O COVEIRO-CONTO, FANTÁSTICO

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Sou coveiro. Trabalho em um lugar que muitos homens de forma alguma jamais se atreveriam. É um trabalho realmente incomum. Mas, devo admitir para os senhores que não convivem bem com a Ideia abstrata da morte que, no meu caso, sou um homem até certo ponto feliz.

Já por décadas eu sigo uma rotina comum, como todos os cidadãos que acordam muito cedo para enfrentar esta batalha que temos em comum, o fato concreto, esta luta colossal, a procura de uma subsistência como criatura viva. É. Viver é algo muito difícil, principalmente neste tempo de crise.

Não me aborrece por acaso, o fato de ter que presenciar todos os dias, várias vezes, alguém sendo enterrado. Já compreendi, com muita clareza e lucidez que isso é algo muito natural. Às vezes me choco não com a morte, mas ao observar muitos dos vivos que aqui vêm enterrar os seus mortos, porque eles me parecem estar em situação muito pior do que os mortos e dos cadáveres que carregam aos prantos.

Confusão já presenciei bastante: outro dia, não faz muito tempo, eu vi uma família que se desesperava com a partida do seu provedor para o além… Mas vejam os senhores que assim que enterraram o infeliz… Desculpem a ironia, melhor chamar-lhe de feliz, pois se livrar de uma prole daquele naipe, é, devo dizer, um “descanso eterno”.

Havia com um morto três pessoas, apenas a esposa e um casal de filhos ainda jovens. Parecia-me que não eram ricos, pois os ricos geralmente são enterrados com grande pompa. Neste caso devia ser uma família de classe média baixa que, ao que me parece, já estava entrando na linha da pobreza de fato. Um fato que pode elucidar essa questão é o seguinte. O relato que vos farei agora esclarecerá esta nossa dúvida. Eram pobres ou pareciam pobres? Não há nenhuma diferença entre ser e parecer. A raça humana é guiada apenas pela aparência. Não se vale pelo que se tem e sim pelo que aparentamos ter, mas essa pequena e odiosa família não tinha lá muita coisa. Pude perceber apenas que eles, os membros que ali estavam, tinham mesmo só um morto para lamentar. Até que lamentaram. A mãe dava berros de aflição, enquanto que a moça e o rapaz só alguns lamentos breves, logo desviavam a atenção para outros enterros que aconteciam na mesma hora.

É estranho isso? Não, aqui neste nosso sistema capitalista até os mortos não têm mais nenhum privilégio ao chegar ao paraíso ou ao inferno para onde vão ao morrer. Morrem muitos ao mesmo tempo.  As catástrofes são agora mais naturais que antes. Nas guerras, por exemplo, e nas epidemias as formalidades humanas e espirituais tiveram que ser alteradas para se atender a todos. Enterram-se até cristãos sem a presença de um padre, não há como atender a todos e, a igreja também hoje em dia custa muito caro. Imaginem os senhores que agora lá em cima os miseráveis têm que esperar em uma Grande Fila para saberem para onde vão. Fico a pensar no porteiro lá do céu, não sei se ainda é São Pedro, aquele pescador que acompanhou o Cristo em sua jornada.

Digamos de passagem que depois que seu mestre foi embora mais trabalho lhe foi designado, teve que tomar conta do rebanho que não era nada pequeno, milhares de doentes, leprosos e muitos famintos para alimentar. Coitado de Pedro, talvez já tenha se aposentado. E no inferno? Lá, tenho certeza que não é mais o Diabo em pessoa quem recebe seus hóspedes perpétuos. Esse já se desligou do seu posto. É provável que já não esteja aceitando qualquer um para morar na sua mansão de ouro. É possível que para se entrar hoje no inferno um cidadão comum não seja capaz pela montanha de procedimento que precisa executar. A burocracia deve ser tanta que muitos desistem. É também possível que para lá viver ou morrer eternamente, os candidatos só serão agora empossados por investidura de um concurso secreto, onde eles possam provar por A + B que foram por toda vida praticantes do mal, sem nenhum lapso de lucidez caridosa ou de influência febril da justiça divina.

Sim, voltemos ao nosso morto, ao senhor que vi ser enterrado nesse dia que foi um tanto para mim inesquecível. Esse homem merece alguma consideração. Por isso temos que acrescentar mais informação ao conto que era para ser minúsculo, pela força modéstia que pode oferecer-nos esse ofício simplório de coveiro. Esse senhor, pelo que pude ouvir nas lamúrias dos seus parentes distantes, era um piloto de avião comercial que caíra por sorte de um acidente também incomum. Enquanto viajava no seu helicóptero, transportando cargas para uma agência de correios, acho que uma transportadora de valores ou de encomendas particulares. Esse miserável que agora jazia sob uma possa de lama que, o estado persiste em dar o nome de sepultura comum para a humanidade, não podia ter um destino melhor? Então, na sua última viagem, depois de vencer grandes tormentas, tempestades e até pequenos tornados, lá pelo sul do país. Neste dia, enquanto seguia com razoável satisfação, pois esse senhor espera que fosse esta sua última viagem, porque havia dado entrada em sua aposentadoria e, já esperava com muita ansiedade que devia lhe esperar uma grata surpresa. De repente, um pássaro que se perdera do seu bando, não se sabe ao certo, se era uma águia real ou um urubu faminto. O fato é que esse infortúnio lhe causou a morte, acredito que de ambos. A força gravitacional é tão poderosa nessa altura que, um pássaro de ferro com muitos cavalos de potência se iguala a um pássaro de alguns quilos de carne.

Caíram os dois e ainda mataram um homem. É uma ironia ou um fato para uma reflexão sobre o valor real da vida humana?

Sobre o que discutia a família? A mãe dizia:

-Não pensem vocês que eu vou lhes dar alguma coisa do dinheiro do seguro do seu pai. Eu vou aproveitar para fazer a minha tão sonhada plástica. Passei a vida toda pedindo ao pai de vocês que me patrocinasse essa minha urgente vaidade. Mas ele nunca me deu atenção. Agora quero ver o que ele pode fazer para me impedir.

Os filhos, por sua vez, também faziam as suas reivindicações.

A filha dizia:

-Não senhora, minha mãe, você vai ter que me dar metade desse dinheiro, eu vou fazer aquela viagem. O papai já tinha dado seu o ok. Ele disse que este mês, quando saísse a sua aposentadoria eu ia poder viajar. Meu sonho, aquele cruzeiro até a Argentina. Não pense que vou abrir mão do meu sonho para que você realize o seu. Depois, para que fazer uma plástica a esta altura da vida? Ou será que você está pensando em casar-se outra vez? …

-Podem parar as duas com essa discussão inútil – Gritou o filho como um touro raivoso. – Quem vai tomar de conta de tudo que for do meu pai sou eu. Não pensem que vão acabar com a herança do meu pai em tolices e vaidade de mulher fútil. Eu vou comprar um carro novo e viagem pelo mundo…

 

Do livro FRAGMENTOS DO CAOS

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