PF, subordinada a Moro, manda investigar de Glenn Greenwald e o Intercept

Informação é do site ‘O Antagonista’, pró-Moro. Parlamentares e jornalistas reagem à quebra da liberdade de imprensa, prática comum às ditaduras
Jornalista Glenn Greenwald, que foi solidário a “O Antagonista” quando este sofreu censura agora lamenta apoio do site pró-Moro para abafar a Vaza Jato

São Paulo – Conhecido pela defesa da Operação Lava Jato e por atacar políticos da esquerda brasileira, o site O Antagonista publicou nesta terça-feira (2) a informação de que a Polícia Federal pediu ao Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) um relatório das atividades financeiras de Glenn Greenwald, editor do The Intercept. Segundo o site, o objetivo seria verificar alguma movimentação atípica relacionada à “invasão” dos celulares de integrantes da Lava Jato. “Trata-se de uma ação de inteligência. O advogado americano só será investigado se houver algum indício de que tenha encomendado o serviço criminoso”, finaliza o texto.

Durante o depoimento de Sergio Moro na Câmara dos Deputados na tarde desta terça, o deputado federal Marcio Jerry (PCdoB-MA) questionou o ex-juiz e atual ministro de Justiça se a PF estaria investigando o jornalista. Moro não respondeu. “Algo de extrema gravidade”, destaca o parlamentar.

Muitos parlamentares e jornalistas reagiram nas redes sociais. O deputado federal Paulo Pimenta (PT-RS) lembra que  Moro, como ministro da Justiça, é o chefe da Polícia Federal. “Ao colocar o órgão para investigar movimentações financeiras do jornalista, Moro está aparelhando a estrutura do governo brasileiro para promover perseguição política e coação!”

O ex-prefeito e ex-ministro Fernando Haddad afirmou que Moro age para intimidar o jornalista que o investiga. “Prática é comum em ditaduras. Glenn disse que não recua, apesar das ameaças. Moro, na Câmara, reconhece ‘algumas’ das mensagens divulgadas.”

Para o ex-deputado e advogado Wadih Damous, se isso for verdade, vai se configurar ato de improbidade da autoridade que determinar a medida.

“Moro está usando o Ministério da Justiça e a Polícia Federal pra atacar a liberdade de imprensa”, criticou o deputado federal Marcelo Freixo (Psol-RJ). “Atitude típica de regimes autoritários.”

Investigue tudo

Gleen Greenwald disse a Moro, via Twitter, para investigar tudo o que quiser. “Grupos de liberdade de imprensa em todo o mundo terão muito a dizer sobre isso. Enquanto você usa táticas tirânicas, eu continuarei reportando junto com muitos outros jornalistas de muitos outros jornais e revistas”, disse, a respeito das reportagens que vem veiculando, sobre a troca de mensagens por meios das quais Moro orientava a atuação dos procuradores da Lava Jato.

“Como eu disse desde o início – tanto no caso Snowden quanto no caso Moro –, nenhuma intimidação ou ameaça interromperá as reportagens. Ameaças do estado só servem para expor seu verdadeiro rosto: abuso do poder – e por que eles precisam de transparência de uma imprensa livre.”

Glenn Greenwald

@ggreenwald

Você, @SF_Moro, vai e “investiga” tudo o que quiser. Grupos de liberdade de imprensa em todo o mundo terão muito a dizer sobre isso. Enquanto você usa táticas tirânicas, eu continuarei reportando junto com muitos outros jornalistas de muitos outros jornais e revistas.

Glenn Greenwald

@ggreenwald

Aqui está a diferença entre a) jornalistas reais que acreditam na liberdade da imprensa e b) porta-voz de políticos: quando o @o_antagonista/@RevistaCrusoe foi censurado, fui um dos primeiros as sair em defesa. Eles agora estão liderando o esforço para criminalizar meu jornalismo

Ver imagem no Twitter
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Glenn Greenwald

@ggreenwald

Aqui está a diferença entre a) jornalistas reais que acreditam na liberdade da imprensa e b) porta-voz de políticos: quando o @o_antagonista/@RevistaCrusoe foi censurado, fui um dos primeiros as sair em defesa. Eles agora estão liderando o esforço para criminalizar meu jornalismo

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Glenn Greenwald

@ggreenwald

Além da minha defesa da liberdade de @o_antagonista/@RevistaCrusoe, o @TheInterceptBr publicou o artigo censurado – mesmo que pensássemos que era jornalismo ruim – em solidariedade à sua liberdade de imprensa. Isso é o que os jornalistas reais fazem: https://theintercept.com/2019/04/15/toffoli-crusoe-reportagem-stf-censura/ 

Publicamos a reportagem da Crusoé que o STF censurou

O ministro Alexandre de Moraes ordenou que a revista Crusoé tirasse do ar uma matéria sobre o presidente do STF, Dias Toffoli. Decidimos publicá-la.

theintercept.com

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George Marques, jornalista da Fórum, relata que o site entrou em contato com a Polícia Federal. “À Fórum, a PF disse que investigações são sigilosas e não podem ser confirmadas. Mas então vazaram pro site que atua como porta-voz do ministro? Abuso de poder?”

A pitada de humor e ironia veio do jornalista José Simão. “Cuba Urgente! Venezuela News! Moro manda a PF mandar a Coaf investigar atividades financeiras do Glenn Greenwald! Coisas do Conje!”

ONU e OEA contra ataques a Glenn

A Comissão Interamericana de Direitos Humanos (CIDH) e a Organização das Nações Unidas (ONU) manifestaram-se contra as ameaças e os ataques ao jornalista Glenn Greenwald no Brasil, informa o Diário do Centro do Mundo.

O relator especial para a Liberdade de Expressão da Comissão Interamericana de Direitos Humanos, Edison Lanza, e o Relator Especial das Nações Unidas para a Promoção e Proteção do Direito à Liberdade de Opinião e Expressão, David Kaye, emitiram um comunicado informando ao mundo “as ameaças, desqualificações por parte das autoridades e as intimidações recebidas pelo jornalista… bem como com seus parentes, após a divulgação de informações e denúncias de interesse público”.

E destacaram o importante papel desempenhado pela mídia para a democracia. “Como resultado, os jornalistas que investigam casos de corrupção ou ações impróprias por autoridades públicas não devem estar sujeitos a assédio judicial ou outro tipo de assédio em retaliação por seu trabalho.”

O Estado brasileiro foi cobrada em sua “obrigação de prevenir, proteger, investigar e punir a violência contra jornalistas, especialmente aqueles que foram submetidos a intimidação, ameaças ou outros tipos de violência”.

CÂMARA DOS DEPUTADOS

Deputados questionam Moro. Ex-juiz se defende atacando jornalismo do ‘Intercept’

Ministro da Justiça depõe a três comissões e diz que vazamentos são fruto de atos de “grupo criminoso”. “É trivial que juízes falem com procuradores e advogados”, afirma
  16:34
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PABLO VALADARES/CÂMARA DOS DEPUTADOS

Moro afirmou que o material Telegram “não existe mais”, já que saiu do aplicativo em 2017, segundo ele

São Paulo – O ex-juiz e atual ministro da Justiça e Segurança Pública, Sergio Moro, presta depoimento nesta terça-feira (2) a três comissões da Câmara: de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJ); de Trabalho, Administração e Serviço Público; e de Direitos Humanos e Minorias. Ele responde a questões dos deputados sobre as revelações do site The Intercept Brasil sobre sua condução dos processos da Operação Lava Jato. A audiência é tumultuada e o presidente da sessão, deputado Felipe Francischini (PSL-PR), ameaçou suspender a reunião.

O ex-juiz mencionou ataques ao seu celular e disse que “alguém com muitos recursos” está por trás das invasões de seu celular para anular “condenações”. Segundo ele, quem estaria por trás das invasões não são “adolescentes com espinhas”, termo usado duas semanas atrás, também na Câmara. “É ilustrativo de uma conduta de contra-inteligência que não é condizente com ‘adolescentes com espinhas’”, acrescentou. Reiterou que “um grupo criminoso” estaria por trás das revelações.

O ministro afirmou que o Intercept talvez quisesse ser objeto de “busca e apreensão” em suas dependências “como mártir” da imprensa. Como no depoimento ao Senado, afirmou não reconhecer a autenticidade dos diálogos, mas admitiu que “algumas” (mensagens) podem ser dele, “algumas podem ter sido adulteradas total ou parcialmente”. As mensagens foram divulgadas “com sensacionalismo”. Citando o ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Federal (STF) Carlos Velloso, disse que os diálogos divulgados “não tinham nada de ilícito”.

“É comum que juízes falem com procuradores e advogados. (São) coisas triviais. Esse contato (de juiz) existe com procuradores, delegados e advogados. Como juiz, sempre agi com correção, com base na lei, na imparcialidade, sem qualquer espécie de desvio. “

Moro repetiu que não está demonstrada a autenticidade das gravações. “(Mas) Se as mensagens não foram adulteradas, não tem problema. Não reconheço a autenticidade. Pode ter material adulterado total ou parcialmente.”

A deputada Professora Marcivania (PCdoB-AP) atacou a ameaça à liberdade de imprensa contida nas respostas dos envolvidos nos diálogos revelados. “Se confirmada a autenticidade, vossa excelência violou o decoro, o dever de imparcialidade, transparência, uso privado de bens públicos, violação da honra da magistratura.”  A parlamentar acrescentou: “O senhor violou 18 artigos do Código da Magistratura Nacional”, entre os quais, a quebra do dever da imparcialidade.

No Twitter, o deputado Marcelo Freixo (Psol-RJ) também acusou como “grave” o ministro da Justiça “criminalizar o jornalismo e a liberdade de imprensa, fundamentais pra a democracia”. Para Freixo, “Moro age de forma ardilosa ao tentar igualar a ação criminosa de hackers com a prática do bom jornalismo que divulga informações de interesse público”.

O deputado Rogerio Correia (PT-MG) lembrou que, em um dos trechos de diálogos de Moro, ele aconselha o procurador Deltan Dallagnol a afastar a procuradora Laura Tessler, que não era suficientemente “firme” para conduzir o processo contra o ex-presidente Lula. “Pediu para afastar, e afastou”, disse Correia. “The Intercept, BandNews, VejaFolha de S.PauloCorreio Braziliense, todos confirmam os conteúdos (da Vaza Jato). O senhor continua negando os diálogos? Eu sugiro uma CPI”, prosseguiu.

Moro respondeu dizendo que, apesar das críticas, “a Lava Jato foi a maior investigação de corrupção e lavagem de dinheiro da história do país”. “Foi um trabalho institucional, reunindo MP, polícia e juízes”.  “Após o acordo com a Odebrecht, (a Lava Jato) atingiu todos os partidos.”

Moro afirmou ainda que houve “muitas tentativas de destruir a reputação dos envolvidos na operação”. Ele acrescentou que o material do Telegram “não existe mais”, pois ele saiu do aplicativo em 2017. “Apresentem as mensagens para autoridades competentes. Não posso comprovar a autenticidade de um material que não tenho.”

“Moro diz que quem está divulgando quer impedir as investigações. Quem quer impedir investigação é quem diz para não investigar FHC, porque é aliado. Aliado em quê? Quem está impedindo as investigações dos corruptos?”, questionou a deputada Erika Kokay (PT-DF).

Paulo Pimenta (RS), líder do PT, disse que a Lava Jato se transformou em um projeto de poder, o que é comprovado pela ida de Moro ao ministério de Jair Bolsonaro. O parlamentar perguntou se o ex-juiz nega que tenha grampeado escritórios de advogados de Lula.

Moro não respondeu à questão sobre os advogados. “Se as mensagens não foram adulteradas, não tem nada ali.” Ele se defendeu de uma série de questões dizendo que, no sistema de Justiça, existe a revisão de decisões. “A maioria das decisões foi mantida”, afirmou, citando o Tribunal Regional Federal da 4ª Região (TRF-4), o STF e o Superior Tribunal de Justiça (STJ). “Nunca me satisfiz pessoalmente de condenar qualquer pessoa e as decisões foram mantidas.”

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