A prostituta

A prostituta

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UM CONTO DO LIVRO FRAGMENTOS DO CAOS

Luíza veio do Sul, em busca de um futuro melhor no Norte, na cidade de seus sonhos, Luíza ouvia dizer que as pessoas que moravam na cidade grande eram mais felizes, mas não desejava sair do seu lugar, que embora simples, parecia um pedaço do paraíso, pelo menos enquanto acreditava no amor e na honestidade de um homem, seu escolhido. Não teria saído nunca se os seus sonhos tivessem se realizado, porém, depois de sofrer uma desilusão amorosa, ela resolveu deixar família e todos os seus pesadelos para trás, e nunca mais retornou à sua terra. Soube da morte dos pais por carta, mas nem mesmo esse fato a fez mudar de ideia, saiu para nunca mais voltar.

Luíza, hoje tem convicções bem definidas com relação ao mundo e às pessoas que aprendeu a desprezar, mundo que acredita ser um grande engano. Luíza não crê no ser humano, as pessoas são todas desprovidas de qualquer parcela de bondade. Ainda criança, percebeu nas atitudes dos seus pais, que o que importa para a sociedade é o que as pessoas aparentam ser, não o que são realmente. Cresceu vendo seus pais miseráveis brigarem como cachorros. Além da miséria com que teve de conviver, teve que suportar os abusos de um pai alcoólatra, de moral duvidosa, um ser humano desprezível, um verdadeiro filho da puta. Até a sua mãe, ao contrário da maioria das mulheres provincianas, não lhe fora um bom exemplo, traía seu pai na mesma medida que era traída. Luíza via, desde pequena, homens entrando e saindo, à noite, do quarto de sua mãe. Sem ter irmãos maiores nem menores, suportou sozinha toda delinquência dos seus genitores.

Não se pode dizer que foi apenas por esse motivo, que Luíza tenha caído na vida difícil de prostituta. Ao chegar à cidade dos seus sonhos, foi recebida por uma gente esnobe, a cidade grande não tinha para ela os encantos do seu pacato vilarejo. Ali tudo era frio, as pessoas não se cumprimentavam.  Isso para ela era muito complicado, pois no início saía cumprimentando todo mundo, e não obtinha resposta, mas logo entendeu a frieza das pessoas e não mais cumprimentou ninguém. Apesar de jovem e bela, Luíza não conseguiu fazer amizade com alguém de sua classe social. Tentou trabalhar em casa de família, mas logo desistiu. Tinha o sonho de estudar e se tornar médica, mas teve logo de esquecer, pelo menos por algum tempo. Na primeira casa em que arrumou trabalho, sofreu assédio do patrão e desconfiança da patroa, que preferiu acreditar no marido, mandando-a embora. Humilhada Luíza percebeu que sua tese sobre a humanidade era verdadeira. Tentou trabalhar em bares como garçonete, mas não tinha jeito com os clientes, que não raro lhe tratavam como prostituta.

Depois de várias tentativas para levar uma vida honrada, Luíza resolve fazer um estudo sobre si mesma e sobre os homens com quem irá se relacionar, para se certificar de que a vida não passava de uma mera ilusão, sobre questões morais, haveria de justificar sua conduta, seu corpo era sua única propriedade e objeto de estudo, ninguém poderia interferir em sua escolha, e o resultado seria apenas conhecido por ela. Saberia depois como usar toda sua experiência sobre a vida de uma prostituta livre. Luíza reconhecia que tinha o direito sobre sua vida, e que o caminho escolhido deveria ser trilhado sem arrependimentos, só assim poderia dizer que fora livre, que não vivera por obrigações e convenções sociais.

Depois de tomar um banho quente e bem demorado, Luíza veste seu vestido vermelho, perfuma-se e parte para sua primeira noite de trabalho. Luíza é jovem e bela, e tem atrativos que lhe foram dados por uma natureza muito generosa, Luíza não tem necessidade de esconder com pintura a sua tristeza nem a sua idade. Luíza não teve filhos ainda, ela sabe que o mundo é cruel, os homens covardes. Luíza tem um sonho impossível – encontrar alguém que não queira alugar seu corpo, mas que saiba conquistar a sua alma.

Mas enquanto esse dia não chega, Luíza continua na vida que escolheu, talvez por não ter outra opção. As prostitutas de luxo têm seus pontos, cafetinas que as agenciam prestam seus serviços amorosos a políticos importantes, ganham bem, mas Luíza não tem ponto certo. A prostituição não é bem vista, apesar de existir algumas à moda da Grécia, onde existia um grupo de cortesãs, chamadas hetairas, que frequentavam as reuniões dos grandes intelectuais da época. Eram muito ricas, belas, cultas e consideradas como damas finas e tinham grande poder político. Eram extremamente respeitadas. No Brasil a realidade das prostitutas pobres é bem diferente. Luíza precisa trabalhar duramente todas as noites para comer e pagar aluguel de um quarto miserável.

Vamos acompanhar Luíza por alguns anos, para conhecer o seu modo peculiar de vender seu corpo a estranhos. E para onde vai Luíza? Ela desce a rua estreita, rumo à estrada federal que corta a cidade grande. Seu ponto de negócio é a estrada da morte, lugar conhecido por grandes acidentes. É noite, mas não muito tarde, os faróis dos carros lhe dão a sensação de embriaguez, não pensa em outra coisa, só em arrumar logo um pretendente que lhe garanta a comida do dia seguinte.

Há algum mistério no ar, diria algum vizinho atento. As pessoas que conhecem Luíza não sabem que ela vende o corpo na estrada da morte, menos ainda que ela seja uma mulher tão miserável e solitária, pois quando por acaso cumprimenta vizinhos, deixa uma ótima impressão sobre sua pessoa, é sem sombra de dúvida uma pessoa boa, de alma generosa, e, sobretudo, trabalhadeira, todos pensam que ela trabalha à noite em algum setor noturno, sem, todavia, desconfiar do seu verdadeiro ofício, sua conduta e postura nobre não desperta qualquer suspeita. Mas ninguém sabe realmente quem é Luíza. Entre e sai de sua casa, geralmente quando não há alma viva por perto. Luíza tem alma discreta, característica de quem sofre calado alguma dor emocional.

Luíza se apronta para parar um carro, que vem em baixa velocidade. Bem vestida, uma mulher pode despertar a atenção de quem passa à noite, por uma estrada deserta. Ela acena para o motorista, que lentamente diminui a marcha para estacionar no acostamento escuro. Luíza não treme de medo, mas se emociona por perceber a situação que lhe espera – ter encontro íntimo com um desconhecido, com alguém que pode lhe causar dor, mesmo que não lhe maltrate fisicamente.

Enquanto o carro para, Luíza relembra sua vida no interior, lembra-se da falta de sorte, de como foi abandonada por um homem a quem dedicou toda sua vida, a desilusão sofrida justifica a sua atual situação, e como num filme em preto e branco, ela recebe toda a carga emocional do momento do trauma, do abandono. Mas Luíza tem certeza de que não há outra vida, senão aquela que escolheu viver. Fixa sua mente no propósito que tem que realizar – viver a sua vida miserável, como forma de suicídio consciente, uma vingança para ter sobre seu domínio homens diversos. Nas suas relações com estranhos, Luíza não se constrange, age como se fosse aquela a sua condição desde há muito tempo, era como se ela estivesse na verdade se relacionando com seu antigo namorado.  Luíza encontrou esse modo inconsciente de escapar do vexame moral, que era para uma mulher honesta se prestar a esse artifício para ganhar a vida.

A visão, embora noturna, é impressionante; uma mulher com porte de princesa caminha à beira da estrada, seus movimentos são firmes, com passos retos, Luíza se dirige para seu predador natural, até aqui não lhe sobrevém nenhum remorso, seu desejo é se entregar para um homem estranho, que não lhe cobrará responsabilidades futuras, nem afeição. Seu vestido vermelho brilha sob a luz azulada do automóvel, sua pele branca destaca-se no desenho do vestido, fazendo aparecer sua silhueta inesquecível. O encontro da luz com o dourado dos cabelos de Luíza reluz como se fossem reflexos de uma luz ao encontrar com espelho, uma imagem de sublime perfeição estética. Não seria comum se encontrar uma mulher desse porte, de carne e osso, à beira da estrada da morte, provavelmente o motorista tenha tido calafrios, ao ver se aproximar aquela aparição.

O carro para. Luíza se dirige para o estranho solícito.

-Como vai? – Diz Luíza com a voz meiga e calma. O estranho, com riso fácil, manda-a entrar no carro. Luíza obedece e senta-se ao lado de um homem jovem, até certo ponto simpático. A conversa evolui. O estranho a convida para irem a algum lugar, para se divertirem antes de possuí-la.

Luíza não aceita, diz que não tem hábitos de ir a bares com estranhos ou mesmo a motel com clientes. E que se o homem quiser ter alguma coisa com ela terá de ser no carro, ali mesmo. Essa atitude deixa o seu cliente confuso. Como que uma mulher de beira de estrada pode se revelar tão moralmente firme, quanto à decisão de não se tornar íntima daquele a quem oferece seu corpo por dinheiro? Mas não há desacordo quanto ao preço e lugar… venda consumada; ali na estrada da morte, o cliente não reclama do modo nem do serviço prestado, afinal, Luíza é uma bela prostituta, com potencial para ser primeira dama de qualquer estado. Luíza deixa para trás mais um estranho satisfeito e encabulado.

A estrada da morte, como era conhecida ficava um pouco afastada da cidade, para voltar para casa, Luíza precisava pegar um ônibus, por ser já muito tarde não estava lotado como os que circulavam durante o dia. Ao entrar no ônibus, Luíza tem a impressão de que todos os olhares são para sua vergonha, como se todos soubessem de onde ela vinha e o que esteve praticando. Alguns homens da classe operária a olham tirando-lhe o vestido vermelho. A viagem é curta, apenas alguns quilômetros. Luíza chega a seu prédio já depois da meia-noite. Depois que a porta se fecha; Luíza enfim se entrega ao pranto, seu desencanto não tem tamanho, fora maior que o dia em que fora abandonada pelo seu primeiro e único amante. Luíza rasga o vestido, único vermelho que possuía, corre ao banheiro e liga o chuveiro na temperatura máxima, para ver se consegue lavar as marcas do homem estranho, por todo seu corpo. Durante o banho relembra as palavras do seu cliente, a fúria com que lhe possuiu, a extravagância a que foi submetida em sua primeira relação em troca de dinheiro. Era como se o seu corpo fosse agora uma entidade à parte, sua alma se afastara da consciência dos seus movimentos físicos. Mas a sua mente prosseguiria com o mesmo propósito? Embora desligada do corpo a que submetera tão horrendo sofrimento, seguiria até o fim, com aquilo que acreditava ser sua razão de vida?

POR EVAN DO CARMO

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