Beijo com gosto de café

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O despertador tocou, eram seis horas da manhã. Despertado do sono leve, com quem se tinha abraçado lá pelas três horas da madrugada, depois de uma luta com a insônia rotineira, fruto do excesso de café e de adrenalina dos pensamentos inquietantes de um filósofo, se espreguiça, estica as pernas, e, em seguida se senta na cama. Faz uma breve oração, não sabemos exatamente o que dissera para Deus, só sabemos que fizera uma oração, porque baixou a cabeça e balbuciou algumas palavras silenciosas. De pé, olha para a esposa, que ainda dorme profundamente, pois ao contrário dele, sua esposa não sabia o que era insônia nem filosofia.

Andou silenciosamente até a porta do quarto, foi ao banheiro, fez xixi, se olhou no espelho, arrumou os cabelos, mas não escovou os dentes, pois sempre dissera para esposa que achava um desperdício, escovar os dentes antes de tomar o café. Saiu do banheiro e foi à cozinha, botou café no fogo, abriu a geladeira, pegou um recipiente onde guardavam massa de fazer tapioca, fez seu lanche matinal, gostava de ser independente. Outras vezes, além de fazer seu próprio café ou almoço, ainda levava às mãos da esposa, não raro levava café da manhã na cama para esposa, sentia grande prazer em fazer sua própria comida.

Depois do café solitário, pois a esposa ainda dormia. Dirigiu-se ao seu escritório, seu jardim do éden, onde ele se esquecia do mundo e das pessoas que não faziam parte dos seus romances. Era um homem reservado, um escritor de pouco sucesso, mas já havia publicado alguns livros, alguns em outras línguas, em inglês e em espanhol, mas ainda não havia ganhado dinheiro suficiente para comprar uma casa ou para fazer uma longa viagem pelo mundo, desejo que sempre acalentou, mas que só realizaria quando conseguisse algum reconhecimento do seu trabalho. A esposa tinha posses, mas ele, por orgulho, nunca aceitara ser mantido ou patrocinado pela família da mulher.

No escritório, se senta em sua mesa de estudo e de escrita, antes de escrever em alguns dos seus livros, projetos intermináveis em andamento, foi primeiro aos sites de notícias. Queria saber das últimas notícias locais, se atualizar sobre tudo que acontecera no mundo enquanto dormia. Como todo jornalista, era viciado em informação. Ao abrir o site do jornal local, que não era de todo sensacionalista, se depara com uma notícia sobre um acidente que acontecera de madrugada. Alguém batera um carro em alta velocidade, morrera um casal e uma criança de um ano apenas. Ele se choca com a notícia e pensa: “Que notícia terrível, que mundo louco.” Voltou os olhos à tela do computador, leu os detalhes do acidente, vira os nomes das vítimas, teve um sobressalto, uma forma de alívio, ao constatar que não se tratava de pessoas do seu conhecimento. Soube que o carro das vítimas fora atingido por outro carro, que andava na contramão, e que o motorista estava embriagado, que apesar do choque frontal não sofrera nada além de arranhões.

Depois que se recupera da má notícia, o escritor abre um dos seus romances, um ensaio sobre o preconceito, e volta à cena, onde seu protagonista conversava com um amigo sobre um assédio moral que sofrera no trabalho.

Dizia o amigo: Meu caro Herculano, você está fazendo tempestade em copo d’água, não acredito que isso que acaba de me contar seja algo assim tão terrível, se a sua patroa lhe fez esta proposta é porque ela deve ter lá seus motivos. Trata-se de uma bela mulher, rica e inteligente. Além do mais, uma pessoa na sua posição não iria expor-se dessa maneira, caso não estivesse de fato interessada em você, meu caro amigo. Você é mesmo um homem de muita sorte.

Não se trata disso, meu caro Fernando, ela sabe que sou casado, e que eu nunca lhe daria motivo para alimentar alguma esperança a meu respeito, e, quanto a minha lealdade à minha esposa isto é assunto inegociável, vou pedir demissão antes que as coisas se tornem ainda mais difíceis.

Para o diálogo do livro e volta à realidade. Escuta um barulho na cozinha, fora a mulher que acordara.  Está fazendo seu café, ele sentiu vontade de lhe acompanhar ao café, levanta-se do seu trono, cadeira de onde exercia papel supremo, de um deus-criador. Entra na cozinha devagarinho, a esposa está de costa para porta, abraça-a por trás e beija-lhe o pescoço, ela se arrepia, levanta-se, vira-se para o marido e lhe dá um beijo com gosto de café.

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