OFICINA LITERÁRIA – PARTE DE UM TRABALHO EM CONSTRUÇÃO

goethe

Este livro nasceu da minha necessidade pessoal de materializar aulas práticas, que fossem em forma de palestras e, ao mesmo tempo, tivessem a didática de uma oficina literária, com todas as ferramentas capazes de formatar na mente dos meus alunos, as condições reais para que os mesmos fossem capazes de entender como se dá o processo criativo da literatura. Com isso em mente, foi necessário desenvolver técnicas simples e eficazes, afim de satisfazer o desejo de todos que almejam criar boa literatura, em várias formas e nuances, como poemas, contos, crônicas e até romances.

SOBRE A ORIGEM DA POESIA

 Há poesia em tudo

a poesia está nos olhos

do amante da beleza,

está no vulto de quem anda

pelas sombras do viver.

 

… a poesia está no vento

no singelo olhar da moça,

que na janela sonha com

o encantado amor

do príncipe ou do plebeu.

 

a poesia está em ti e em mim

quando choramos e quando

rimos, ela está nas mãos

e nos pés do andarilho.

 

a poesia quando vem

vem com lágrimas

vem de repente

quando não se espera

e nem se sente…

 

a poesia tenta nos dizer

o que a lógica e o absurdo

não conseguem…

 

a poesia quando fala

toda razão cala

e o poeta e o leitor

morrem, silenciam-se!

 

É preciso um motivo para se criar a poesia? Digamos que seja verdade, a resposta sim, a essa pergunta. Então que motivos são ideias ou capazes de despertar o poeta em cada um de nós?

A poesia está em nossa volta, em tudo que existe, é o que afirma o poema acima. Então a primeira qualidade que devemos desenvolver, se desejamos de fato fazer boa poesia, é a capacidade de sentir – de sentir a dor do outro, também de sentir a alegria de quem se alegra e participar dessa alegria, como se fôssemos convidados de honra para uma festa de casamento. E quanto a dor, devemos chorar com os que choram, mostrar empatia por quem sofre, como se fôssemos também vítima da mesma dor, do mesmo sofrimento.

Contudo, para que isso ocorra de maneira eficaz é necessário que o poeta saiba olhar e enxergar o que ver, ele deve ser um bom observador, seja de um fato, de uma paisagem, de um evento, de uma tragédia ou de uma comédia humana. Então, de forma simples, eu digo que para se tornar poeta a pessoa precisa amadurecer emocionalmente, a ponto de chorar a miséria do mundo, ser capaz de indigna-se, e, muitas vezes, se faz necessário que essa pessoa tenha coragem para expressar aquilo que lhe faz sofrer, e isso de uma forma bela, sútil, singela, lúdica e apropriada para que sua linguagem, que em outro seria comum, vire boa poesia.

                Então, se a pessoa for insensível, por algum motivo alheio à sua consciência, ou por conta de um trauma pessoal sofrido ela não consiga ser capaz de demostrar empatia pelos outros, se a maldade humana lhe causou danos emocionais profundos, capazes de transformá-la em alguém que não liga para o que acontece no mundo, ou em sua volta; portanto, essa pessoa não poderá produzir a verdadeira poesia. Falo de poesia com dignidade humana, pois o poeta, a meu ver, deve ser alguém que sofra com o sofrimento do seu semelhante, é por isso que o poeta é assim tão suscetível a muitas paixões, pois ele, geralmente é atraído sobremaneira pela beleza e pela dor que chega aos seus olhos atentos.

 

(…)a poesia tenta nos dizer

o que a lógica e o absurdo

não conseguem.(…)

 

Ainda que consigamos assimilar de forma perfeita tudo que foi dito sobre a maturidade emocional do poeta, sobre a sua capacidade plena de observação, ainda existirá outras formas de sentir a poesia, pois sua sutileza muitas vezes supera a sua invisibilidade, e isso ocorre quando a poesia surge de repente, como nos diz o poema já citado.

Muitas vezes sentimos angústias que não compreendemos, ou mesmo uma revolta existencial que aflora sem que saibamos a razão, nessa hora o poeta escreve em forma de delírio, como se sofresse de um surto psicótico, e isso nada tem a ver com psicografia, pois a única alma que o poeta é capaz de psicografar é a sua própria, alma essa que nem mesmo os grandes poetas são capazes de conhecer totalmente. Todos nós temos um submundo que desconhecemos, e vez por outra somos arrastados para um abismo de sentimentos estranhos, que nos obrigar a escrever mantras, cânticos, odes à tristeza ou à alegria, poemas que não reconhecemos as suas origens.

 

(…)a poesia quando fala

toda razão cala

e o poeta e o leitor

morrem, silenciam-se.(…)

Podemos falar agora, um pouco sobre a Licença Poética, pois segundo o verso acima, a poesia não precisa de razão ou lógica, algo que já ficou esclarecido no texto acima. Contudo muitas vezes precisamos sair da linguagem convencional, para dizer certas coisas que sem a poesia não seria possível. Isso acontece quando o poeta extrapola com sua língua culta, educada, quando se expressa de modo incomum para alcançar o resultado que deseja com sua poesia, exemplo, sobre fatos que incomodam a alma do poeta, como a injustiça social, a violência, a maldade humana, muitas somos levados para outro universo, mundo esse que nos permite dizer qualquer coisa, assim, a poesia ativista por exemplo é um bom exemplo para explicar esta matéria. Licença Poética, é uma liberdade de expressão que não está disponível aquém poeta não é.  Neruda, Carlos Drummond são bons autores para se estudar sobre essa forma de supra liberdade de expressão, coisa que para a maioria dos poetas não é possível alcançar.

SOBRE VÁRIAS FORMAS DE POESIAS

 Poesia romântica: É uma forma clássica, carregada de lirismo, que remonta os primórdios da criação poética, onde existe a figura da musa como mulher ou divindade, este modelo ainda é usado por grande parte dos poetas modernos e pós-modernos. A história oficial dá conta de que a poesia romântica foi um movimento artístico, intelectual, envolvendo música literatura, datado no século 18, contudo, a poesia romântica remonta à época de Homero. Todavia, é fato que esse movimento a tornou mais conhecido universalmente, mas a poesia romântica hoje continua ativa entre a maioria dos poetas atuais. Existe e sempre existirá essa forma de expressão, na qual o objeto de adoração é a musa, para quem o poeta canta com sua lira, afinado na sintonia do amor romântico.

CRAVO


O cravo brotou no prado,
desconhecido e corado,
um cravo pequeno e brando.
Mas uma jovem pastora
passava ali naquela hora
sorrindo e cantarolando…

“Fosse eu o cravo mais lindo
do mundo!”, disse sorrindo,
“…só por um momento, ser
colhido pela mais bela,
e premido ao seio dela,
eu poderia morrer.”

Mas a pastora indecisa,
Ao não notar onde pisa,
Calcou o cravo amador.
E esmaecendo, ele sorria:
posso morrer com alegria
– morro aos pés do meu amor!

O poema de Goethe, posto acima, é carregado de uma força descomunal em seu lirismo de morte e, ao mesmo tempo em que parece um poema vulgar, sobre o amor desesperado de um cravo, figura lírica de quem o poeta se apossou, para engendrar um drama romântico, sua beleza além da nossa capacidade de assimilar ou compreender, pois na sua conclusão, Goethe revela-nos a sua quase divindade, ao compor algo tão singelo, mas que de uma beleza estética incomparável.

A poesia pode ser romântica em qualquer época, embora simples, desde que tenha força intelectual, musicalidade e beleza estética. Escrever sobre um cravo, sobre uma margarida, sobre qualquer espécie de flor do serrado ou sobre um mandacaru do sertão, tudo isso é possível se transformar em boa poesia.

Mas é preciso que exista verdade nas palavras que comporão a cena, o drama, ou mesmo a comédia do amor romântico. Ainda sobre o Cravo Goethe, ele não nos fez lembrar aquela música infantil, que diz: “O cravo brigou com a rosa.? ”

Se formos capazes de memorizar a cena que o poema nos induz a criar, veremos que sempre que ouvirmos falar de cravo, numa música ou num poema, logo vamos recordar o efeito que o poema em questão lhe causou. Portanto, o que digo sobre a simplicidade da poesia não quer dizer que a poesia deve ser comum, simplória como canção para criança. Contudo, mesmo que você use símbolos comuns como um cravo, uma flor, ou uma rosa, assim, o bom poeta pode criar uma obra-prima, inesquecível, como o cravo de Goethe.

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