“AMOR A 4 MÃOS” DE EVAN DO CARMO E IRANETE DO CARMO, EM COMEMORAÇÃO AOS 29 ANOS DE CASAMENTO

amor a 4 maos.jpg

No alvoroço do dia, o engendramento do amor em sua plenificação de existir

Não me lembro mais qual foi nosso começo. Sei que não começamos pelo começo. Já era amor antes de ser. (Clarice Lispector)

O que é o amor? Para Sartre (2011, p. 456), “um empreendimento (…) um conjunto orgânico de projetos” irrealizáveis, um ideal contraditório, uma fuga de si-mesmo, com traço característico para o flagelo e a desventura humana, cuja antítese, ou antídoto, seria o estabelecimento do Para-si em liberdade. Para Branden (2002), a unificação de duas pessoas em uma só, o que remete ao conceito bíblico de “um só corpo e uma só carne”. Para o senso comum, de uma forma rasa, porém, de fácil compreensão, para além dos status, desejos, leis e poder, seria a “cara metade”, a “metade da laranja”, a “tampa para a panela”, a “manteiga para o pão”, a “cobertura para o bolo”, o “recheio para a bolacha”, a “cama e colchão” e, por fim, “a metade do coração”.

Mas, afinal o que seria o amor?. Esse ideário tão intensamente lardeado, retratado, exaltado, celebrado e louvado por músicos, poetas, pintores, gente do povo e artistas populares! Para Platão, uma busca constante e construção. Distinta sublimação da beleza, do bem e da sabedoria. Para Disney, um estereótipo antagônico entre o sujeito de proteção (que detém o jardim) e o sujeito protetor (que lavra o jardim para dele extrair o sustento), resultando em um final feliz. Para o patriarca Moisés, em sermões escritos na planície de Moabe, seria a representação significativa de proteção, orientação, ensinamento e responsabilidade, que corrobora com o sentimento compartilhado pelo visionário Paulo, na cidade de Éfesos.

Ainda sem definição clara, observa-se que, para Simone de Beauvoir, o amor seria a idealização de uma experiência contingencial, indo de encontro à moral burguesa da época, cuja relação, embora pautada no respeito e confiança e alicerçada na empatia da linguagem, suscitava no ser sofrimento e angústia. Conceito próximo do entendimento de Heidegger, para o qual o amor estaria intimamente ligado ao afeto e “todos os afetos”, segundo o existencialista, seriam configurações de poder, em que, ontologicamente, querer, amor e desejo estariam entrelaçados ao ser-no-mundo, ao ser-com. Compreensão esta trazida do mundo nietzschiano, em que o amor seria uma insidiosa armadilha de desejo e conquista, o que suscitaria outras forma de dominação.

Ora, se nem sábios, filósofos, escritores, patriarcas e, naturalmente, gente com a mesma vida de pouca tinta que a minha, conseguiram contingenciar um entendimento que possibilitasse uma melhor compreensão acerca do amor, por que “cargas d’água’ o Evan do Carmo me veio com esse pedido? Pediu-me ele para prefaciar o seu livro intitulado “Amor a 4 mãos: Os poemas que fizemos. E ele, sem demora esclareceu ser uma homenagem aos 29 anos de enlace matrimonial. Em razão do pedido (mais do autor do pedido -a quem nutro deslanchada amizade- que do pedido em si), não pude escusar. E hoje, ao abrir o livro, tendo o prévio conhecimento que seria uma coletânea poética escrita pelo autor, em companhia de sua consorte, arregimentei-me a fazer a travessia.

Sim, ninguém se afeiçoa a escrever (ou tecer um ensaio ou uma crítica) sobre a matéria evocativa do amor sem se atrever a transpor (de sentido ou significância, signo ou símbolo) o vigor do próprio existir. Haja vista ser o amor, com bem realça Heidegger (1967, p. 29), algo cuja essência se funda no querer, em possibilidade do ser-com, em razão do deixa-ser. Com esta ideia à mente e, sabendo do mestre Guimarães Rosa (1994, p.798) que “o amor, mesmo, é a espécie rara de se achar”, ou de se achar no outro ser, em busca e procura constante, tal qual fizeram Evan e Iranete há 29 anos, o livro à minha frente se constituiu em um expressivo banquete aos olhos. Cujos 75 poemas/pratos, indistintamente, exalaram o singular sabor do amor à minha alma.

Assim, de maneira cortês, carregado de um discurso afetivo beirando o encantamento, contive os meus gestos corporais, desviei-me a qualquer outro pensamento, cadenciadamente sentei-me à mesa e me dispus a deliciar do banquete evan-iranetiano à frente. E que baquete farto. 41 pratos da melhor iguaria evaniana, feito a capricho pelo suprassumo da gastronomia e Master Chef da culinária literária. 32 pratos especiais, servidos a molho iranetiano, preparados com meiguice, gratinado com gentileza e refogado com sensibilidade. Arrumados com afeição, blandície e amorosidade pelas delicadas e talentosas mãos da Sous Chef do afeto e da ternura. E carregado de bons sentimentos, ainda fui servido com 2 sobremesas à pedido dos 2 Chefs.

A cada prato servido, o cheiro e sabor, misturados às sensações gustativas, em apetências de água na boca, enchiam-me os olhos de extremada alegria, dando-me a compreensão de que “assim nascem e se eternizam, a paixão e o verdadeiro amor…” Dois casais ao meu lado, de mãos dadas, conversam felizes “abraços, beijinhos (…) e carinhos…!” Olhei-os, demoradamente, “sabia exatamente o que nascia no meu peito… Brotava um sentimento além da paixão… Uma emoção única, que eu nunca havia sentido… Eu não me reconhecia…” Deliciando-me das iguarias evan-iranetianos “resolvi novamente fechar as pálpebras e sonhar dentro de minha própria realidade… Aí sim, vi-me colorindo o céu de minha existência de azul anil, voando e bailando, pra lá e pra cá, com asas de algodão branco, desenhei um arco-íris.”

Sobre a toalha, os pratos se esvaziavam velozmente. “Esse é meu mundo! Não aceito águas turvas, nem que turvem meu horizonte… Meu caminho quem traça, pinta e borda sou eu, com vermelho sangue, tiradas do meu amor, do meu coração, tintas preparadas com meu sangue azul, com lampejos de amarelo sol, que banham meu dia com amarelo ouro!”, e, “para eu ser feliz, planto um jardim imaginário, enfeitando e dando preferência a cada dia.” E pensando na vida, murmurei, baixinho: “amo-te, como um simples trovador que dedica seu amor num canto rouco esperando da amada o fim da dor. E te amo assim, quase doente, como um louco perdido na grandeza desse amor. Na convicta impressão de que todo esse amor ainda é pouco.”

É impossível não se deliciar a este banquete. A Sous Chef se aproxima e diz: “Dentre tudo o que Deus concede ao homem, o tempo tem lugar especial. (…) É o tempo que desenha marcas nas faces, espalha neve nos cabelos, leciona calma e paciência, quando o passo já se faz mais lento. (…) O tempo é, enfim, um grande Mestre, que ensina sem pressa, aguarda um tanto mais e espera que cada um, na sua vez, se disponha a crescer, servir e ser feliz.” No mesmo instante, o Master Chef pondera: “Queria cantar o amor em sua primorosa essência, como Ricardo Reis à Lídia, como Dante à Beatriz. Inexoravelmente nasci atrasado, atrás de todos esses, mas o amor ainda me inspira loucura e lucidez para compor poemas tão simples como este.”

No envolver do momento, inebriado de ternura, ouvi o Master Chef sussurrar, pausadamente, à Sous Chef: “Venha querida, dê-me a sua mão. Sentemos à beira do rio. Olhemos a vida seguir seu curso. Abraça-me… Só nos teus braços eu posso pensar em eternidade. (…) Aperte minha mão, e sinta o silêncio. Nenhuma palavra será suficiente para representar o que sinto agora. Venha querida… Esqueçamos o tempo.” Imediatamente a Sous Chef respondeu: “Faço questão de ser eterna, somente a eternidade me dará o tempo exato para o meu sorriso, para teus abraços. Para ser feliz (…) Ser aprendiz do teu ser… do teu amor… em teu corpo fazer morada… E na exatidão do tempo, o meu tempo nunca se extinguir.”

Banquete assim, envolve-nos a ponto de nos encastelar aos nossos estados afetivos. Um casal de amigos, sentados uma mesa à frente, sorriem, cálida e carinhosamente. A moça fala ao rapaz: Meu amor, me ama! Em silencio, bem baixinho. Eu gosto de teus sussurros. Tu me arrebatas com teus carinhos! Meu amor, me ama! Sei que me queres muito! Eu também muito te quero…! Me ama devagarinho. (…) nosso amor é chama eterna que nunca se extinguirá.” O rapaz, olhando à moça com meiguice responde: “Impossível não ceder ao teu chamado, seja com os olhos ou com as mãos. Basta um olhar (…) Tua alma aquece o meu corpo (…) Cogitei te fazer um poema novo (…) és perfeita e constante ao meu prazer, como o sol que não perde a posição.”

O amor é matéria que muito me agrada. Dá-me intenso prazer degusta-lo. Dou-me a ele em disponibilidade de voo e em repetição de felicidade. E quase ao fim do banquete, tomando a mão da Sous Chef Iranete, o Master Chef Evan pondera: “Tua mão, taça refratária, onde bebo o vinho e o sangue da tua imperfeição! Tua mão poderá ser calma doce e refrigério. Tua mão é suor e lágrima, angustia e medo, afeto e repúdio. Tua mão é sonho e pesadelo, paz e desespero, poema improvável.” Eis que a Sous Chef Iranete reponde: “Meu amor não precisa explicar pra que me entenda… Minha mão não precisa te buscar pra que me acaricie… Meus olhos falam a ti sem minha boca se pronunciar… (…) Meu coração não precisa mais bater, o seu bate e o meu ressuscita.”´

Isto é amor. Com suas implicações e aceitações. Suas surpresas e acolhimento. Seus desarranjos e sonhos. Quem sobrevive sem o amor? Sem o amor de amar em amar o amor a vida não tem sentido. Torna-se pesada e desesperadora. Não contribui com a beleza. Não emite qualquer ensinamento ou encantamento. Só amor faz a vida mais bela. Constrói felicidade em tempos de intenso choro. Constitui-se profundidade em tempos de poucas águas. Exorta, pondera e acolhe. Arranca da densa escuridão um fiapo de luz. Assim é o sentimento retratado neste “O amor a 4 mãos: Os poemas que fizemos. 75 suspiros de intenso louvor à vida e ao amor. Cuidadosamente recolhidos, qual orvalho no amanhecer, em homenagem a 29 anos de uma linda história de amor.

Finalizando o banquete, novamente me interrogo: O que é o amor? No recolher dos pratos pelo maitre/tempo, olho além vidraça e um pequenino bem-te-vi, com suas penugens pardas e amarelo vivo, com listras branca acima dos olhos e a conhecida cauda e longo bico preto achatado, pousa, silenciosamente, nos ramos de um oitizeiro balançando suavemente ao sabor do vento. E nada mais me inquieta o coração. Eis o amor em sua mais plástica representação. Um mundo para se saborear a gosto de poesia. Provisória e transitoriamente levanto-me da mesa do banquete em que Evan e Iranete do Carmo me ofereceram e ergo a cabeça sentindo-me a pessoa mais feliz do mundo. Consumido de alegria abro o peito em um último solfejo: Bem-te-vi, amor!

E, ao meu entoamento, em um desvelamento que só o amor produz, a vida me abraça, faminta. E, qual coloridas borboletas sobre um lençol de água, prenunciando os milagres de Deus, liturgicamente o tempo produz em minha alma a sua indescritível (e luminosa) epifania. E das benfeitorias do amor, que a vida segue a me ofertar, este Amor a 4 mãos: Os poemas que fizemos, desencadeia em meu ser um misto de apaziguamento e alvoroço. Pois é assim que o amor se transfigura nas flamas do dia. Como diria Olga Savary, em uma expressão de delírio selvagem. Em riqueza imagética e metafórica de voo, de ninho e de comunhão. Em lava, em sangue, em palavras e fogo de explosão. Engendrado de mistérios, feito a vitória-régia em suas tessituras de águas.

Um belíssimo livro. Tomado de in_comparável alumbramento à plenificação do amor, recomendo-o! Boa Leitura!

Alufa-Licuta Oxoronga
Psicólogo Clínico, Escritor, Artista Plástico

BAIXE O LIVRO A 4 mãos final… final…19

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair /  Alterar )

Foto do Google

Você está comentando utilizando sua conta Google. Sair /  Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair /  Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair /  Alterar )

Conectando a %s