SIMULAÇÕES DE LOUCURA – DAVI X HAMLET

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Há tempo tenho relutado para não aceitar este convite de divino, o de escrever sobre a poesia contida na Bíblia, na palavra inspirada de Deus. Contudo, estudos seculares que tenho feito da literatura universal, sobretudo da literatura clássica, revelaram-me coisas intrigantes, tais como o fato de grandes obras terem sido escritas com base em textos bíblicos, como paráfrases ou inspirações. Por exemplo, inspirações no livro Jó e em outros personagens bíblicos como Davi e tantos outros.

Para citar algum como exemplo, brevemente: Na obra literária, Hamlet, do imortal e incomparável Shakespeare há uma breve cena onde o escritor põe seu protagonista para repetir uma cena escrita e encenada por Davi, quando para não ser morto se finge de louco. Portanto a loucura de Hamlet idealizada por Shakespeare foi inspirada na original façanha teatral do rei Davi.

(…) “Naquele dia, Davi partiu e continuou a fugir de Saul, e por fim chegou ao território de Aquis, rei de Gate.  Os servos de Aquis disseram a ele: “Esse não é Davi, rei da terra de Israel? Não foi sobre ele que cantavam nas danças, dizendo: ‘Saul matou milhares, e Davi dezenas de milhares’?”   Pensando no que eles disseram, Davi ficou com muito medo de Aquis, rei de Gate. Portanto, na presença deles, disfarçou a sua sanidade e agiu como louco no meio deles. Ele rabiscava os portões e deixava escorrer saliva sobre a barba. Por fim, Aquis disse aos seus servos: “Não estão vendo que este homem é louco? Por que o trouxeram a mim? Já não tenho loucos o bastante para vocês me trazerem mais um? Deveria este homem entrar na minha casa? ”(…)        * I Samuel 21: 10-15

Hamlet finge-se de louco para conseguir vingar a morte do falecido Rei Hamlet, seu pai; então sua melancolia dissimulada chega tal ponto de realidade que o leva a filosofar sobre o suicídio. É na pele do seu protagonista mais famoso e racional, ao simular magistralmente o espírito da loucura – que Shakespeare produz a tese da angústia em uma “alma suicida”:

HAMLET: Se ao menos o Eterno não houvesse condenado o suicídio! Ó Deus! Ó Deus! Como se me afiguram fastidiosas, fúteis e vãs as coisas deste mundo!

(Hamlet – ATO I CENA I)

HAMLET: Ser ou não ser… Eis a questão. Que é mais nobre para a alma: suportar os dardos e arremessos do fado sempre adverso, ou armar-se contra um mar de desventuras e dar-lhes fim tentando resistir-lhes? Morrer… dormir… mais nada… Imaginar que um sono põe remate aos sofrimentos do coração e aos golpes infinitos que constituem a natural herança da carne, é solução para almejar-se. Morrer.., dormir… dormir… Talvez sonhar… É aí que bate o ponto. O não sabermos que sonhos poderá trazer o sono da morte, quando alfim desenrolarmos toda a meada mortal, nos põe suspensos. É essa idéia que torna verdadeira calamidade a vida assim tão longa! Pois quem suportaria o escárnio e os golpes do mundo, as injustiças dos mais fortes, os maus-tratos dos tolos, a agonia do amor não retribuído, as leis amorosas, a implicância dos chefes e o desprezo da inépcia contra o mérito paciente, se estivesse em suas mãos obter sossego com um punhal? Que fardos levaria nesta vida cansada, a suar, gemendo, se não por temer algo após a morte – terra desconhecida de cujo âmbito jamais ninguém voltou – que nos inibe a vontade, fazendo que aceitemos os males conhecidos, sem buscarmos refúgio noutros males ignorados? De todos faz covardes a consciência. (Hamlet – ATO III CENA I).

 

Evan do Carmo

 

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