Dia da Consciência Negra: quem foi Luiz Gama, figura-chave no movimento abolicionista brasileiro

Luiz Gama: autodidata, soube utilizar as leis vigentes para conseguir, pela justiça, alforriar centenas de escravos — e figura-chave no movimento abolicionista brasileiro. — Foto: Wikicommons

Luiz Gama: autodidata, soube utilizar as leis vigentes para conseguir, pela justiça, alforriar centenas de escravos — e figura-chave no movimento abolicionista brasileiro. — Foto: Wikicommons

Ligia Fonseca Ferreira diz que Gama, além de figura-chave no movimento abolicionista brasileiro, também se destacava por seus talentos literários e jornalísticos.

Depois de organizar a edição crítica da obra poética integral do autor — publicada pela editora Martins Fontes, no ano 2000 — e de publicar a antologia Com a Palavra, Luiz Gama: Poemas, Artigos, Cartas, Máximas — pela Imprensa Oficial, em 2011 —, Ferreira está lançando Lições de Resistência: Artigos de Luiz Gama na Imprensa de São Paulo e do Rio de Janeiro, 1864-1880, pela Edições do Sesc. A obra, que traz 61 artigos escritos pelo abolicionista, é fruto de um trabalho de pesquisa e seleção de três anos.

Para ela, reconhecer o Gama escritor é fundamental para que sua biografia não seja reduzida a “um relato chapado, a umas poucas linhas na história do abolicionismo”. “Ele é dono de uma escrita bastante complexa, poderosa, literária. Naquele momento, a imagem precisava ser construída com a palavra e ele era o homem da imagem. Escrevia assumindo o foco narrativo, como se tivesse uma câmera”, afirma.

Um dos trechos que ele usa para destacar o estilo está no texto Emancipação, publicado pela Gazeta do Povo em 1º de dezembro de 1880. “Em nós, até a cor é um defeito, um vício imperdoável de origem, o estigma de um crime; e vão ao ponto de esquecer que esta cor é a origem da riqueza de milhares de salteadores, que nos insultam ; que esta cor convencional da escravidão, (…) à semelhança da terra, [a]través da escura superfície, encerra vulcões, onde arde o fogo sagrado da liberdade. Vim [lembrar ao] ofensor do cidadão José do Patrocínio por que nós, os abolicionistas, animados de uma só crença, dirigidos por uma só ideia, formamos uma só família, visando um sacrifício único, cumprimos um só dever.”

BBC News Brasil: Por que até pouco tempo atrás Luiz Gama mal era citado como um dos abolicionistas?

Ligia Fonseca Ferreira: Você sabia que [o abolicionista] José do Patrocínio [(1853-1905)] era negro? Talvez nos livros didáticos, quando se ensinava abolição, isso nem se falava…

BBC News Brasil: Sinceramente, não sei precisar se já tinha essa consciência ou se foi uma memória construída depois, já adulto… Mas por que Luiz Gama foi deixado de lado?

Ferreira: Ele era lembrado como o abolicionista Luiz Gama, tinha lá uma estátua de bronze. Mas realmente sua personalidade está sendo trazida agora, por isso meu propósito em identificar a grandeza de sua obra. Não temos a obra jornalística do Joaquim Nabuco, do José de Alencar, do próprio Machado de Assis? O Luiz Gama não foi coisa pouca. Havia uma lei de 1837 que proibia negros de irem à escola. Então o fato de ele escrever e optar por isso, ele deve ter sido um superdotado. Depois, ao escrever nos jornais onde estavam os homens brancos letrados, ele passou a ocupar uma instância de poder.

Esta sua pergunta eu também me fiz: por que Luiz Gama não está mais presente na história do abolicionismo? Porque a história da abolição, como nos chegou e foi perpetuada, bem, eu tenho algumas hipóteses. Ela foi contada pela República, que Luiz Gama não viu [ele morreu sete anos antes da Proclamação]. E era uma República madrasta que queria apagar logo essa coisa da escravidão. Mas isso em um período de crenças, de preconceito, de acreditar que a “raça negra” era inferior, isso de modo sistematizado e com ares científicos.

O próprio Luiz Gama brinca com isso em um versinho, no qual ele dizia “ciências e letras não são para ti; pretinho da costa não é gente aqui”. Luiz Gama era o contrário de tudo aquilo, ele era o negro que escrevia, o negro que lia. Ele era praticamente uma contradição. Numa república de ímpeto embranquecedor, a história foi contada tendo as grandes famílias, as famílias poderosas [nos papéis principais].

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