RANCHO HAVANA – PARA UMBERTO FERREIRA

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RANCHO HAVANA, EM MINAS GERAIS, FOTO: UMBERTO F.

Nunca fui a Paris, nem a Nova York. Já sonhei vivendo em Roma, mas no sonho eu sou um dos cristãos que foram mortos como escravos no primeiro século. Na verdade, devo estar delirando, eu nunca saí do meu vilarejo, nem mesmo em sonho. Aliás, meus caros amigos, sonhar, hoje em dia, também custa muito caro. Sou uma pessoa reservada, sem muitos amigos, conheço pouca gente, afinal não poderia ser de outra forma, pois, antes de vir para cá eu morava em uma vila com menos de mil habitantes.

Se eu tenho um nome? Creio que não seja assim tão importante ter um nome. Acredito que o nome dado a nós, por nossos pais, tem muito mais a ver com eles do que conosco. Eles escolhem com base em algum desejo reprimido, ou movido por alguma crença. Contudo, sempre com boa intenção, acreditam que o nome determinará o que seremos.

Mas é claro, sim, tenho um nome, meu nome será revelado ou escrito indelevelmente com as minhas ações, durante um período da minha vida. Escolhemos ser o que nos agrada ser, somos vaidosos ao extremo de não aceitar que outros ditem para nós o que devemos ser, como viver, a que deus servir, embora os pais, com algum esforço, às vezes, conseguem influenciar os filhos, pelo menos durante um bom tempo, mas cedo ou tarde nos revelamos para o mundo, temos a nossa própria identidade, que vive por um tempo acanhada, subjugada e angustiada, sofremos secretamente pelo fato de não vivermos quem somos de fato. Contudo, chega esse tempo glorioso, em que nos enchemos de coragem moral e gritamos para o mundo, revelamos o que somos no íntimo.

Sonho sempre um sonho estranho, aliás, que sonho não nos parece estranho? Sonhamos não raro com aquilo que não temos, talvez seja por isso que nossos antepassados cunharam esse fenômeno noturno de sonho, algo extraordinário que vivemos fora do corpo ou fora da realidade. Sim, voltemos ao meu sonho, não sei ao certo se é sonho, sei que é tão real que acordo sem saber em que realidade estou, na minha vida pacata, quase miserável ou onde desejaria ficar para sempre, na ilusão paradisíaca do meu sonho ou delírio narcisista.

A ideia que tenho, ao lembrar-me desse meu sonho, isso acontece durante o dia todo; é que daria tudo para que ele fosse verdade. Mas o que tenho de valor, que poderia oferecer em troca, para que alguém, algum gênio ou deuses pudessem querer de mim, para fazer com que esse meu sonho virasse realidade?

Minha atividade secular, aquilo que faço para sobreviver é algo comum, assim como deve ser a vida de todo ser anônimo como eu; a vida das pessoas que vivem a dura realidade da pobreza deve ser sempre igual a minha, sem muita relevância; para o contexto social, cada um vive de acordo as suas posses. Sou cuidador de uma pequena fazenda no interior de minas gerais, na América do Sul, num país chamado Brasil, um belo país, destruído pela ganância, primeiro dos portugueses que ensinaram aos brasileiros como explorar nossas riquezas e nossos nativos, os índios, agora quase todos mortos, e os poucos que restam estão corrompidos; eles que eram os verdadeiros donos da terra.

Tenho um bom patrão, o senhor Umberto, um homem justo, porém rígido demais, tudo para ele tem que estar nos conformes, rigorosamente em seu lugar. Ele vem aqui uma vez por mês, diz ele para seus amigos e parentes, que vem aqui apenas para fazer meu pagamento, mas isso é uma mentira deslavada, ou diria um simples engano, no qual ele escolheu acreditar, ele não vem aqui para trazer meu pagamento, ele vem aqui para fugir da cidade, da sua vida rotineira e enfadonha, apenas aqui ele consegue ser o que ele de fato é, ou desejaria ser, um homem livre.

O senhor Umberto, é, seu nome se escreve assim, com U e não com H, não sei se foi erro do cartório ou foi escolha dos seus pais, um dia ainda pergunto sobre isso. Pois bem, como havia começado a dizer, o senhor Umberto, ao contrário de mim, tem muitos amigos, é isso que penso, porque não raro ele sempre traz alguém diferente com ele, aqui fica por dois ou três dias, faz seu churrasco, toma sua cerveja, como se fosse um sagrado ritual, olha e acaricia os animais, contempla o rio, o lago de peixes, às vezes, em alguma ocasião especial, ele pesca e permite que seus amigos pesquem também. Poucas vezes o vejo assar um peixe grande, ele deve ter muito amor por eles, creio que ele tem muito ciúmes dos seus peixes, afinal foi ele que comprou, alimentou durante anos, então talvez tenha mais amor pelos peixes do que pelos porcos, esses, vez por outra, ele sempre mata um, isso quando atingem a idade certa, então divide comigo a carne gorda e leva apenas um pedaço para sua casa na cidade.

Não tenho filhos, se era isso que iriam me perguntar. Na verdade, caso os tivesse não estaria trabalhando aqui para o senhor Umberto, pois, ele, ao me entrevistar, isso há mais de 10 anos, perguntou-me se eu era casado e se tinha filhos, pois caso eu tivesse, então não seria meu o emprego, segundo ele, depois de várias experiências ruins, com caseiros que tinham família, ele havia decidido que não mais contrataria caseiro com filhos.

Esperem um pouco, houve um corte no meu raciocínio, pois fui bruscamente interrompido, enquanto escrevia esta narrativa. Minha mulher deu um dos seus gritos, bem aqui ao meu lado, reclamando das galinhas que vivem invadindo a sua horta. Voltemos, pois, ao que interessa. Sem querer revelei que tenho esposa, sou casado, já por mais de 20 anos.

Conheci minha mulher em uma festa da padroeira da cidade, da vila onde moramos que chamamos de cidade. Ela era muito bela, (apesar de bem) morena, hoje nem tanto, afinal o tempo muda tudo. Ela era vibrante, foram os seus olhos negros que me enfeitiçaram, também as suas lindas e torneadas pernas, até lhe fiz um poema, digo, para as suas pernas, que eram como duas torres de mármore, mas o encanto passou, hoje cada um de nós vive a sua própria vida, somos, diria, bons amigos, mas me disse o senhor Umberto que isto é normal, com o tempo se acabam a paixão, o desejo, fica a amizade.

E, no final, é amizade que realmente conta. Eu gostaria muito de ter um amigo. Nunca tive um bom amigo, alguém com quem pudesse contar, nas horas mais difíceis e especialmente nas horas boas, alguém com quem eu pudesse compartilhar minhas conquistas, minhas alegrias, minhas desilusões e desejos mais secretos; creio que deve ser este o empenho de todo homem, encontrar um verdadeiro amigo. Já li sobre uma linda amizade, entre dois homens, era tão sublime, que um cantou na morte do outro: “Sua amizade é para mim mais importante que o amor das mulheres.”.

Devemos concordar, que isso que falei, sobre ter um amigo fiel e justo, sincero e imparcial, alguém com quem pudéssemos dividir tudo que somos, digo lá do mais secreto do nosso âmago, é realmente uma utopia. Nenhum homem revela seus segredos para outro, temos uma necessidade irrevogável de manter alguns bem-guardados, os inconfessáveis até para Deus, coisas só nossas, pois, se caso fizéssemos, seria como expor a totalidade da nossa alma.

Durante este tempo em que vivo aqui, já observei muitas atitudes negativas dos convidados do senhor Umberto, pude perceber, por exemplo, que ele não tem assim tantos amigos, como cheguei a pensar isso no início, quando aqui cheguei. Quando ele aqui chega, segue sua rotina, não raro, os convidados caem na folia, na piscina, na bebedeira, sozinhos, enquanto o senhor Umberto cuida em verificar se as coisas estão em seus devidos lugares. Penso que o fato de as pessoas comerem juntas numa mesma mesa não as torna melhores amigos. Contudo, já ouvi o senhor Umberto dizer creio que em conversa reservada, acho que foi para mim que ele falou, isso mais de uma vez na verdade: “Quem é meu amigo bebe comigo”. Quanta verdade há nessa expressão? Às vezes penso, pode ser verdade, todavia, espero então o dia em que alguém me convide para sua casa, isso não de forma casual, por educação, ou por obrigação, mas que chegue para mim e diga-me: “Quero você em minha casa tal dia, pois vamos queimar uma carninha, faço questão da sua presença.”.

O senhor Umberto é um homem bom, como disse antes, extremamente honesto. Ele sempre me paga antes do dia ou no dia exato. Às vezes acho até que ele é preocupado demais com esta questão de ser correto com suas coisas. Tenho minhas dúvidas se ele é um homem feliz, sempre achei que preocupação exagerada não faz bem para saúde mental. Outra coisa que não sei explicar é o fato de ele vir muitas vezes, na maioria das vezes sem sua esposa. Eu a conheço, ela é uma senhora educadíssima, muito delicada e gentil, mas não sei por que não vem junto com o marido toda vez, talvez não tenha boa saúde, contudo, não me atrevi ainda a perguntar, temos sempre o cuidado em manter o limite certo entre empregado e patrão.

Esse assunto de cunho íntimo, entre marido e mulher, não deve preocupar a terceiros, cada um deve saber onde carrega sua pedra no sapato. Eu, por exemplo, como já dito, tenho cá meus problemas maritais, minha mulher vive com seus botões, agulhas e linhas, eu com vacas e cavalos, ela com flores, milhos e galinhas. Mas à noite, no fechar das portas, somos um casal igual a tantos outros, que de dia não se toca, mas à noite se fazem em pedaços, até alcançar o êxtase romântico, o prazer carnal, que nos garante a sanidade e a coragem necessária para enfrentar um novo dia.

Lembro-me do primeiro dia, quando aqui cheguei, com quanto espanto vislumbrei este lugar. Dentro de um deserto, encontrei um oásis, é assim que parece o Rancho Havana, para todos que o conhecem, na primeira vista. Todas as fazendas que cercam o Rancho Havana são barracos, ou taperas malcuidados. A impressão que temos é a de que, em mais de sessenta quilômetros de estrada de chão, até chegar à porteira do Rancho Havana não há vida, tudo é escuro, desalinhado, sem cor, sem beleza. Contudo, ao adentrar o Rancho, respiramos livremente e, como que por encanto, parece encontrarmos a paz. Mesmo com tanta beleza, o Rancho tem seus problemas, especialmente para o seu dono, o maior deles é sua manutenção, isso requer muito trabalho e dinheiro envolvidos. Talvez pelo fato de o Senhor Umberto não poder viver aqui de forma definitiva, essa despesa sobe bastante. Imaginem quanto ele deve gastar em cada viagem que faz até aqui, depois o incômodo de largar algo tão valioso nas mãos de estranhos, é verdade o provérbio que diz: quem tem posses não tem paz. Há outro pensamento que diz: a propriedade é um roubo. Penso que talvez, cedo ou tarde ele deve vender este paraíso, então penso o que será da minha vida e da minha esposa, estamos de fato muito habituados, até acomodados demais neste pedaço do céu.

Já prevendo isso, tenho feito algumas economias, se bem que o objetivo era viajar com a minha esposa, talvez um cruzeiro. Disse-me o senhor Umberto que não custa assim tão caro, talvez o dinheiro que ajuntei durante estes dez anos, quem sabe não será suficiente. Ele me disse que viaja todo ano, já conhece a Europa, Os Estados Unidos e as Ilhas do Caribe. Às vezes me pergunto, por que temos esse desejo latente de viajar, por que nunca estamos contentes com o que temos, nem com o lugar onde moramos, pois quem viaja, deve ser para buscar novos horizontes, viver algum tipo de emoção que lhes falta. Tenho essa dúvida, será que ao voltar dessas viagens as pessoas se sentem mais felizes, ou, na verdade, sentem alívio em voltar para casa?

O senhor Umberto me contou como foi que achou o nome para o rancho, de onde ele tirou a ideia luminosa. Foi uma das primeiras boas prosas que tivemos. Logo que me acomodei na minha casa, digo na casa do caseiro, era um belo domingo de sol, havia acordado muito cedo, lá pelas seis da manhã, então ao sair para me espreguiçar, encontrei seu Umberto já de pé, ao lado do fogão, fazendo seu delicioso café cubano, então lhe perguntei:

— Senhor Umberto, diga-me uma coisa, como escolheu esse nome para o rancho?

— Foi de uma maneira um tanto incomum.

— Então me conte.

— Bem, eu trabalhei num banco em Brasília, por muitos anos, então ganhei de um cliente uma garrafa de cachaça, pinga especial, e a pinga tem este nome, Havana. Guardei por quinze anos a garrafa, esperando uma data especial para abri-la, até que no dia da inauguração do rancho, ficamos a nos perguntar que nome eu daria ao rancho; logo alguém sugeriu que fosse Rancho Havana, claro, inspirado pela cachaça de excelente qualidade.

— Então foi isso!

Às seis da manhã, os pássaros fazem sua revoada, sabiás, bem-te-vis, canários, azulões, mas o que nos causa maior espanto e encantamento, é ouvir a sinfonia dos macacos-prego, parece nos transportar para pré-história, aos nossos ancestrais, quando vivíamos uma vida tribal, livre em contato direto com a natureza, tudo isso nos causa medo e reverência, é impagável experimentar essa sensação. Na verdade, eu tenho muita pena do senhor Umberto, não sei como será sua vida depois que vender o rancho.

 

Por Evan do Carmo, Brasília 09 /09/2018

Em homenagem ao amigo Umberto Ferreira

Por Evan do Carmo, Brasília 09 /09/2018

Em homenagem ao amigo Umberto Ferreira

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