaram aqui, perto dele. Damiana Cisneros parou de gritar. Desfez sua cruz. Agora tinha caído e abria a boca como se bocejasse.

Os homens que tinham vindo a levantaram do chão e a levaram para o interior da casa.

— Aconteceu alguma coisa com o senhor, patrão? — perguntaram.

Apareceu a cara de Pedro Páramo, que só mexeu a cabeça.

Desarmaram Abundio, que ainda estava com o punhal cheio de sangue na mão:

— Venha com a gente — disseram a ele. — Você de verdade se meteu numa boa.

E ele os seguiu.

Antes de entrar no povoado pediu licença a eles. Fez-se a um lado e ali vomitou uma coisa amarela como bílis. Jorros e jorros, como se tivesse engolido dez litros de água. Então sua cabeça começou a arder e sentiu a língua travada:

— Estou bêbado — disse.

Regressou até onde estavam esperando por ele. Apoiou-se nos ombros deles, que o levaram arrastado, abrindo um sulco na terra com a ponta dos pés.

LÁ ATRÁS, Pedro Páramo, sentado em sua cadeira de assento de couro, olhou o cortejo que ia até o povoado. Sentiu que sua mão esquerda, ao querer se levantar, caía morta sobre seus joelhos; mas não deu importância a isso. Estava acostumado a ver morrer a cada dia algum de seus pedaços. Viu como o jasmineiro se sacudia deixando cair suas folhas: “Todos escolhem o mesmo caminho. Todos se vão.” Depois voltou ao lugar onde havia deixado seus pensamentos. — Susana — disse. Depois fechou os olhos. — Eu pedi que você voltasse…

“… Havia uma lua grande no meio do mundo. Eu perdia meus olhos olhando você. Os raios da lua filtrando-se sobre a sua cara. Não me cansava de ver essa aparição que era você. Suave, esfregada de lua; sua boca inchada e suave, umedecida, colorida de estrelas; seu corpo transparentando-se na água da noite. Susana, Susana San Juan.”

Quis levantar uma das mãos para clarear a imagem; mas suas pernas a retiveram como se fosse de pedra. Quis levantar a outra mão, que foi caindo devagar, de lado, até ficar apoiada no chão como uma muleta detendo seu ombro murcho, desossado.

“Esta é a minha morte”, disse.

O sol foi virando-se sobre as coisas e devolveu-lhes sua forma. A terra em ruínas estava na frente dele, vazia. O calor caldeava seu corpo. Seus olhos mal se moviam; saltavam de uma recordação a outra, desfazendo o presente. De repente seu coração se detinha e parecia que também se detivessem o tempo e o ar da vida.

“Desde que não seja uma nova noite”, ele pensava.

Porque tinha medo das noites que enchiam a escuridão de fantasmas. De encerrar-se com seus fantasmas. Disso tinha medo.

“Sei que dentro de poucas horas virá Abundio com suas mãos ensanguentadas me pedir a ajuda que eu neguei. E eu não terei mãos para tapar os olhos e não vê-lo. Terei de ouvi-lo; até que sua voz se apague com o dia, até que sua voz morra.”

Sentiu mãos que tocavam seus ombros e endireitou o corpo, endurecendo-o.

— Sou eu, dom Pedro — disse Damiana. — Não quer que traga seu almoço?

Pedro Páramo respondeu:

— Vou até lá. Estou indo.

Apoiou-se nos braços de Damiana Cisneros e fez a tentativa de caminhar. Depois de alguns tantos passos caiu, suplicando por dentro; mas sem dizer uma única palavra. Deu uma batida seca contra a terra e foi se desmoronando como se fosse um montão de pedras.

fim

[*] O autor refere-se aos conflitos ocorridos após a Revolução Mexicana, entre os simpatizantes da Igreja, ou “cristeiros”, e os do novo governo. (N. do E.)

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