Dois anos depois, quem mandou matar Marielle Franco?

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Por Brasil de Fato – Neste sábado (14), os assassinatos da vereadora Marielle Franco e do motorista Anderson Gomes completam dois anos. O caso ganhou repercussão internacional e tornou Marielle um símbolo político na luta por direitos humanos e pela maior participação da mulher negra nos espaços de poder no Brasil.

Após 24 meses, a pergunta: “Quem mandou matar Marielle Franco?” permanece sem resposta. As prisões do policial militar reformado Ronnie Lessa e do ex-policial militar Élcio Queiroz, em 2019, acusados participarem diretamente da execução da morte da parlamentar e do motorista não elucidaram por completo o crime.

O Brasil de Fato conversou com a irmã da vereadora assassinada, Anielle Franco, sobre o andamento da investigação, a participação das mulheres negras na política brasileira, as polêmicas por trás das produções audiovisuais que pretendem levar o legado de Marielle para as telas e o Instituto Marielle Franco.

Confira a entrevista completa:

Brasil de Fato: Ao longo desses dois anos, houve a prisão de Ronnie Lessa e Élcio Queiroz, acusados de executarem o crime. Nesta semana, uma decisão da Justiça do Rio determinou que eles irão a júri popular. Como a família recebeu esta notícia?

Anielle Franco: A gente entende isso como mais um passo dado, sabemos que não é o fim ainda, mas foi pelo menos uma primeira virada de página. Não tem [respostas sobre o] mandante, embora eles [Ronnie e Élcio] estejam presos. Eles podem recorrer ainda. Para a gente é mais um passo dado nessa investigação toda.

A cúpula da Procuradoria Geral da República (PGR) defende a federalização do caso que deve ser julgada no próximo dia 31 de março pelo Superior Tribunal de Justiça (STJ). Qual a posição da família sobre o rumo da investigação e uma possível retirada do processo do Rio de Janeiro?

A gente continua sendo contrário a federalização. Entendemos que as promotoras e a Defensoria Pública têm feito um trabalho ok até agora. Meus pais estão sempre lá com elas. A gente continua sem interesse de federalizar. Precisamos entender a quem interessa essa federalização.

O assassinato político de Marielle Franco incentivou outras mulheres negras a ocuparem um lugar na política brasileira. Como você vê este cenário para as eleições de 2020? Veremos mais candidaturas de “sementes de Marielle”? Você será uma delas?

Eu não sei quais as mulheres negras que vêm para 2020 ainda. Eu não tive acesso, mas acho que toda atitude, decisão de vir e se candidatar a um lugar como aquele que é a Câmara dos Vereadores é um ato corajoso e eu espero que venham muitas delas.

A história de Marielle virou tema de filme “Marielle – o documentário” e de uma série ficcional que tem previsão de estreia em 2021. Qual a sua avaliação sobre as críticas feitas à Antônia Pellegrino, uma das idealizadoras do projeto?

O documentário não tem a ver com a Antônia. Vale deixar claro isso. É óbvio que o documentário, seja ele na Globo, no SBT ou em qualquer outro veículo, é importante ter até como uma forma de eternizar a vida da Mari. As críticas do movimento negro são todas muito pertinentes. Eu acho que são críticas que não só deveriam caber a essa situação da Marielle, mas na rádio, jornal e televisão em geral. A quantidade de pessoas negras que a gente tem para que permitam contar essas outras histórias. Acho isso importante.

E vocês foram consultados sobre esses dois projetos?

Os dois projetos aconteceriam independente da gente. A lei do Brasil hoje afirma que não tem que ter autorização da família nenhuma para que seja feita uma biografia. Ser consultada se pode fazer ou não, é diferente de ser consultada com aquela coisa do tipo: “estamos fazendo e vamos fazer”. Quando tudo chega para gente, já chega bem pronto e amarrado. A família aceitando ou não, seria feito. É isso que as pessoas precisam entender. Independente de sermos consultados ou não, independente do nosso aval, a gente não tem esse controle sobre a imagem da Marielle. Então, ia acontecer com a gente ou sem a gente.

A Casa Marielle foi lançada no início do mês de março no Rio como uma das iniciativas do Instituto Marielle Franco. Como funcionam esses espaços?

A gente hoje tem o instituto como uma forma de tentar dialogar com a sociedade não só carioca, mas em nível nacional e mundial. A Casa está aqui temporariamente por 30 dias. Este mês de março somente. Sem saber se a gente vai continuar, se vai pra outro lugar.

Hoje, a gente tem um trabalho com muita responsabilidade que não é só manter o legado, mas poder de fato conversar com as pessoas que a gente espera inspirar. Não é uma coisa tão simples. A Casa tem ficado aberta. A exposição está muito linda. A gente está se mantendo através de financiamento coletivo. Não seria possível sem a galera toda que doou.

É um ano de estruturação do instituto. A gente precisa se estruturar, ouvir conselheiros e pessoas experientes nisso. Eu tenho um grande sonho: de fazer com que o instituto cresça a nível mundial, de fazer com que a gente consiga dialogar com esquerda, direita e centro em algum momento e explicar que esse assassinato é um feminicídio político e que precisa ser desvendado. Nenhuma vida merece ser ceifada desta maneira. O instituto está ai para crescer muito ainda. É algo que eu realmente espero que aconteça e eu estou colocando muita força e dedicação nisso.

Hoje, quais são as principais linhas de trabalho?

Hoje a gente tem quatro pilares que norteiam a nossa missão e valores: lutar por justiça, manter a memória da Mari viva, defender esse legado e seguir regando as sementes da Marielle.

Não temos perspectiva para a Casa Marielle durante o mês de abril porque a gente só vai conseguir de fato fazer isso após o 14 de março, que está consumindo toda a nossa energia [2° Festival Justiça para Marielle e Anderson]. O financiamento coletivo está aberto. Temos algumas metas para bater nesse financiamento, alguns projetos, que estão no nosso site: institutomariellefranco.org e vamos seguir com ele por um tempo aberto.

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