CRÍTICA SOBRE O LIVRO “FRAGMENTOS DO CAOS” DE EVAN DO CAMO

O EMERGIR DO CAOS NA CONSUBSTANCIAÇÃO DO SER

A vida que nós recebemos nos foi dada não para que simplesmente a admiremos, mas para que estejamos sempre à procura de uma nova verdade escondida dentro de nós.   

                               (Leon Tolstói)

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OBRA MAIS RELEVANTE, DA PROSA DO AUTOR, SEGUNDO ELE MESMO, 2019

Sol a pino. Vermelho igual labareda de fogo lambendo as coivaras no meio da roça. Dias assim a minh’alma se in_quieta. Ressurge o desejo de voo. O peito parece caminho de procissão. As palavras tamborinam por dentro pedindo passagem. O coração se desmantela todo.  Os meus olhos (de salamandra negra escondida entre as brechas do barro em parede de taipa) parecem duas jangadas no vai-e-vem das ondas pelo cair da tarde. Dias assim sou pouco hospitaleiro. Entrincheiro-me em brabeza e valentia, igual os ‘cabras’ de Lampião na rudeza da caatinga, ante o frio olhar dos volantes.

Foi em um dia igual a este que Evan do Carmo me enviou o seu livro “Fragmentos do caos”. Li sem pestanejar. A um só fôlego. Feito um sertanejo nordestino elevando suas preces ao provedor da chuva. A alegria foi tanta que o sol, de súbito, se derreteu em intensa água. Abrandando a minh’alma aos meus assentos de terra. Em uma gastura humana familiar. No mesmo instante o jogo cruzado da vida e da morte me apanhou o ser em um empréstimo de afeto. Fui me des_gastando aos poucos. Lendo devagar. Colonizando-me aos amarres do existir em uma vicissitude de abelha sugando uma flor.

Apreciei o livro como se fosse uma canoa sobre as corredeiras de um rio. Respeitoso. Furtivo. Bravio. Esperançoso. Feito sombra que o corpo projeta. Desprovido de solo, raízes e húmus. Palavras não podem traduzir. Evan do Carmo agasalha cada texto em uma arrumação de casa e arranjo de fé. Aludindo seus escritos aos nossos abismos sem fim. Como se fossem fendas ordenando as nossas des-ordem de ser. Em uma conotação de imprevisível caos. Incorporando-nos a um processo de contínua re-construção “Já faz alguns anos que me afastei da minha parentela, nunca mais falei com meus pais.”

Nestes “Fragmentos do caos” o ser humano é um sistema caótico rebocado de esperança “Irei rever minha cidade, parentes, primos e primas, uma multidão de pessoas que não faz mais parte da minha vida.” Evan do Carmo nos aponta que “mas cedo ou tarde nos revelamos para o mundo, temos a nossa própria identidade, que vive por um tempo acanhada, subjugada e angustiada, sofremos secretamente pelo fato de não vivermos quem somos de fato. Contudo, chega este tempo glorioso, em que nos enchemos de coragem moral e gritamos para o mundo, revelamos o que somos no íntimo.”

Há uma tematização de coisas no livro que nos deixa à beira da morte. Tanto por perplexidade e assombro quanto por desprendimento e destemor. Evan do Carmo costura em cada crônica, mesmo que aleatória e circunstancial, os seus constructos de ser. Seus arranjos de existir. Suas internas buscas existenciais. Percebemos os rumos sem sabermos das chegadas. Cada acontecimento se propaga de forma singular “cada um com sua peculiaridade, cada cena com que me deparava, revelava-me um mundo novo. Foi mágico, incomum (…) guardei no coração algo que jamais esquecerei.”

O contexto narrativo nos surpreende pela força. Seja em ocupação ou em pertencimento. Tudo se irrompe em possibilidades. Apontando-nos as expectativas. Seja em abnegação. Seja em despertamento. Seja em compreensão. Tudo se avoluma diante de nossos olhos, dignamente, em atos de fé e coragem. Em sentimento de heroicidade “meu pai era alto e moreno, tinha ombros largos como eu, era um homem bonito, mas não me recordo que alimentasse alguma vaidade nem vícios. Trabalhava incansavelmente.” O caos vivencial de Evan do Carmo desperta o que de mais humano há em nós. O livre-arbítrio.

Estes “Fragmentos do caos” de Evan se des_organizam em constante equilíbrio. Com suas afinidades, similaridades, singularidades, afetividades e facticidades. Em uma dinâmica relacional muito presente (e conhecida) na escrita do autor. Em que sujeito e mundo se compõem indissociáveis, desafiando o leitor a uma equação compreensiva e diferenciada. Desvelando do caos o cosmos de Deus “um modelo moral, uma perfeição”. E dos homens a descrição comportamental do mundo “fonte de onde se extrai bênção e maldição”. Exibindo assim a sua ideia de mundo, de coisas e de ser.

Há distintas posturas expressas no livro. Bem como, diferentes histórias e discursos narrativos. É notável o zelo, a distinção e o cuidado de Evan na composição de suas crônicas. No desdobramento das ideias. A leitura se torna confiável e prazerosa. Dá-nos razões para avançar as páginas sem medo. Vagarosamente, como loucos errantes em suas naus fantasmas em busca do porto seguro, confiamos nossos olhos à inventividade evaniana. Sabendo “o que de fato somos e não admitimos (…) aquele que pensa e não realiza, deseja e não tem coragem de abraçar os desejos mais latentes na alma.”

De maneira sutil (e apropriadamente necessária) Evan do Carmo retrata diante de nós um extenso painel vivencial. Um imenso mosaico. Esboça um olhar crítico (e relevante) acerca do existir humano. Com extrema sensibilidade (e destreza) tece um leque de sofrimentos, privações, desprendimentos e superações. Formando um longo  (e necessário) lastro  de in_quietudes e sonhos “o homem é um animal inconformado com seu instinto, por isso persiste na crença de que possui a caixa de pandora, um poder mágico para criar e destruir com a mesma intensidade, com máxima inteligência.”

Eis a beleza do livro: ele não se postula a findar em si mesmo “não podemos ter a glória do esquecimento dos homens comuns, sobretudo os gênios, os escritores que vieram ao mundo para se eternizarem pelo fôlego eterno dos livros, que conseguem vencer todas as barreiras do tempo. Em todas as épocas da humanidade, até mesmo deuses se passaram por escritores para se eternizarem no universo imortal da literatura.” Evan do Carmo nos mostra que “a vida respira de modo inescusável no texto escrito.” Negar isto é se sucumbir “no pântano da inutilidade do esquecimento.”

Portanto, ler estes “Fragmentos do caos”, de Evan do Carmo, nos substancia a alma a um incontido prazer. Afinal, como bem diz o autor “não tenho grandes coisas para te oferecer, todavia, posso te ensinar algo de valor imensurável. Algo que nunca ouvistes falar.” Resta-nos então, saborear o livro com deleite inigualável. Reservando-nos a uma fortuita e (e afetuosa) abstração. Consubstanciando o caos no emergir do ser, pelo árduo caminho da leitura  “que rouba-nos as almas mais queridas e nos acomete de uma espécie de loucura (…) em mais uma viagem pelo mundo dos sonhos dos mortais.”

Por fim, pergunto eu: “Quantos séculos” serão “necessários para surgir outro gênio do quilate” de Evan do Carmo? Com honra e imensa alegria recomendo este livro.

Boa leitura.

Alufa Licuta Oxoronga

Psicólogo e poeta

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